Open Asset: Banco Central expande o modelo que redesenhou o crédito no Brasil
Vertrau

O Open Asset é a próxima aposta do Banco Central para ampliar o modelo que transformou os recebíveis de cartão. A proposta cria infraestrutura interoperável para precatórios, CCBs e recebíveis imobiliários.
Há um padrão nas infraestruturas financeiras: elas se tornam invisíveis quando funcionam. O Pix deixou de ser novidade; o Open Finance, com 80 milhões de contas, começa a perder o caráter de inovação.
É nesse momento, quando uma infraestrutura amadurece, que se abre espaço para a próxima camada. E o Brasil está diante da mais nova estrutura que pode, novamente, redesenhar o mercado de crédito brasileiro.
O BC passou a chamar a iniciativa de Open Asset após reconhecer que o paradigma dos recebíveis se aplica a ativos mais amplos. Precatórios, CCBs e CRIs sofrem hoje dos mesmos problemas estruturais.
Antes do registro centralizado, o mesmo recebível podia ser cedido a múltiplos financiadores simultaneamente. A escrituração com APIs comuns transformou um ativo opaco em verificável.
Em 2021, o registro de recebíveis de cartão eliminou a cessão dupla e reduziu o risco de crédito. O BC vê esse episódio como o modelo a replicar em ativos que sofrem dos mesmos problemas.
Na mira do Open Asset
O diagnóstico do Banco Central aponta assimetria de informação, insegurança jurídica nas garantias e opacidade nos fluxos. A fragmentação é herança de décadas de sistemas isolados e intermediários distintos.
Para os grandes bancos, o custo é absorvível. Eles têm escala e acesso direto aos originadores. Para fintechs e FIDCs menores, a fragmentação funciona como barreira estrutural ao crédito.
Um FIDC que opera com múltiplos tipos de recebível mantém sistemas distintos para cada classe. Custos de integração e riscos de conciliação se multiplicam conforme a diversidade da carteira.
Isso não é irrelevante em escala. O mercado de FIDCs movimentou mais de R$ 700 bilhões em patrimônio líquido em 2025, segundo a CVM. Parte do custo é atribuível à fragmentação de infraestrutura.
Bruno Warmling, CTO da Vertrau, descreve o problema como arquitetural. "Um FIDC com duplicatas, recebíveis imobiliários e CCBs mantém três cadeias paralelas, com latências distintas", afirma.
As mudanças propostas pelo Banco Central têm o objetivo de eliminar fricções na negociação. A proposta se inspira na padronização que tornou exitosos o Open Finance e o mercado de recebíveis.
O argumento mais direto a favor do Open Asset é o impacto sobre as MPMEs. Empresas que acessam crédito via cessão de recebíveis não-cartão enfrentam integração técnica cara e onboarding repetido a cada cedente.
Com infraestrutura padronizada, o custo de conectar um pequeno originador ao mercado de crédito cai. O raciocínio é o mesmo que justificou o Pix: padronização reduz fricção e amplia acesso.
A Câmara formalizou o debate em março de 2026 com audiência pública na Comissão de Desenvolvimento Econômico. Foi diagnosticado que a negociação de ativos permanece dispersa em arranjos e padrões diferentes. Isso eleva custos de integração e limita o acesso ao crédito para micro e pequenas empresas.
Na audiência de março, participaram representantes da ABRIR, da CERC, da B3 e da APIIMF. O encontro reuniu pela primeira vez regulador, legislativo e setor privado em torno de uma arquitetura para o Open Asset.

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Engenharia completa do Open Asset
O desafio técnico do Open Asset supera o dos recebíveis de cartão. Naquele mercado, o BC conectou conjunto finito de credenciadoras. Aqui, cada ativo tem ciclo de vida e garantias distintos.
A questão do 'rio acima' é onde o Open Asset avança além do que regulações prévias alcançaram. Até hoje, o BC enxerga apenas o elo final da cadeia — o momento em que o recebível chega ao financiador.
Tudo que acontece antes, desde a originação e os acordos entre cedentes e fundos, segue sem rastreabilidade centralizada. Para o regulador, risco opaco. Para o mercado, custo de due diligence permanente.
Warmling aponta que "o registro atual cobre apenas o 'rio abaixo', o elo final da cadeia". As negociações entre originadores, estruturadores e fundos seguem invisíveis para o regulador.
Três vetores convergem
Três vetores convergem agora para o Open Asset. O primeiro é o split payment da Reforma Tributária, com testes em 2026 e vigência obrigatória em 2027.
Leia também: Split payment e a nova arquitetura do crédito: o que o mercado de FIDCs precisa entender antes de 2027
Ao separar a parcela tributária no momento da liquidação, o split payment transforma a nota fiscal eletrônica em evento rastreável. Isso cria a base técnica sobre a qual o Open Asset pode se apoiar.
O segundo vetor é o Open Finance, com quase 10 bilhões de chamadas de API semanais e 750 instituições conectadas. A convergência entre as duas iniciativas está no horizonte do BC.
O terceiro vetor é a inteligência artificial. Para Warmling, com o Open Asset, "um modelo de IA pode avaliar em tempo real um lastro de FIDC composto por CCBs, CRIs e duplicatas escriturais."
Infraestrutura em campo
A tokenização de ativos está na agenda do BC para 2025-2026 e converge com o Open Asset. Um ativo tokenizado precisa de registro confiável e rastreabilidade, exatamente o que o Open Asset propõe construir.
A diferença é de camada: o Open Asset resolve o problema de dados e registro. A tokenização adiciona liquidez programável sobre essa base. As duas iniciativas são complementares, não concorrentes.
A agenda do BC para 2025-2026 inclui tokenização de ativos, mas sem cronograma formalizado para o Open Asset. O debate está na fase de diagnóstico e construção de consenso entre os participantes.
Para as registradoras estabelecidas, o Open Asset é oportunidade e ameaça simultâneas. Quem domina a escrituração de um tipo de ativo terá de se reposicionar para cobertura multiclasse.
O modelo de negócio das registradoras tende a mudar. A receita por transação cede espaço para receita por integração e inteligência de dados — transição que favorece quem investiu em capacidade técnica.
Para registradoras e plataformas de originação, o Open Asset redefine as regras do jogo. Warmling avalia: "As empresas que saem na frente integram múltiplos ativos sob uma mesma orquestração".
O ciclo esperado repete o dos recebíveis de cartão: anos de infraestrutura antes que a inovação acelere. O Open Asset terá de padronizar mais classes simultaneamente, com expectativas já formadas.


