Os Leões de Médici
Marcos Gomes de Souza

Na Piazza della Signoria, em Florença, dois leões de mármore flanqueiam a escadaria da Loggia dei Lanzi. Um deles é uma escultura de origem romana antiga. O outro foi produzido no período renascentista para formar um par simétrico.
Ambos integraram a coleção da Villa Medici, em Roma, e foram transferidos para Florença no século XVIII, passando a guardar a entrada desse espaço público de exibição de esculturas e de representação do poder político da cidade.1
Não estão ali para sugerir um ataque iminente. São figuras de pedra, imóveis, que se consolidaram como símbolo de autoridade, estabilidade e poder que se exerce a partir da posição que ocupa. O leão não precisa agir para ser reconhecido como tal. Basta estar ali para redefinir o espaço ao seu redor.
Essa escolha iconográfica não é acidental. Ao longo dos séculos, o leão foi associado à ideia de poder legítimo, contínuo e previsível. Um poder que não depende de demonstrações constantes de força, mas que se incorpora à própria estrutura que sustenta a ordem.
Ele não é a ruptura. É o elemento que impede que a ruptura desorganize o todo.
Essa leitura dialoga com uma intuição antiga, frequentemente atribuída à tradição romana: a estabilidade não decorre da ausência de conflito, mas da preparação para enfrentá-lo.
Si vis pacem, para bellum. A paz, nesse sentido, não é um estado natural. É uma construção deliberada.
Quando as visões particulares divergem
Transposta para o universo das sociedades empresárias, essa ideia ganha contornos precisos. Vínculos entre sócios são, por natureza, relações entre pessoas com interesses próprios. No momento da constituição, esses interesses tendem a coincidir. Com o passar do tempo, eles se deslocam.
O que parecia alinhado vai cedendo espaço a expectativas distintas, prioridades que divergem e visões que se afastam. Não por má-fé, mas porque pessoas mudam, circunstâncias mudam e o que cada sócio quer da sociedade também muda.
Não se trata de uma percepção recente. Há quase um século, Adolf Berle e Gardiner Means já registravam, em “The Modern Corporation and Private Property”, que à medida que uma sociedade cresce, a separação entre propriedade, controle e gestão se torna inevitável.
E com essa separação, surgem conflitos de interesse entre quem detém o poder de decidir e quem apenas participa dos resultados. Não como exceção, mas como consequência natural da própria forma societária.
Dois sócios, ainda que razoáveis e bem-intencionados, quando ocupam posições distintas dentro da mesma estrutura, inevitavelmente terão interesses que divergem com o tempo.2
A partir daí, a questão central deixa de ser se haverá conflitos ou tensões. Haverá. A questão passa a ser em que moldes esses conflitos e tensões serão processados pela estrutura societária.
Estrutura que duradoura capaz de administrar conflitos
Nenhuma estrutura societária, por mais bem desenhada que seja, substitui o que precisa vir antes dela. Antes de qualquer cláusula, antes de qualquer mecanismo de decisão ou regra de saída, é preciso entender quem são as pessoas que vão assinar aquele documento e o que cada uma delas quer de verdade da sociedade que estão construindo juntas.
Isso exige mais do que uma reunião de alinhamento protocolar. Exige disposição para ir fundo. Quem aporta capital e quem aporta conhecimento. Quem tem apetite por risco e quem precisa de previsibilidade.
Quem está disposto a crescer rápido, ainda que à custa de perder parte do controle, e quem só admite crescer mantendo as rédeas nas mãos. Quem busca visibilidade e reconhecimento público e quem se satisfaz com retorno silencioso, porém consistente.

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Quem enxerga a sociedade como projeto de vida e quem a vê como mais um ativo dentro de uma carteira maior.
Essas respostas não saem de nenhum modelo de prateleira, muito menos de uma plataforma de inteligência artificial. Elas aparecem em conversas longas, nas trajetórias que cada sócio relata, nas perdas que ainda doem e nas ambições que raramente são verbalizadas de forma direta, mas que atravessam todas as decisões relevantes.
Um acordo desenhado sem esse diagnóstico pode ser tecnicamente impecável e, ao mesmo tempo, estruturalmente inútil. Ele regulará uma sociedade que não existe, entre perfis que não foram verdadeiramente compreendidos, com mecanismos que não respondem às necessidades concretas de quem está à mesa.
Quando esse diagnóstico existe, a estrutura contratual e de governança passa a cumprir seu verdadeiro papel. O acordo de sócios bem estruturado é o mecanismo pelo qual os sócios definem, com antecedência, as regras para os momentos em que deixarem de querer as mesmas coisas.
Quem decide o quê, com qual quórum, em quais circunstâncias. O que acontece quando um sócio quer sair. O que acontece quando ninguém consegue avançar.
Essas respostas, dadas antes do conflito, valem mais do que qualquer negociação feita sob pressão. Como os leões que flanqueiam a Loggia, o bom acordo de sócios existe para não precisar ser acionado. Sua força está em estar ali.
A governança funciona na mesma lógica. Não é formalidade institucional. É o conjunto de regras que garante que a sociedade continue tomando decisões mesmo quando os sócios discordam.
Atribuições claras, alçadas bem definidas e critérios objetivos para resolver impasses são o que separa uma sociedade que atravessa crises de uma que paralisa diante delas.
Estruturas construídas sem esse cuidado dependem de acordos verbais, relações pessoais e equilíbrios que existem enquanto a confiança existe. No curto prazo, funciona. No longo prazo, é exatamente esse modelo que transforma divergências administráveis em conflitos irreversíveis.
Quando a confiança se rompe, e em qualquer relação duradoura ela será testada, não há improviso que absorva o impacto. O que resta é a negociação sob pressão, o litígio ou a dissolução.
O leão que guarda sem sair do lugar
Como os Leões de Médici que guardam a Loggia dei Lanzi sem sair do lugar, a estrutura contratual e de governança bem desenhada não bloqueia mudanças nem evita tensões entre os sócios. Ela garante que essas mudanças, tensões e conflitos sejam absorvidos sem que a ordem empresarial se desfaça.
Mas essa estrutura só cumpre esse papel quando foi construída sobre o conhecimento real de quem está dentro dela. Leões de mármore colocados no lugar errado não guardam nada.
É nessa capacidade de conter, canalizar e organizar o poder e as tensões, sem suprimi-los nem permitir abusos, que se encontra o fundamento das sociedades empresárias mais estáveis, eficientes e duradouras.
Quando o diagnóstico das pessoas, a forma jurídica, a arquitetura contratual e a prática cotidiana convergem para esse objetivo, os leões de mármore deixam de ser apenas ornamento.
Eles passam a ser a imagem precisa do tipo de poder silencioso que, sem alarde, mantém de pé tudo aquilo que vale a pena preservar. Como o bom acordo de sócios, eles existem para não precisar ser acionados. Sua força está em estar ali.
Marcos Gomes de Souza é sócio do escritório Lacaz Martins, Pereira Neto, Gurevich & Schoueri
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