A nova Demonstração do Resultado

A partir do primeiro trimestre de 2027, entra em vigor o Pronunciamento Técnico CPC 51 – Apresentação e Divulgação nas Demonstrações Contábeis, aprovado pela CVM e pelo Conselho Federal de Contabilidade para quem aplica as normas internacionais de contabilidade plenas. O documento trata de diversos assuntos, introduzindo algumas alterações nos balanços, nas demonstrações dos fluxos de caixa, das mutações patrimoniais, do resultado abrangente e, principalmente, na do resultado. Cuida também de aglutinação ou desaglutinação de contas para evidenciação. Há ainda boas modificações sobre as notas explicativas, cuja maioria o Brasil já havia implantado há muitos anos com sua OCPC 07, bem como introduz e torna contábeis as denominados Medidas de Desempenho Definidas pela Administração (MDDA). Entre estas temos o famoso, idolatrado, enganador e super mal utilizado EBITDA, que agora, se divulgado pela administração, precisa estar bastante detalhado em nota explicativa e com valores totalmente atrelados a saldos contábeis da DR.
É obviamente muito assunto para um blog, por isso teremos que picotá-lo. Falemos um pouco hoje sobre a nova Demonstração do Resultado (DR), tentativamente num linguajar bem acessível e sem grandes tecnicidades. Essa demonstração traz uma nova forma de apresentação que inclusive confronta com a da Lei das S.A.; mas como a Lei 11.638/07 dá poderes explícitos à CVM para isso, e a do CFC também (implícito), prevalece a norma das autarquias segundo entendem muitos juristas (Paulo Cezar Aragão, principalmente; aliás, não encontrei ainda nenhum dizendo o contrário). Anova DR terá que agora passar a ser subdividida da seguinte forma (para quem tem todos os componentes, é claro), onde ST é subtotal dos itens anteriores:
Resultado Operacional
Resultado com Investimentos
ST Resultado antes de Financiamentos e Tributos Sobre o Lucro (lucro AIR/CS do Ativo)
Resultado com Financiamentos (custo do Passivo Financeiro)
ST Resultado Antes dos Tributos Sobre o Lucro
Tributos Sobre o Lucro
ST Lucro das Operações Continuadas
Resultado das Operações Descontinuadas
ST Resultado Líquido
Assim, 5 grupos de resultados e 4 subtotais. Interessante notar que o ST Resultado Antes de Financiamentos e Tributos Sobre o Lucrorepresenta a soma dos grupos Operacional e com Investimentos, o que produz o Lucro Gerado Pelo Ativo Total antes dos tributos sobre ele, os IR e CSLL! Essa segregação é muito relevante e as receitas e despesas financeiras não mais aparecerão pelo seu saldo líquido. As geradas pelo ativo, no grupo de resultado com Investimentos, e as despesas no de com Financiamentos.
O Resultado Operacional, é óbvio, deve abarcar todos os resultados das atividades objeto de geração de resultado dentro do modelo de negócios da empresa. Normalmente, os resultados com vendas de bens e serviços, as despesas administrativas, de vendas (cuidado, às vezes por natureza, e não por função como veremos num próximo encontro). Ponto muitíssimo importante: quando a atividade de financiamento a clientes é parte relevante das atividades, os retornos dessa atividade ficam no Resultado Operacional, e não como de Investimentos! E os custos dos passivos que ajudam a financiar esses financiamentos a clientes também! E se a atividade principal ou de qualquer forma relevante for de propriedades para investimento, os seus resultados também ficarão, nesse caso, como Operacionais (incluindo os resultados derivados das baixas desse ativo se, por exemplo, vendidos). Bancos e seguradoras, por exemplo, terão toda a sua atividade financeira vinculada às suas atividades como tais no Resultado Operacional. A única exceção é resultado com participações societárias. Mesmo no caso de uma holding, os resultados de equivalência patrimonial não ficarão como Operacionais, mas sim como das atividades de Investimento (não há regra sem exceção, mesmo que questionável...)
Interessante: às vezes a classificação pode ser diferente no balanço individual e no consolidado. Financiar clientes pode não ser atividade de uma empresa varejista no seu balanço individual, mas sua controladora pode ter outra empresa que faça exatamente a atividade desse financiamento, inclusive captando dinheiro para isso. Assim, no individual, as receitas financeiras (inclusive de caixa e equivalentes de caixa) ficarão na atividade de Investimento. Mas no consolidado ficarão como Operacionais porque, para o consolidado como um todo, as duas atividades são genuinamente operacionais. O mesmo com o custo do financiamento desses ativos de financiamento a clientes; ao invés de com Financiamento, ficarão como Operacionais.

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Outra coisa, a baixa de ativos operacionais, mesmo que por venda depois de anos de utilização, gera ganhos e perdas (chamadas de ganhos e perdas de capital na linguagem fiscal) que também ficam no resultado Operacional (nada a ver, portanto, com a classificação fiscal). Afinal, na grande maioria esses ganhos e perdas são meros consertos de depreciações super ou subavaliadas no passado (incluindo amortização de intangíveis). E os impairments de ativos operacionais, idem, nos Operacionais. Já as baixas e seus resultados, e impairments de ativos de investimento terão repercussão no resultado no grupo de atividades de Investimento.
O resultado Operacional pode ser subdividido em resultado recorrente, não recorrente ou qualquer outra forma que for julgada relevante para a compreensão do usuário externo. Assim, haverá essa possibilidade de discriminação melhor da natureza dos componentes do resultado Operacional. Poderá conter “Outras Receitas e Despesas Operacionais”, devidamente evidenciadas em nota explicativa se materiais, relevantes.
O Resultado com Investimentos abrange as receitas e despesas com investimentos financeiros (inclusive com uso de caixa e equivalentes de caixa), propriedades para investimento, participações societárias e outros quando não forem parte do objeto principal e do modelo de negócios da empresa. A soma com o Resultado Operacional, como já dito, propiciará o subtotal obrigatório (como já dito) representando o total do resultado bruto (antes dos tributos sobre o lucro) gerado pelos ativos.
Em seguida, o Resultado com Financiamentos que contém, obviamente, as receitas e despesas com todas as formas de empréstimos e financiamentos, menos naquele caso especial de irem para Operacionais, conforme já falado, se forem financiamentos para alavancar financiamentos a clientes. Olhando-se Resultado Antes de Financiamentos e Tributos Sobre o Lucro, que é o gerado pelo ativo, e este com Financiamentos, e comparando-os com itens do balanço, tem-se uma ideia muito boa rapidamente da rentabilidade do ativo e do custo do passivo antes dos efeitos tributários. Inclusive, os Passivos Financeiros que geram despesas com financiamentos precisam ser destacados no passivo, o que facilita essa comparação. Pena que para o ativo será preciso separar contas para verificar quais ativos geram resultado Operacional (clientes, estoques, imobilizado, certos intangíveis etc.) e quais geram resultado com Investimentos (ativos financeiros, propriedades para investimento, participações societárias e alguns outros) para se ter agora uma análise mais detalhada dos retornos do ativo.
Os Tributos Sobre o Lucro (IR e CSLL no Brasil) também infelizmente não segregam quais tributos são criados pela rentabilidade do ativo e quais são economizados pelas despesas com financiamentos (normalmente o cálculo é simples, já que as despesas financeiras são em princípio totalmente dedutíveis, com poucas exceções para empresas estrangeiras). Caso contrário, teríamos um quadro para análise rápida muito facilitada. Mas o avanço já foi muito bom. Mas para quem quiser boa análise, há a nota explicativa obrigatória sobre o cálculo desses tributos. Lembrar que os tributos sobre o lucro das operações descontinuadas, como já em vigor, não entram nesse grupo, aparecendo dentro do seguinte.
O Resultado com as Operações Descontinuadas continua igual a hoje, com os lucros ou prejuízos das atividades que foram ou que serão descontinuadas, líquidos dos IR/CSLL sobre eles incidentes, como indicativo para ajudar nas prospecções futuras. Apenas o cuidado de, para comparação com exercícios anteriores, lembrar que antes estavam no Operacional ou com Investimentos, muito provavelmente.
O Resultado Líquido terá que ser dividido entre os valores dos sócios controladores e dos não controladores, bem como aparecerão os Resultados com as Operações Continuadas por Ação e o Resultado Líquido por Ação.
Ponto fundamental: as receitas e despesas operacionais precisam ficar por natureza ou por função (como estamos acostumados no Brasil, inclusive por causa da Lei das S.A.). Mas isso poderá mudar, ou melhor, terá que mudar em algumas circunstâncias. Mas isso e algumas análises críticas dessas mudanças ficarão para outra oportunidade porque garanto que você já está cansado desta matéria.
* Eliseu Martins é professor emérito e professor sênior das FEAs-USP de São Paulo e Ribeirão Preto. Ex-diretor da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e do Banco Central
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