Dona da Tok&Stok entra com pedido de recuperação judicial com dívidas de R$ 1 bi
Alexandre Inacio

O Grupo Toky S.A. (TOKY3), companhia aberta que controla as redes de móveis e decoração Tok&Stok e Mobly, protocolou pedido de recuperação judicial em na Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível do Estado de São Paulo.
O processo corre em segredo de justiça e envolve dívidas de R$ 1,12 bilhão. A decisão foi comunicada ao mercado por fato relevante assinado por Marcelo Rodrigues Marques, diretor financeiro e de relações com investidores.
A notícia fez o mercado reagir. As ações TOKY3 chegaram a cair mais de 40% durante o pregão, sendo negociadas a cerca de R$ 0,17 — no acumulado do ano, a desvalorização supera 80%. Antes do anúncio, o valor de mercado era da ordem de R$ 50 milhões.
Fusão da Mobly e Tok&Stok
O Grupo Toky é resultado da fusão, concluída em 2024, entre a Mobly — varejista de móveis 100% digital fundada em 2011 — e a Tok&Stok, rede com 46 anos de história criada pelo casal francês Régis e Ghislaine Dubrule.
A operação se deu em um momento de extrema fragilidade da Tok&Stok. Em agosto de 2024, a empresa havia pedido recuperação extrajudicial para reestruturar seu passivo financeiro, que se concretizou via emissão de debêntures.
A 2ª Vara de Falências de São Paulo homologou o plano de recuperação extrajudicial da Tok&Stok em novembro daquele ano. Foi nesse contexto que a Mobly entrou como compradora da varejista e as duas passaram a operar sob o guarda-chuva da holding.
A integração das operações trouxe ganhos reais de eficiência. A Tok&Stok migrou sua logística de Extrema (MG) para o centro de distribuição da Mobly em Cajamar (SP), com economia anual projetada de R$ 30 milhões.
A estratégia não foi suficiente para estancar a deterioração financeira. O endividamento havia chegado a 16 vezes o resultado operacional da empresa no momento da integração das duas redes.
Investigação da CVM
A trajetória pós-fusão foi marcada por conflitos societários que agravaram a situação operacional. A família Dubrule, fundadora da Tok&Stok, tentou retomar o controle da companhia por meio de uma oferta pública de aquisição (OPA).
No front financeiro, a gestão conduziu uma série de operações de liability management. No contexto da reestruturação financeira da fusão, a Tok&Stok emitiu R$ 454,4 milhões em debêntures não conversíveis, com vencimento em 2034.
Na mesma linha, a Mobly realizou uma emissão privada de debêntures conversíveis no valor de R$ 132,1 milhões, com vencimento em 2035.
Em dezembro de 2025, a companhia anunciou acordo com fundos da SPX Private Equity para conversão de parte da dívida em participação acionária. A conversão permitiu a redução de R$ 153 milhões de dívida da companhia.

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Porém, a operação gerou controvérsia: o DeLorean FIP Multiestratégia teve uma valorização extraordinária, passando de R$ 36 mil para R$ 17,65 milhões em apenas 48 horas, o que gerou uma investigação pela CVM.
A expectativa era reduzir R$ 227 milhões da dívida ao fim de 2025. Contudo, o grupo encerrou 2025 com uma dívida líquida de R$ 401 milhões, redução em relação aos R$ 592 milhões do ano anterior.
Em janeiro de 2026, a companhia conseguiu prorrogar a data de pagamento de debêntures para junho deste ano. O prazo não foi cumprido. No primeiro trimestre de 2026, a empresa registrou prejuízo líquido de R$ 55,2 milhões.
Detalhamento das dívidas
Com 63 lojas físicas e mais de 2.200 funcionários, o Grupo Toky sustenta que a recuperação judicial é o caminho para uma reestruturação ordenada — e não um sinal de insolvência definitiva.
O que o fato relevante não detalha — e que os credores e o mercado aguardam — é a composição exata do passivo sujeito ao processo, a estratégia de pagamento e o conjunto de ativos que a companhia pretende preservar.
Esses elementos constarão do plano de recuperação a ser apresentado ao juízo e serão determinantes para avaliar se o grupo tem condições de honrar seus compromissos ou se seguirá o caminho de outras varejistas.
Mais uma na lista de RJs
O pedido do Grupo Toky se insere em um contexto de deterioração da saúde financeira das empresas brasileiras. O ano de 2025 marcou um recorde histórico de 5,6 mil empresas pedindo recuperação judicial, representando um aumento de mais de 35%.
Entre as companhias abertas, o fenômeno é igualmente expressivo: 21 empresas listadas na B3 estão em recuperação judicial, incluindo casos de grande repercussão como Americanas, Oi, Gol e AgroGalaxy. Outras duas estão em recuperação extrajudicial, como a Raízen.
Recentemente, outros nomes conhecidos do mercado de capitais recorreram ao mesmo instrumento. A Bombril, tradicional fabricante de produtos de limpeza, entrou em recuperação judicial em fevereiro de 2025.
A Kora Saúde, que chegou a fechar o capital após OPA promovida pela gestora HIG Capital, recebeu o acolhimento da Justiça para dar prosseguimento a um processo de recuperação extrajudicial, com o desafio de renegociar dívidas de R$ 2,7 bilhões.
Um dos movimentos mais relevantes de 2025 e 2026 é o aumento do uso da recuperação extrajudicial. O Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial registrou 68 empresas usando o mecanismo em 2025, o maior número já registrado.
Juros mais altos reduzem margens operacionais, encarecem o capital de giro e dificultam a rolagem de passivos, especialmente em setores intensivos em financiamento como varejo, indústria, construção, energia e agronegócio.
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