Nova safra: Crédito ao agro fica mais restritivo após recorde de RJs
Redação Capital Aberto

Depois de encerrar 2025 com um número recorde de recuperações judiciais, o agronegócio brasileiro enfrentará um cenário de crédito bem mais restritivo na nova safra de grãos.
Bancos, cooperativas e gestoras deverão ser mais rigorosos quanto às garantias e colaterais nos novos contratos de crédito para esta temporada, que começa em 1º de julho.
Em 2025, o número de pedidos de recuperação judicial saltou 56,4% para 1.990 na comparação com o ano anterior, de acordo com dados da Serasa Experience. O maior volume desde o início da série em 2021.
Este cenário levou a ajustes na oferta de crédito pelo Banco do Brasil, historicamente o maior fornecedor de crédito para o setor no país. O Banco do Brasil aprimorou seus modelos de análise na concessão de crédito, afirmou Alberto Martinhago, diretor de Agronegócios e Agricultura Familiar do BB, em resposta por e-mail.
O BB vem reforçando o uso de instrumentos que proporcionem maior segurança jurídica, segundo Martinhago. Neste contexto, a alienação fiduciária tem ganhado relevância, inclusive porque determinados ativos vinculados a ela não se submetem aos efeitos da recuperação judicial.
Segundo ele, o banco está olhando com maior atenção desde o fluxo de caixa até as garantias e o histórico financeiro dos produtores, especialmente em regiões e atividades mais sensíveis. Além disso, o banco tem modelos de análise de risco robustos e que estão em constante revisão e aprimoramento, afirmou Martinhago.
Mudanças visam à perenidade dos negócios, diz BB
De forma geral, o histórico de pagamentos, a capacidade de geração de caixa, o nível de endividamento, a qualidade das garantias e outros fatores econômico-financeiros como alavancagem, por exemplo, compõem a avaliação de crédito, explicou.
“Seguiremos apoiando o agronegócio e a agricultura familiar, com créditos concedidos de forma mais técnica e qualificada”, afirmou Martinhago.
A medida visa à perenidade dos negócios do produtor e do BB, afirmou o executivo. Isso também protege o produtor, pois oferta o crédito certo e na medida certa, garantindo a sustentabilidade no longo prazo, acrescentou.
Tradicionalmente, os bancos pediam hipotecas como colateral nos empréstimos para o agronegócio, observou uma fonte a par do assunto. O problema é que o crédito hipotecário entra na classe de garantia real dentro da recuperação judicial. Essa dinâmica torna a recuperação do bem muito mais lenta do que no modelo de alienação fiduciária, acrescentou.
Perdas são estancadas, mas a cautela prevalece
Na avaliação de Pedro da Matta, CEO da Audax Capital, gestora focada em crédito privado, com forte atuação e especialização na cadeia do agronegócio, o pior momento do setor já passou, mas o setor estabilizou em um momento ainda difícil.
Mesmo o El Niño deve ter um impacto limitado para a safra brasileira de modo geral, acrescentou. “Nem todas as regiões do país são afetadas da mesma forma pelo El Niño”, afirmou Matta.
Além disso, o fenômeno climático deve ter impacto muito maior na safra de outros países, o que pode eventualmente resultar em melhora dos preços internacionais e nas margens na próxima temporada de grãos para o Brasil.

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“Não é o caso de recuperação do setor, mas ao menos deu uma estancada depois de uma baixa muito grande para o setor”, ressaltou Matta. Nos dois últimos anos, os índices de RJs eram bem maiores e os preços dos insumos também estavam muito mais altos, explicou.
O mercado filtrou os arrendatários ou aquelas pessoas mais aventureiras, que entraram no agro no pós-pandemia quando o crédito estava muito farto e agora saíram do negócio, observou Matta. “De fato, ficaram os produtores que realmente sabem trabalhar e que já têm uma grande experiência no setor”, afirmou.
O reflexo é que o Banco do Brasil acabou fechando a torneira para novas operações ou mesmo reduzindo a oferta de crédito para alguns produtores, o que acaba abrindo espaço para outras gestoras locais.
Crescimento do financiamento privado levou a ajustes

Octaciano Neto, ex-secretário de Agricultura e cofundador e CEO da Zera.ag, uma plataforma especializada em soluções de capital, crédito e financiamento privado para o setor, ressalta que o agronegócio não está vivendo uma crise estrutural, mas um problema conjuntural.
O setor vive um dilema porque saiu de uma situação de Selic a 3% a 4% e a soja R$ 190 a saca em 2021/22, mas depois esta situação se inverteu com a taxa saltando para 15% e a soja caiu para cerca de R$ 100/saca.
“Então, tivemos, efetivamente, um aperto e o produtor rural que deu o passo maior do que a perna e ele caiu ou ‘trupicou’, como se diz na roça, por conta do excesso de alavancagem”, explicou Neto.
Com a entrada do financiamento privado no mercado de capitais, houve avanços regulatórios de forma mais concreta, com a Lei do Agro 1 e Lei do Agro 2, afirmou Neto. Os dois marcos regulatórios que contribuíram para a modernização do mercado de crédito privado para o agronegócio no Brasil.
Quando o financiamento privado ganhou força, o mercado começou a ver falhas na execução de garantias e uma destas falhas foi a hipoteca, por conta desta questão da recuperação judicial, observou Neto.
Por isso, além da alienação fiduciária, outras estruturas estão sendo desenhadas para endereçar esta questão, segundo Neto.
Como, por exemplo, transferir o ativo para um fundo imobiliário, colocar o produtor rural como cotista subordinado e o fornecedor de maior volume de crédito como cotista sênior. Desta forma, ele tira a titularidade do produtor rural e, com isso, também deixa a garantia à prova de processos de recuperação judicial.
O processo de financiamento privado do agro foi descobrindo falhas, corrigindo estas falhas regulatórias e implantando necessários em função das decisões judiciais, e aí foi buscando caminhos para robustecer este processo, afirmou Neto.
Além das gestoras, as tradings também estão aumentando o financiamento para o agro nesta temporada, destacou Neto. Não todos os setores do agronegócio, disse Neto, destacando que os produtores de café estão navegando bem neste período.
Mas produtores de soja e milho, sobretudo, estão antecipando compras de insumos com financiamento das tradings por meio das operações barter. Nestas operações, o produtor rural adquire insumos e paga a conta entregando parte de sua safra futura após a colheita, sem movimentação inicial de dinheiro.
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