Brasil deve seguir como um dos principais destinos de investimento direto em 2026
Adriano Chaves

Em um ano que parecia desenhado para afastar investidores – instabilidade geopolítica, Selic a 15% e dúvidas persistentes sobre o rumo fiscal – o mercado brasileiro de fusões e aquisições, com forte presença de players estrangeiros, e o investimento externo direto em geral seguiram caminho oposto ao esperado em 2025.
Não apenas resistiram: aceleraram. A pergunta que desponta é por que o capital continua vindo apesar de tudo?
O desempenho positivo foi favorecido por fatores como crescimento estimado do PIB entre 2,1% e 2,5% em 2025, inflação ligeiramente menor, desemprego em níveis historicamente baixos (5,1% em dezembro) e a busca de investidores e empresas globais por novos mercados em um ambiente internacional incerto.
A escassez de IPOs também contribuiu para que empresas recorressem a fusões e aquisições como alternativa de crescimento ou para obter liquidez.
De acordo com o Transactional Track Record (TTR), o valor total das transações de M&A, incluindo private equity e venture capital, reportadas no Brasil aumentou 15,80% em relação a 2024, atingindo R$ 313,5 bilhões.
A quantidade total saltou 7,56%, totalizando 1.877 negócios. Essa tendência indica um aumento no tamanho médio das operações, uma trajetória que já havia se manifestado no final de 2024.
O Brasil manteve sua liderança na América Latina, respondendo por 61,31% de todas as transações relatadas e por aproximadamente 48% do valor total.
Com um corte diferente, a Dealogic informou que, considerando as transações anunciadas até meados de dezembro de 2025, houve um pequeno aumento no valor dos negócios em relação a 2024.
Vale ressaltar que nenhum dos relatórios pode cobrir todas as transações ocorridas, pois muitas operações – especialmente as menores – não são relatadas.
O número de transações examinadas pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) também aumentou em 2025: 846 negócios, contra 698 em 2024.
Como os limites que acionam a obrigação de submeter uma transação ao órgão não são ajustados pela inflação há mais de uma década, mais transações naturalmente se tornam sujeitas à análise de atos de concentração a cada ano; de qualquer maneira, embora devamos considerar esses números com cautela, é possível observar tendência de alta na atividade de fusões e aquisições.
De acordo com o TTR, o setor de Internet, Software e Serviços de TI manteve a liderança em número de transações, registrando 340 – aumento de 13% em relação a 2024.
Outros setores com alta atividade incluíram: imobiliário; bancos e investimentos; software específico para a indústria. Em termos de valor, observamos grandes transações nos setores de infraestrutura, energia, recursos naturais e químico.
As transações transfronteiriças representaram 29,57% do mercado total, com 555 negócios: 414 inbound, totalizando R$ 111,99 bilhões, e 141 outbound, totalizando R$ 24,32 bilhões.

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Os Estados Unidos continuaram sendo o principal comprador estrangeiro no Brasil em 2025, com 162 transações (R$ 38,49 bilhões), seguidos por Reino Unido (33), Espanha (29), França (28) e Canadá (27). Em seguida, Argentina, Holanda, Portugal, Alemanha e China.
Olhando para os investimentos externos diretos em geral, dados do BACEN confirmaram a tendência de alta do IED. Em 2025, o IED totalizou US$ 77,7 bilhões (3,41% do PIB), ante US$ 74,1 bilhões (3,39% do PIB) em 2024 — um aumento de 4,8%.
Enquanto os novos fluxos de participação societária aumentaram 14,2%, os lucros reinvestidos diminuíram 21,3%. Uma possível razão foi a mudança na tributação dos dividendos, que levou as empresas a antecipar o pagamento de dividendos a acionistas no exterior que, de outra forma, seriam retidos ou pagos em data posterior.
Provavelmente pela mesma razão, dezembro de 2025 registrou uma saída líquida de US$ 5,2 bilhões, impulsionada principalmente pela distribuição de lucros (US$ 11,4 bilhões).
Com base nos dados mais recentes publicados pelo Banco Central, para 2024, os Estados Unidos continuaram sendo o país com o maior estoque de investimento estrangeiro direto no Brasil, com aproximadamente US$ 232,81 bilhões (26,31% do total de IED). A França ficou em segundo lugar, com US$ 69,32 bilhões (7,84%).
As perspectivas para 2026 vinham sendo otimistas, apesar de ser um ano eleitoral. Em janeiro, Itaú BBA, por exemplo, projetou um aumento de 10% nas fusões e aquisições. A mesma porcentagem foi mencionada pelo UBS BB.
Com expectativa de juros em queda, liquidez global elevada e um ciclo recorde de M&A nos EUA, esperava-se na virada do ano que o fluxo de capital para emergentes se intensificaria — e o Brasil estaria bem posicionado para capturá-lo, apesar do ruído político interno.
Novamente segundo o TTR, os valores das transações de M&A no Brasil em janeiro e fevereiro subiram 34% em relação a 2025, mas o número total de transações caiu 52%, sugerindo busca de qualidade sobre quantidade.
Entretanto, os efeitos econômicos da guerra envolvendo o Irã, como desvalorização do Real, aumento do custo do petróleo e dúvidas sobre a trajetória dos juros, embaralham o cenário e podem adiar decisões de investimentos.
Em março, a autoridade monetária decidiu reduzir a SELIC em apenas 0,25%, um corte inferior ao esperado antes da guerra, e deixou em aberto a trajetória futura da taxa de juros.
Por outro lado, a distância do Brasil ao epicentro dos conflitos pode pesar a favor do nosso país. E a incerteza sobre os juros já muito altos e o aumento da inadimplência corporativa podem levar a um aumento das transações envolvendo “distressed assets”.
O capital não espera estabilidade perfeita; ele busca assimetria e oportunidade. A questão não é se haverá interesse, mas se o país saberá transformá-lo em crescimento sustentável.
Adriano Chaves, é sócio e co-head de M&A do CGM Advogados
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