Nunca duvide dos Estados Unidos

O mundo assistiu desde 2009 até o final de 2024, um movimento quase que unidirecional, de alta das bolsas norte-americanas (S&P: média de 13,4% a.a) e de valorização do dólar ante a uma cesta de moedas (DXY: média de 1,7% a.a). Esse ficou conhecido como o período de “excepcionalismo dos Estados Unidos”. Bolsa forte, moeda valorizada, com forte fluxo de recursos para ativos americanos.
Com a ascensão ao poder do Presidente Donald Trump, uma grande confusão se instalou. O mercado começou a questionar: Será o fim dessa fase longa de excepcionalismo?
Desde o início do ano, o mundo assistiu perplexo à introdução de uma política comercial agressiva dos EUA. No chamado “Liberation Day” (02/04), sob a duvidosa alegação que “diversos países se aproveitaram dos EUA para crescer”, o Governo Trump introduziu tarifas de importação contra quase todos os países relevantes do globo. Exemplos importantes foram para a China (34%), Índia (26%), Japão (24%) e União Europeia (20%). O patamar mínimo foi de 10%, para aquelas nações com que os EUA desfrutam de saldo comercial positivo.
Foi como os EUA tivessem retroagido a idos o século passado, com discurso de defesa à indústria nacional e um xenofobismo que atingiu principalmente os imigrantes ilegais, fonte barata de mão de obra para a economia. A promessa de redução de impostos ainda não se concretizou e resta saber até onde vai esse apetite, em uma economia com um déficit fiscal já bastante elevado.
As reações foram diversas entre os diferentes atingidos. Alguns reagiram apenas no discurso enquanto outros, em posição competitiva desfavorável (dependem muito da economia norte-americana) preferiram se calar ou tentar algum tipo de negociação. A grande exceção foi a China, que decidiu bater frente, elevando tarifas contra os EUA na mesma proporção. Trump resolveu “dobrar a aposta”, mas não esperava que os chineses fossem retaliar continuamente. No final dessa escalada, chegamos aos até quase 150% de tarifas de importação recíprocas entre as duas maiores economias do mundo. Na prática, tínhamos um embargo econômico entre Estados Unidos e China. Trump, provavelmente pressionado pelas gigantes de tecnologia, chegou a isentar da medida a alíquota sobre computadores, iphones e produtos eletrônicos em geral.
Como se não bastasse a política comercial agressiva, Trump, no estilo bem parecido com a atrasada retórica de países latino-americanos (tivemos exemplo recente no Brasil), resolveu atacar o presidente do FED dos EUA Jerome Powell, pressionando para uma queda de juros. Uma característica comum entre os populistas do mundo inteiro é a necessidade de encontrar “inimigos externos” para justificar suas ações. Obviamente, não teve sucesso diante da postura firme “de estado” da autoridade monetária que, ao contrário, tem se mostrado preocupada sobre como o binômio da meta informal de inflação em 2% com o máximo de crescimento poderia ser afetado com a nova política tarifária. Seria muito complicado se o FED tivesse que decidir entre um dos dois objetivos.
O grande perigo da desmontagem do ciclo virtuoso de crescimento fica exponencial em uma economia que viveu forte valorização de todos os seus ativos nas últimas décadas, com pesada alavancagem nos balanços. Hoje, o americano médio possui cerca de 25% de seus ativos investidos em bolsa. Tirando os ativos imobiliários, esse número vai para mais de 50%. A bola de neve, que andou para frente com vigor no passado, também tem um potencial enorme de destruir valor na economia. Uma queda no preço das ações possui impacto direto na poupança do investidor médio norte-americano, reduzindo consumo que, por sua vez, afeta investimento e crescimento como um todo, batendo no preço das ações, em um ciclo vicioso.
Além disso, muitas empresas buscaram o mercado de capitais para se endividar e surgiu o fenômeno totalmente novo das criptomoedas, do qual definitivamente não se tem muita visibilidade.

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Todo esse quadro empurrou, no começo do ano, o investidor global para uma diversificação geográfica maior de sua carteira, historicamente concentrada em ativos dos EUA, que nas últimas décadas apresentaram, de longe, a melhor relação risco-retorno do mercado. Não é à toa que vimos o dólar perder valor para outras moedas, o dinheiro sair do mercado de ações dos Estados Unidos para outras regiões (beneficiando vários mercados em 2025, como o brasileiro) e o preço do ouro bater recordes históricos.
Enfim, tudo conspirava para uma deterioração do estado de supremacia econômica total dos EUA. O S&P, entre os dias 20/01 (data da posse de Trump) e 08/04 (ponto mínimo do ano, depois do anúncio das tarifas em 02/04), chegou a cair 17%, com o índice rondando os 5 mil pontos. Já o Nasdaq se desvalorizou 21% no mesmo período, com as grandes empresas de tecnologia perdendo trilhões em valor de mercado. O dólar se aproximou de uma depreciação de 10% perante uma cesta de moedas (índice DXY) em 2025 até 08/04.
Porém, a virada começou no dia 09/04, quando Trump anunciou uma trégua de 90 dias na elevação de tarifas (obedecido o patamar mínimo de 10%) para 75 países que não haviam retaliado (o que excluía a China).
O mercado começou então a perceber o recuo. Os investidores simplesmente passaram a não acreditar que essa guerra comercial, sobretudo entre EUA e China, prosperaria. Era o famoso “too big to fail”. Não dava para imaginar uma perpetuação da situação, que teria um forte impacto na inflação e crescimento mundial, em uma espécie de efeito-dominó pelo globo, que tem no mundo moderno todas as cadeias produtivas completamente integradas.
Chegamos, então, no incrível dia 12/05. Os Estados Unidos e China anunciam uma trégua de 90 dias com o seguinte nível: 30% de tarifas para produtos chineses importados pelos EUA e 10% para bens norte-americanos vendidos para a China. Incrível por dois motivos: Primeiro, pela velocidade em que se chegou a um acordo (confirmando a teoria do “too big to fail”); e, segundo, pelo aceite da China de uma condição desfavorável. O único ponto que restou de dúvida foi quando os EUA reafirmaram a sua “inegociável” condição de eliminar os US$ 1,4 trilhões de déficit da balança comercial com a China. Com esse patamar de tarifas, dificilmente isso se concretizará.
Porém, qual não foi a surpresa do mundo quando a Moody´s, no dia 16/05, rebaixou a nota da dívida norte-americana de Aaa (nível máximo) para Aa1. O copo, então, pode estar meio vazio ou meio cheio. Se estiver meio vazio, observamos que o downgrade foi justo, dado o estado progressivamente pior das contas públicas norte-americanas. Já o meio cheio enseja a pergunta: Será que algum investidor deixará de comprar um título dos Estados Unidos (com a Treasury de 30 anos rondando os 5% a.a) por conta desse rebaixamento?
O fato é que depois de alta volatilidade, nesse começo do ano, até 21/05, o S&P e o NASDAQ já haviam se recuperado de toda a derrocada observada em abril, operando próximos à estabilidade em 2025. O DXY (valor do dólar perante uma cesta de moedas) era o único ativo norte-americano que ainda se desvalorizava em -8% no ano.
Mas é claro que, apesar de concessões que existirão de todos os lados com todos os países envolvidos (por exemplo, já foi anunciado um acordo bilateral com o Reino Unido), o mundo vai sair de desse complicado imbróglio em situação pior do que entrou. Não há como, em um ambiente global mais protecionista, que a inflação (para cima) e crescimento (para baixo) não sejam afetados.
Porém, perto do quadro que se desenhava, podemos dizer que os ferimentos potenciais se tornaram mais leves. Mais surpresas positivas ainda podem aparecer. A flexibilidade da economia norte-americana impressiona. Portanto, sempre é bom respeitar o velho ensinamento: “Nunca duvide dos EUA”. Por pior que pareça o cenário.
Alexandre Póvoa: estrategista da Meta Asset Management
Autor dos livros: Valuation, Como Precificar Ações e Mundo Financeiro, o Olhar de um Gestor
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