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Governança corporativa diante da nova ordem geopolítica

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Henrique Luz

A instabilidade geopolítica está redefinindo os fundamentos do ambiente econômico nacional e internacional. Conflitos prolongados, rivalidades entre potências, sanções econômicas, fragmentação regulatória e disputas tecnológicas influenciam cada vez mais a economia e o mercado de capitais. Isso ficou muito evidente no segundo semestre de 2025, quando o mundo e o Brasil tiveram que lidar com disputas tarifárias, e agora neste início de 2026, com a decisão dos Estados Unidos atuarem mais diretamente em outros países.

A geopolítica, anteriormente tratada como um risco macroeconômico não recorrente, se tornou uma variável extremamente sensível, com decisões políticas influenciando diretamente mercados, fluxos de capitais e cadeias de valor. Na dimensão empresarial, os conselhos de administração e as diretorias executivas, que vêm acumulando responsabilidades crescentes, têm agora este novo desafio.

Como variável estrutural do mercado de capitais, a geopolítica impacta o ambiente financeiro de diversas maneiras — seja com aumento da volatilidade, reprecificação de ativos, elevação do prêmio de risco e maior seletividade dos investidores. Para as companhias abertas, uma necessidade adicional de estruturas de governança capazes de identificar, avaliar e responder a riscos que extrapolam o âmbito econômico.

Nesse ambiente mais complexo, o dever fiduciário dos administradores passa a incluir a consideração explícita de riscos políticos, regulatórios e institucionais transnacionais. Uma possível omissão pode impactar o desempenho da companhia e o interesse dos acionistas. A questão crucial, agora, é como responder a essa instabilidade, mitigando riscos e gerando oportunidades. A resposta está justamente na governança corporativa como um elemento estratégico, com decisões do conselho de administração refletindo cenários geopolíticos e seus efeitos de longo prazo.

No 26º Congresso IBGC, realizado em outubro de 2025, o economista ambiental Pavan Sukhdev já alertava conselheiros e líderes empresariais sobre as iminentes e profundas disrupções políticas, tecnológicas e ambientais. Para ele, é importante melhorar a resiliência dos profissionais, fornecedores e clientes. Outro ponto é investir na resiliência de marcas e cadeias de suprimento, identificar riscos e preservar a reputação.

Pesquisa realizada em 2025 pelo IBGC e Better Governance mapeou como as empresas brasileiras estão se preparando para os desafios geopolíticos, com percepções de 357 conselheiros e diretores. Os resultados mostram que: 85,8% dos respondentes concordam que o conselho reconhece a importância de considerar o tema para o negócio; 82,4% concordam que os conselhos têm consciência sobre os riscos geopolíticos; e 44,2% discordam que a análise do contexto geopolítico seja uma atribuição de um dos comitês de assessoramento dos conselhos.

A publicação “A Governança Corporativa e o Mercado de Capitais”, lançada pela KPMG em 2025, também destacou que o ambiente instável exige atenção das empresas para riscos emergentes e interconectados. A maioria (80%) das empresas analisadas conta com uma área dedicada ao gerenciamento de riscos, enquanto 91% delas têm uma política corporativa de gerenciamento de riscos. Foram analisados documentos de 276 empresas abertas. E não é só isso: dados recentes da consultoria Aon revelam que os riscos geopolíticos subiram 30 posições, desde 2019, no ranking dos riscos globais para executivos, já constando pela primeira vez entre os 10 principais.

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A governança corporativa cumpre uma função central de sinalização de confiabilidade. Estruturas robustas, associadas a práticas consistentes de divulgação de informações, contribuem para reduzir a assimetria informacional e preservar a confiança dos investidores em ambientes de elevada incerteza. A qualidade da governança passa a influenciar custo de capital, liquidez dos ativos e captação de recursos. Empresas que incorporam riscos geopolíticos em seus relatórios demonstram maior maturidade institucional e capacidade de adaptação, o que tende a ser valorizado por investidores.

Considerando esses novos desafios, algumas tendências para a governança corporativa se destacam. Uma delas está na institucionalização do risco geopolítico nos sistemas de governança e gestão de riscos. Outro ponto relevante é a maior integração entre governança e estratégia, com conselhos mais ativos e informados. As demais tendências são o aprimoramento do disclosure, com maior ênfase em análises qualitativas e prospectivas, e a pressão crescente por accountability dos administradores em cenários de crise. Haverá também maior demanda por conselheiros com experiência internacional e conhecimento de regulação.

Estamos atravessando uma nova ordem mundial, com as regras dos negócios globais sendo reconfiguradas a todo instante. Apesar de a interdependência entre mercados ainda existir, em função da globalização, os movimentos geopolíticos atuais estão rompendo acordos e práticas consolidadas há décadas. Estamos na era da imprevisibilidade e da instabilidade.

Os novos desafios geopolíticos estão redefinindo para sempre a governança corporativa no mercado de capitais. Muito além de um conjunto de boas práticas formais, a governança precisa ser um sistema formado por princípios, regras, estruturas e processos pelo qual as organizações são dirigidas e monitoradas, com vistas à geração de valor sustentável para a organização, para seus sócios e para a sociedade em geral.

As organizações prósperas serão aquelas capazes de se adaptar rapidamente, interpretar sinais políticos, analisar a economia e desenvolver ainda mais a resiliência. A reformulação contínua já é tão importante quanto o planejamento detalhado. A prosperidade das organizações exige também líderes capazes de aliar estratégia com inteligência emocional, mobilizando equipes apesar das incertezas. Essas organizações construirão o futuro dos negócios globais. As empresas de capital aberto que integrarem essa transformação estarão mais bem posicionadas para enfrentarem surpresas externas, preservarem a confiança de investidores e manterem acesso ao capital. Não há tempo a perder.

*Henrique Luz, CCA+, CCoAud+ e CCF IBGC, é conselheiro independente e ex-presidente do conselho de administração do IBGC.


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