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Harry Markowitz, o pai da teoria do portfólio

AL

Alexandre Póvoa

Gestão de recursos nada mais é do que a arte de compor portfólios que atendam de forma eficiente os padrões de risco propostos pelo investidor.

Portanto, seria um contrassenso falar sobre gestão de recursos sem citar o pai da Teoria de Portfólio, Harry Markowitz, nascido em Chicago na data de 24 de agosto de 1927 e falecido em 2023, aos 95 anos. A Teoria de Portfólio foi introduzida em um trabalho – “Portfolio Selection” – publicado no Journal of Finance, em 1952. Em 1990, 38 anos depois, ele dividiu o Prêmio Nobel com outros dois professores que contribuíram de forma importante para o desenvolvimento do arcabouço teórico que rege até hoje a gestão de carteiras por todo o mundo – Merton Miller e William Sharpe.

Antes de Markowitz, a teoria de composição de portfólios indicava que o investidor buscasse individualmente ativos com alto retorno. Depois dessa busca no “varejo”, o melhor portfólio seria aquele que reunisse o maior número desses tipos de ativos.

Apesar de fazer sentido, em uma impressão inicial e rasa, qualquer observador mais atento perceberia que há uma grave falha no raciocínio. É mais comum, dentro de uma análise de risco-retorno desenvolvida em determinado momento para uma carteira de ações, que a decisão de compra de um gestor recaia sobre somente um setor ou um grupo de segmentos correlatos (concentração em commodities ou em varejo, por exemplo). Suponhamos que os setores eleitos em termos de projeção de retorno e risco sejam os de siderurgia e mineração. Há uma tendência, pela lógica proposta, que a maior parte da carteira seja composta por mineradoras e empresas de aço. Então compremos Vale, CSN Mineração, Usiminas e Gerdau!  É fácil desconfiar de que a chance da ocorrência de extremos – sucesso retumbante ou estrondoso fracasso – é muito grande, dada a concentração de minhas apostas em segmentos onde os motores de valorização/desvalorização são muito semelhantes. Nesse caso, o desempenho da economia chinesa seria o catalisador positivo ou negativo conjuntamente para os quatro papéis citados.

Harry Markowitz, com apenas 25 anos de idade, em 1952, formalizou essa desconfiança, detalhando a matemática da chamada diversificação. Ativos apresentam retorno esperado, desvio-padrão e correlação entre eles. Em outras palavras, uma boa diversificação de portfólios exige a observância das covariâncias (relação entre os movimentos de preços entre os diversos ativos), e não somente do desvio-padrão individual.

No extremo, ações ordinárias e preferenciais da Petrobras se movem de maneira praticamente uniforme (o chamado coeficiente de correlação próximo a 1). Por outro lado, se comprarmos ações de varejo, em conjunto com papéis do segmento de concessões, essa correlação será bem mais reduzida.

É bastante interessante observar a formação de Markowitz, que estudou intensamente física e filosofia (seguidor das ideias do iluminista francês David Hume), antes de abraçar a economia. Sua dissertação de mestrado, um pouco anterior à Teoria de Portfólio, já aplicava a matemática ao mercado de ações. Naquele ano, ele foi convidado a trabalhar na Rand Corporation, um grande centro de pesquisa e desenvolvimento norte-americano, onde criou o modelo matemático dos algoritmos que resultaram na chamada fronteira eficiente de Markowitz – conjunto de carteiras ótimas que, para cada nível de risco, apresenta o maior retorno associado.

 Sua recomendação era que os investidores se concentrassem nesse grupo de portfólios, visto que qualquer outra carteira não apresentaria rentabilidade superior (na mesma faixa de risco) ou desvio-padrão menor (dado um patamar de retorno).

A Teoria de Portfólio provavelmente inspirou a frase popular: “não coloque todos os ovos na mesma cesta”. Porém, cabe ressaltar que diversificar significa muito mais que a simples alocação em diversos tipos de aplicações. O processo proposto por Markowitz inclui o cálculo estatístico da contribuição individual de cada ativo para a otimização da relação risco-retorno da carteira como um todo. Cada ação ou papel contribui para o retorno e a volatilidade de uma específica carteira.

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Além disso, Markowitz definiu o conceito do risco diversificável (ou não sistemático - aquele que pode ser virtualmente eliminado com uma boa composição de carteira) e do risco não diversificável (ou sistemático) – aquele “inevitável” pelo fato de você estar no mercado de ações. Por exemplo, você pode estar com um portfólio super bem diversificado que, se vier um evento como a pandemia, todos os papéis irão sofrer (em intensidade diferente). A mesma coisa ocorre para eventos positivos - um hipotético upgrade para o “grau de investimento” do Brasil impulsionaria todos os ativos em graus diversos. Esse “pedaço de risco” (não diversificável ou sistemático) o investidor não consegue evitar.

Ele concluiria seu Phd na Universidade de Chicago, em 1955, com um estudo que já avançava em alguns pontos seu próprio trabalho sobre seleção de carteiras. O curioso é que o tema era tão revolucionário que um dos professores da banca, o também lendário Milton Friedman, chegou a afirmar, no dia da defesa da tese de doutorado, que “a ideia exposta extrapolava o campo econômico.”

O grande desafio dos gestores é utilizar a Teoria de Portfólio desenvolvida por Markowitz – e tão enriquecida por outros mestres que viriam depois – de forma prospectiva. Quando falamos em retorno e desvio-padrão de cada ativo, além da covariância entre eles, normalmente estamos nos referindo às variáveis observadas no passado. Para compor portfólios ótimos, a partir dos ensina mentos de Markowitz, temos duas opções:

A. A mais conveniente: projetar o retorno de cada ativo elegível para entrar em minha carteira e, assumindo os desvio-padrões e as correlações históricas, rodar o modelo que gera a carteira ótima.

O problema teórico dessa alternativa é que a hipótese assumida acerca da manutenção de um padrão histórico estável dos fatores de risco para o futuro é bastante frágil e facilmente contestável.

B. A mais correta e ambiciosa: a partir de vários cenários, projetar o retorno esperado dos ativos em situações diferentes (do extremo pessimismo ao superotimismo). Atribuindo a probabilidade para os cenários, chegamos à rentabilidade esperada para cada ativo. Como há retornos projetados em diferentes situações, pode-se calcular o desvio-padrão futuro implícito para cada investimento. Com cenários comuns, pode-se também mensurar estatisticamente as respectivas covariâncias e correlações estimadas entre os ativos estudados.

Com todas as variáveis projetadas para o futuro – retorno, desvio-padrão individual e covariância/correlação –, o modelo indicará o portfólio eficiente de Markowitz a ser montado.

No final de sua vida, Markowitz foi cofundador e arquiteto-chefe da GuidedChoice, uma provedora de contas gerenciadas 401k (sistema de aposentadorias dos EUA) e consultora de investimentos. Markowitz desenvolveu o software analítico de base para a solução de investimentos da GuidedChoice, liderando o Comitê de Investimentos da empresa. O objetivo foi sempre o mesmo: auxiliar aposentados na distribuição eficaz de sua riqueza acumulada.


Alexandre Póvoa, estrategista da Meta Asset Management

Autor dos livros: Valuation, Como Precificar Ações e Mundo Financeiro, o Olhar de um Gestor

alexandre.povoa@metaam.com.br


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