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Haverá janela de emissões para FIIs em 2026?

FE

Felipe Ribeiro

Ainda na rebarba de 2025 — um ano que, apesar de ter sido recorde em volume de captações, teve esse número inflado majoritariamente por operações de troca de cotas, reorganizações patrimoniais e aportes via imóveis diretamente integralizados nos FIIs, e não exatamente por dinheiro novo entrando no sistema — o sentimento dos gestores segue tudo, menos otimista.

O humor para novas emissões é tão baixo que, ao comentar recentemente com um gestor de uma grande casa sobre a possibilidade de uma janela de captação até julho, recebi como resposta uma gargalhada alta. Daquelas que deixam claro que, para ele, a ideia soava quase como uma piada. Só ele riu.

Ainda assim, sigo com a minha visão: não é um cenário de terra arrasada, mas certamente é um mercado que exigirá mais seletividade, criatividade e, principalmente, humildade.

Vejo espaço, sim, para emissões no primeiro semestre de 2026, especialmente em três grupos bem específicos:

  • Novos Fundos cetipados, sem a necessidade de uma cota patrimonial menor que a de mercado;
  • Novos Fundos “amortizáveis” de papel, que conseguem dialogar melhor com o investidor em um ambiente de juros elevados;
  • E alguns poucos fundos que consigam, de fato, tirar o nariz da água, isto é, voltar a negociar com cota a mercado acima da cota patrimonial.

Para esses, existe uma janela possível ainda no primeiro semestre. E, curiosamente, o calendário pode ajudar: a depender do desempenho da Seleção na Copa do Mundo (EUA/México/Canadá), não seria exagero imaginar um clima de euforia temporária, que historicamente já se mostrou capaz de destravar apetite por risco no Brasil. Nesse cenário, uma janela até o final de julho não é descartável.

Além disso, a probabilidade de algum corte de juros nas próximas reuniões do COPOM, ainda que marginal, combinada com a postergação natural do debate eleitoral mais agressivo para o pós-Copa, pode criar um pano de fundo um pouco mais favorável. Soma-se a isso um fator importante: o bolso da pessoa física começa, lentamente, a olhar novamente para os FIIs, seja por cansaço da renda fixa tradicional, seja pela busca de renda recorrente em um ambiente ainda inflacionário.

Nada exuberante. Mas suficiente para movimentar o jogo.

Impactos da “Carbono Oculto” e da “Compliance Zero”

Não dá para falar de 2026 sem encarar de frente os desdobramentos das investigações envolvendo REAG, Master, BRB, Fictor e outros casos que ainda estão se desdobrando. É inegável que podem surgir, ao longo do caminho, FIIs, CRIs e SPEs direta ou indiretamente envolvidos nesses episódios.

Isso gera ruído, insegurança e — inevitavelmente — uma retração adicional de curto prazo. Mas há um ponto positivo, e ele não é trivial.

Tenho percebido que a pessoa física conseguiu, dessa vez, separar o joio do trigo. Diferentemente de outros momentos do mercado, não vejo um movimento forte de “criminalização” do produto em si. FIIs e CRIs não parecem estar sendo tratados como ativos “amaldiçoados” — como ocorreu com os FIDCs após o escândalo da Silverado.

Na minha leitura, isso se explica basicamente por dois fatores: Grande parte das pessoas físicas estava exposta a instrumentos com garantia do FGC. Embora muitos devam sofrer redução de rentabilidade, a percepção é de que não haverá perda de principal. Isso muda completamente o psicológico do investidor.

Os instrumentos financeiros envolvidos, ao que tudo indica, foram utilizados majoritariamente em estruturas entre partes institucionais, como veículos de engenharia financeira para supostos esquemas específicos. As pessoas físicas ficaram relativamente “fora do circuito”, o que reduziu a sensação de que foram enganadas ou vítimas diretas.

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O resultado prático é que o investidor pessoa física não passou a enxergar FIIs ou CRIs como produtos estruturalmente ruins — apenas como veículos que exigem mais atenção à qualidade de quem está do outro lado da mesa.

E isso é uma diferença enorme.

A inevitável escalada regulatória

Ainda não sabemos qual será exatamente o tamanho, a forma ou o timing da resposta regulatória. No momento em que escrevo este artigo, não há CPI ou CPMI instalada, mas é praticamente certo que alguma reação institucional virá.

Se essa resposta virá da CVM, do CMN ou de ambos, ainda é uma incógnita. O que parece inevitável é:

  • um aumento das exigências informacionais;
  • uma possível “subida de sarrafo” para abertura e funcionamento de securitizadoras (como por exemplo aumento de capital social);
  • ou até uma fiscalização mais dura e presente.

Tudo isso, em tese, é positivo no médio e longo prazo. Mas há um ponto que precisa ser dito com clareza: regulação, sozinha, não resolve tudo.

Podemos ter a melhor regulação do planeta, os controles mais sofisticados e os relatórios mais detalhados. Se houver pessoas genuinamente interessadas em burlar sistemas e operar fora das regras, elas encontrarão caminhos. Ao que tudo indica, foi exatamente isso que aconteceu em alguns dos casos recentes.

Por isso, mais do que nunca, quem pretende fazer negócios com qualquer casa — seja como investidor, gestor ou contraparte — precisará fazer muito bem a lição de casa de KYC, governança e reputação. O risco não está apenas no ativo, mas nas pessoas (físicas ou jurídicas).

Fica a expectativa (e a torcida) para que essa escalada regulatória ocorra de forma gradual, previsível e dialogada, e não de maneira abrupta, criando choques desnecessários em um mercado que já opera sob forte pressão.

2026 ainda está sendo escrito, com janela ou sem?

O ano de 2026 não será fácil para emissões de FIIs (dinheiro novo). Isso é fato. Mas também não será um ano morto. Será um ano mais técnico, mais seletivo e menos indulgente.

Haverá janela? Sim. Para todos? Não.

Quem entender o novo humor do investidor, respeitar o preço do risco, e operar com transparência real — e não apenas de PowerPoint — ainda encontrará espaço. Os demais, provavelmente, continuarão rindo… até perceberem que a piada passou.


Felipe Ribeiro é sócio diretor de Investimentos Alternativos do Clube FII, atua apoiando a regulação e autorregularão de securitização do mercado desde 2012, e é autor do primeiro livro dedicado a FIIs de CRI no Brasil


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