Prateleira: a odisseia do BTG Pactual
Como diz o ditado, não julgue um livro pela capa (neste caso, pelo título). Além de narrar a saga da instituição financeira, a obra cobre a trajetória de um dos seus criadores, André Esteves, como um “sanduíche” de duas biografias: a da pessoa física e seu filho, pessoa jurídica. Com acesso a mais de 100 pessoas que gravitaram ao redor de André e do BTG (família, sócios, concorrentes), a jornalista Ariane Abdallah costurou uma narrativa intimista e sem verniz de criador e criatura, sem se furtar às situações polêmicas e controversas.
Apesar de ser reconhecido hoje em dia como o Criador, André não fundou o banco Pactual. Sua origem data dos anos 70, e está intimamente ligada à figura de Luiz Cesar Fernandes, um conhecido banqueiro da época. O Pactual, assim como seus principais concorrentes Garantia e Icatu, formavam a vanguarda dos bancos de investimento de capital nacional. Sob a batuta dos reconhecidos Paulo Guedes e André Jakursky, o banco dava tacadas ousadas e se destacava por atrair talentos com “PHD” (Poor, Hungry and Desperate to get rich), conforme dizia a piada da época. Eis que, no ano de 1989, o estudante de computação André Esteves resolve encarar o desafio como estagiário.
Nos anos 90, o Pactual era uma máquina de imprimir dinheiro graças à visão macro de Guedes e sua operacionalização pelos trades de Jakursky, que monetizaram as transformações econômicas trazidas pela abertura econômica, privatizações e Plano Real. Mas essa bonança semeou a tragédia para Fernandes na sociedade, fragilizado por vários investimentos pessoais mal-sucedidos. Uma nova liderança emergiu no Pactual, e crescimento e rentabilidade mudaram de patamar. Essa visibilidade de banco de investimento de maior sucesso no Brasil atraiu a atenção de bancos estrangeiros, e após uma quase venda ao Goldman Sachs, a transação com UBS se concretizou. Mas o casamento não durou muito.

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As tradicionais complicações de fusões entre culturas diferentes e falta de autonomia para decisões, entre outras, logo afloraram. Junte-se ao problema uma crise nos resultados do UBS em escala global, e a unidade do Brasil acabou na prateleira de “vende-se”. Como não poderia deixar de ser, os sócios locais viram uma boa oportunidade e não deixaram passar, recomprando o ativo dos suíços. Então chegamos a 2015, com o cenário político-econômico em profundo desarranjo no Brasil, e uma operação da polícia federal leva André Esteves, então CEO do banco, à prisão. Instaura-se uma grande crise no Pactual, com clientes de longa data querendo distãncia da instituição para evitar contágio. Mas governança corporativa e muito trabalho conseguem reerguer o banco, que decide adicionar as letras BTG (Back To the Game) ao nome anterior.
Da importância da instituição no mercado brasileiro às dezenas de ex-sócios notáveis que seguem trajetórias de sucesso e constróem legados, existem vários motivos para que essa história mereça uma narrativa à altura, que o livro entrega. Resiliência é sempre um atributo fundamental aos empreendedores de sucesso, e neste caso, este traço de personalidade transcende da pessoa física para a pessoa jurídica.
De volta ao jogo: A história de sucesso, dramas e viradas do BTG Pactual
Ariane Abdallah
Editora: Portfolio Penguin
400 páginas
1a edição, 2025
* Peter Jancso é conselheiro independente e consultor de finanças
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