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Finanças pessoais no divã

PE

Peter Jancso

Imagine dois investidores aleatórios, que batizaremos de “A” e “B”. “A” estudou na universidade de Chicago e fez MBA em Harvard, e teve uma carreira de sucesso em bancos de investimento até resolver se dedicar à filantropia, ao redor dos 40 anos de idade. “B” ficou órfã aos 12 anos, nunca casou e trabalhou como secretária toda sua vida, vivendo em um quarto e sala até falecer, com 100 anos. A despeito de todas as adversidades, B deixou um legado de US$ 7 milhões para caridade, enquanto A literalmente perdeu tudo na crise de 2007. Em nenhum outro campo da nossa vida uma pessoa sem educação formal, experiência ou conexões consegue ter um desempenho superior àqueles com todos os pedigrees, apenas na área de investimentos. B colocou sua poupança suada em ações ao longo de 80 anos e foi paciente para viver a magia dos retornos compostos, enquanto A tinha ativos ilíquidos diante de um tsunami financeiro (detalhe: estas são duas pessoais reais).

A pequena história ilustra o fio condutor de “The Psychology of Money”, de Morgan Housel. As histórias de A e B mostram que cuidar do dinheiro não está relacionado ao conhecimento do mercado, mas como você se comporta ao tratar de seus investimentos. A indústria de aconselhamento financeiro fala muito sobre o que fazer com o dinheiro, mas fala muito pouco sobre o que acontece quando você efetivamente tenta fazê-lo. A obra explora uma série de vieses cognitivos literalmente impressos no hardware dos nossos cérebros, para então tentar tratá-los por meio de software, isto é, a atenção para reconhecer tais deficiências inatas e ajustar nosso comportamento.

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A obra é organizada ao redor destes desvios “irracionais”, por meio de capítulos curtos recheados de pepitas de sabedoria. “Ele é extremamente hábil como investidor, mas seu segredo é o tempo. É assim que funciona o retorno composto”, “gastar dinheiro pra mostrar a todos que você tem dinheiro é o caminho mais rápido pra ter menos dinheiro”, “o progresso é lento para que possamos notar, mas os reveses são muito rápidos para que possamos ignorar”, “ o pessimismo soa sempre e parece mais sábio e plausível que o otimismo”... e assim por diante. O fato, difícil de aceitar pelo lado esquerdo do cérebro, é que o lado direito, das emoções, é quem influencia a maior parte do sucesso nas finanças pessoais. Nosso comportamento, mais do que planilhas, experiência e conhecimento, é quem determina nossos hábitos relativos à poupança e investimento.

Nas palavras de um amigo na casa dos 50, todos deveríamos ter lido este livro aos 20, pois teríamos evitado uma série de erros ao lidar com dinheiro e o sofrimento que isso nos causa. O problema é que, muito provavelmente, não seríamos capazes de refletir e incorporar a sabedoria em nossos comportamentos naquela tenra idade. No campo das finanças pessoais, os grandes ensinamentos vem das cicatrizes que os insucessos deixam, seja no ego/autoconfiança, seja no próprio patrimônio.

The Psychology of Money: Timeless Lessons on Wealth, Greed, and Happiness

Morgan Housel

Editora: Harriman House

224 páginas

1a edição, 2020

* Peter Jancso é conselheiro independente e consultor de finanças

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