Hospitais criam 'Opep da saúde' para aquisição de remédios e insumos
Alexandre Inacio
Doze dos maiores hospitais filantrópicos privados do Brasil firmaram acordo para realizar compras conjuntas de medicamentos, materiais, equipamentos e serviços hospitalares, em iniciativa que concentra poder de negociação em escala inédita no setor.
O consórcio reúne instituições como Sírio Libanês, A.C. Camargo, HCor, Hospital Alemão Oswaldo Cruz, BP, Moinhos de Vento, São Camilo, Hospital Sabará, Hospital Santa Catarina, Hospital Santa Izabel, AACD e Nipo Brasileiro.
Hospitais de peso
A iniciativa abrange a aquisição centralizada de insumos hospitalares, equipamentos de diagnóstico e monitoramento, medicamentos — de imunobiológicos a quimioterápicos —, serviços de suporte como logística e manutenção predial, além de gêneros alimentícios.
Para implementar o projeto, os hospitais contratarão um prestador de serviços independente, responsável por identificar fornecedores, negociar condições e garantir mecanismos de conformidade com a legislação antitruste brasileira.
A combinação das instituições confere ao grupo representatividade nos principais mercados de insumos hospitalares do país. Ainda assim, a participação conjunta de compra permanece abaixo de 10% em quatro dos cinco mercados mapeados — materiais hospitalares (R$ 35,7 bilhões), equipamentos (R$ 87,5 bilhões), medicamentos (R$ 160,7 bilhões) e gêneros alimentícios (R$ 1,4 trilhão).
No segmento de serviços hospitalares, estimado em R$ 12,9 bilhões, a participação conjunta fica entre 10% e 20%, o único intervalo acima da faixa de 0% a 10% registrada nas demais categorias.
Reequilíbrio de forças
A justificativa central do projeto é reequilibrar a relação de forças com fornecedores que detêm poder de mercado relevante. O setor de distribuição de medicamentos para hospitais é altamente concentrado: apenas 15 distribuidoras integrantes da ABRADIMEX abastecem 80% dos hospitais privados brasileiros, com market share de 75% nesse segmento.
Na oncologia, que representa 35,7% do faturamento do mercado institucional de medicamentos, distribuidoras respondem por 82% dos fornecimentos.
Ao centralizar demanda, o consórcio busca obter reduções de preço e de custos de transação — etapas de cotação, contratação e logística — que, individualmente, cada hospital enfrenta em condições assimétricas.

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O plano é reunir vários processos de cotação de materiais e medicamentos, de diversas áreas, para fazerem compras conjuntas, movimento que agiliza o processo de aquisição de materiais, otimiza etapas e organiza as informações necessárias para que a operação seja feita.
Consolidação do mercado
A consolidação no mercado da saúde, principalmente em torno de redes de hospitais e operadoras de planos de saúde, é um movimento que ocorre já há alguns anos, mas ganhou novos contornos com anúncios recentes, como Rede D'Or e SulAmérica e Dasa e Amil.
Neste processo de verticalização e integração do sistema, unidades que permanecem independentes, como hospitais privados sem fins lucrativos de referência, buscam sinergias para se manterem fortes e com poder de escala frente ao novo desenho que se forma.
O consórcio de compras representa a primeira iniciativa operacional de grande escala. Apesar da iniciativa conjunta, todos os participantes mantêm autonomia para realizar contratações individuais, e o projeto é explicitamente não exclusivo.
Nos mercados de hospitais gerais e especializados, os participantes somam 3.890 leitos adultos não-SUS em hospitais gerais — participação de 3,6% em um universo de 106.669 leitos — e 495 leitos em hospitais especializados, equivalentes a 2,1% do total de 22.754.
Esses números reforçam o argumento de que o consórcio não concentra poder de compra em nível que justifique restrições.
Parte relevante dos benefícios esperados se projeta para além das operações privadas. Hospitais como HCor, Sírio Libanês e Oswaldo Cruz participam do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (PROADI-SUS), pelo qual executam projetos de pesquisa, ensino e gestão com recursos de isenções fiscais.
A redução de custos operacionais potencialmente amplia a capacidade dessas instituições de manter ou expandir contrapartidas ao sistema público.
O avanço dos custos com insumos e medicamentos é apontado como um dos principais vetores de pressão sobre as margens de hospitais filantrópicos. A formação do consórcio é, nesse contexto, uma resposta estrutural a um desequilíbrio que o modelo individual de compras não tem conseguido corrigir.
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