Quase-isentos: saudade do que a gente ainda não viveu
Prólogo
Pensei em várias maneiras de escrever a coluna dessa semana. E a única maneira que achei correta foi num tom de ‘podíamos ser melhores’. Eis minha reflexão para esta semana tão conturbada em que sai a MP 1.303 de 2025 – a MP da taxação.
Conforme diz Marcos Lisboa: ‘somos um país maníaco depressivo’. Conseguimos algum crescimento de PIB, redução de juros e ‘somos o país do futuro’, ‘agora vai’. Aí vem a inflação, alta dos juros e ‘o Brasil nunca vai dar certo’, ‘não tem como empreender nesse país’, ‘a única saída é por Guarulhos’ entre outros.
Introdução
Pois estamos vivendo – especialmente para os produtos ‘quase-isentos’ – um destes momentos depressivos. E há motivos para isso efetivamente. Me lembro da primeira operação de mercado de capitais há uns 15 anos atrás. Foi uma CCBi (não foi um CRI pelo tamanho, à época operações de menos de R$ 20mm não compensavam) que fez o desenvolvimento de um edifício de escritórios em uma das maiores avenidas de Jundiaí. Para mim foi muito impactante. Fazer uma operação de mercado de capitais (operação sindicalizada com um Wealth Management) que muda uma cidade positivamente é muito legal. Uma operação que realmente muda – para melhor – a vida daquela cidade. Mais na frente tive a oportunidade de fazer o CRI de desenvolvimento de uma fábrica / show room de uma marca de chocolate brasileira. Um prédio lindo e sustentável em madeira, de uma marca que apoia produtores de cacau do sul da Bahia – numa das maiores avenidas de São Paulo.
Ambas operações realmente geraram desenvolvimento imobiliário na região em que aconteceram. Ambas trouxeram benefícios reais para as pessoas da região – que dirá da cidade. E ambas operações hoje não poderiam sair – pelas mudanças do CMN do ano passado e deste. Mas mais que isso: considerando que a MP passe, não sei nem se teria como estas operações terem mercado. Explico.
Breve histórico
Quando alguém não consegue fazer alguma coisa bem, é natural que ela peça ajuda a terceiros para que aquela “alguma coisa” seja feita bem (ou pelo menos seja feita). Pois bem.
O Governo Brasileiro pede ajuda do mercado de capitais já há pelo menos 20 anos para ajuda no mercado imobiliário – através dos CRI– isto porque não consegue dar incentivos adequados para isto – e já faz pelo menos 5 anos que a poupança vem sendo reduzida e o dinheiro obrigatório que os bancos também deveriam emprestar (também ajudando o governo a incentivar / ajudar o setor imobiliário) vem reduzindo. Existem diversas matérias documentando isso. E mais: o próprio presidente do banco central atualmente está buscando alternativas para este tipo de crédito – também algo público e sabido.
Então, qual seria o sentido lógico de parar de pedir ajuda e começar a atrapalhar o desenvolvimento do mercado imobiliário?
Somente o pessoal da cobertura
Talvez o ministro da fazenda tenha realmente razão ao afirmar que estas medidas irão afetar somente o pessoal da cobertura. Mas precisamos aprofundar: será o pessoal que idealiza a cobertura, que fornece o crédito para quem vai construir a cobertura, para o pessoal que fornece matéria-prima para aquela mesma cobertura. Também vai impactar um pessoal que vende a cobertura, passando horas a fio em um plantão, e aquele outro pessoal que vai literalmente por a mão-na-massa e construir a cobertura. Também tem um pessoal que vai estruturar a operação de crédito para aquela cobertura, e outros ainda que vão fornecer dados da operação que contém a cobertura.
O Ministro tem razão. É somente o pessoal da cobertura.
Deve ter um pessoal que não lembrei de comentar. Sim! O pessoal que vai acompanhar a obra da cobertura, o pessoal que vai fornecer quentinha para quem vai construir a cobertura e aquela turma que vai pensar no stand de vendas desta mesma cobertura. E o pessoal do decorado da cobertura não vale?
Eu poderia ficar por mais 10 linhas citando quem é esse pessoal da cobertura, afinal a construção civil emprega diretamente cerca 7,5% da mão de obra do Brasil¹. Sem contar no pessoal indireto.
E o pessoal do agro?
Esses talvez não contem, porque além do plano Safra que segundo a Frente Parlamentar do Agro só para 2025 o déficit seja de R$ 8 Bi (o que o Plano Safra proporciona vs o que os produtores precisam, frente o aumento da Selic²). Aqui é outro lugar que o governo vem há anos pedindo ajuda do mercado de capitais. Sem um mercado de capitais forte, não há país forte. Quanto mais um Agro – sem crédito não há produção: ou ainda, com crédito mais caro, produção mais cara e consequentemente aquele pessoal da cobertura, vai comer “comida” mais cara – o que para aquele pessoal da cobertura vai ser inflação na certa.
Poucos rentistas
Além do pessoal da cobertura, tem aqueles poucos rentistas. É realmente. O Governo não consegue fornecer opções adequadas de previdência – vê-se pela fraude do INSS, e aqueles que se educaram financeiramente para poder garantir uma velhice no mínimo honrada, sem precisar trabalhar e ter algum conforto e saúde na melhor idade observam sua “aposentadoria privada” ser descargada vaso abaixo.

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Taxar os rendimentos daqueles ativos que “ajudam” o governo naquilo que ele não consegue ser eficaz – notavelmente no imobiliário e no agro – vai na contramão do que deveria ser feito, além de que estes ativos pegam aqueles (mais de 4,5 milhões que investem em títulos isentos do imobiliário e os mais de 2,5 milhões que investem em títulos isentos do agronegócio³) poucos rentistas em sua parca aposentadoria – com seu saldo mediano de R$ 40.800,00³ reais no agro e R$ 6.400,00³ reais no imobiliário.
Será mesmo que alguém com – vamos dizer – R$ 48.000,00 reais pode ser chamado de rentista? Quantos reais por mês é possível fazer se recebessem 1% ao mês? Eu mesmo respondo: R$ 480,00. Muito bem. Que rentistas capitalistas perigosos que eles são, maldosos e malvados – contém ironia.
Voltando à cobertura
Se fosse um bolo estaríamos colocando a última camada de cobertura para depois colocar a cereja. O impacto na economia real desta taxação dos produtos isentos ainda não é possível de ser calculada, afinal são tantas camadas de impacto que ainda não temos dimensão, a ver primeiros impactos:
- Aumento do custo de crédito para produção rural à aumento do preço dos alimentos à inflação na cesta de alimentos à mais necessidade de taxa de juros altos à mais necessidade de equilíbrio nas contas públicas
- Diminuição do “bolso” de operações de crédito para a produção rural a menos recursos disponíveis para os produtores à oferta e demanda, aumento do custo de crédito (idem acima)
- Aumento do custo do crédito para o financiamento imobiliário para as pessoas físicas à menos venda de imóveis ou maior endividamento das famílias, à menos desenvolvimento imobiliário à maior necessidade de apoio estatal para desenvolvimento imobiliário à não há recursos
- Aumento do custo do crédito para construção civil a aumento do preço dos imóveis + aumento do financiamento imobiliário para PF à menos vendas a menos desenvolvimento imobiliário à manutenção no déficit habitacional (ou expansão dele)
Citando aqui poucos raciocínios de primeiros impactos para estes produtos quase-isentos. Citei apenas algumas linhas, mas que podem se desdobrar em diversas frentes, e ou semelhantes com estas que desenvolvi. São apenas exemplo práticos – e não caminhos únicos.
A cereja do bolo
Depois da cobertura, a cereja.
E assim vamos vivendo de maneira maníaco-depressiva nesse país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. Sabemos que o mercado imobiliário vai encontrar algum caminho e se prejudicar o mínimo possível – veja bem, o possível. Sabemos que o agronegócio vai encontrar algum caminho e se prejudicar o mínimo possível – veja bem, o possível. Mas e os rentistas maldosos e perigosos, investidores com seus medianos R$ 48 mil reais, que renderiam R$ 480 reais por mês? E a turma da cobertura que vai ter menos trabalho e mais inflação?
Fiquemos com a cereja. Essas arrecadações vão salvar a terra brasilis. A única solução é arrecadar mais. Gastar menos? Não para o governo.
Deixe que o pessoal da cobertura gaste menos, e talvez até trabalhem menos.
E para os maldosos rentistas? Deixe que trabalhem mais, afinal seus quarenta e oito mil reais de capital especulativo são cruéis.
Nota: Artigo escrito 100% sem IA, letra por letra, palavra por palavra digitadas uma a uma no teclado.
Felipe Ribeiro é sócio diretor de Investimentos Alternativos do Clube FII, atua apoiando a regulação e autorregularão de securitização do mercado desde 2012, e é autor do primeiro livro dedicado a FIIs de CRI no Brasil
¹ Fonte: O impacto e a importância da construção civil no Brasil – acesso em 12/06/2025 - https://sienge.com.br/blog/construcao-civil-no-pais/
² Fonte: Entenda o bloqueio do Plano Safra – acesso em 12/06/2025 - https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/entenda-o-bloqueio-do-plano-safra/
³ Fonte: Estudo B3 - Pessoas Físicas, Visão Setorial – acesso em 12/06/2025 - https://www.b3.com.br/data/files/79/94/4E/9F/52CAF8105391B9F8AC094EA8/Book%20Pessoa%20F%C3%ADsica%20-%201T2024%20(v2).pdf
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