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Cencosud compra St. Marche em meio à recuperação judicial

Alexandre Inacio

Loja do St. Marche em Higienópolis (Crédito: Divulgação)
Loja do St. Marche em Higienópolis (Crédito: Divulgação)

A rede chilena Cencosud fechou acordo para adquirir 100% do Grupo St. Marche, operador de 32 supermercados e do Empório Santa Maria em São Paulo.

A transação tem como condição precedente a homologação da recuperação judicial pedida pelo grupo na madrugada desta quarta-feira, 24.

O valor da transação não foi divulgado. As negociações com a Cencosud vinham ocorrendo desde o fim de 2025. Naquele período, o grupo ainda tentava encerrar a recuperação extrajudicial iniciada em abril do mesmo ano.

Condição do Cencosud

O pedido de recuperação judicial foi a condição precedente definida pela Cencosud para o fechamento da transação.

Segundo Bernardo Ouro Preto, cofundador e CEO do St. Marche há 24 anos, a decisão foi tomada diante de incertezas criadas por um dos credores da companhia.

Esse credor pediu a extinção da recuperação extrajudicial, ampliando as dificuldades no fluxo de caixa. A recuperação judicial passou a ser o único caminho para organizar o passivo e viabilizar o negócio com o grupo chileno.

O processo deve levar cerca de nove meses. Ouro Preto permanece como CEO ao menos até a conclusão.

Com a aquisição, a Cencosud estreia no segmento de varejo alimentar para alta renda no Estado de São Paulo. A rede chilena já é dona no Brasil das marcas Prezunic, Giga Atacado, GBarbosa e Bretas, com mais de 1.440 lojas em seis países.

A empresa chilena registrou US$ 17,4 bilhões em vendas globais em 2025. O St. Marche registrou vendas de cerca de R$ 1,1 bilhão nos 12 meses encerrados em março de 2026.

A transação inclui 32 lojas, o Empório Santa Maria e um centro de distribuição próprio com 7,5 mil metros quadrados. O Cade começa a analisar a aquisição a partir de agora.

Passivo de R$ 532 milhões

A recuperação extrajudicial, iniciada em abril de 2025, envolvia R$ 528 milhões em créditos de 16 credores financeiros. A distribuição do passivo revela concentração em dois blocos que, juntos, respondem por 89% do total.

O maior credor é o FIDC Alternative Assets I, administrado pelo BTG Pactual, com R$ 284,3 milhões, ou 53,8% do passivo. O crédito está vinculado à 1ª emissão de debêntures da holding STM Participações, com vencimento previsto para julho de 2026.

O segundo bloco são os CRAs emitidos pela Ecoagro, com a Hortus como devedora. As séries 1 e 2 totalizam R$ 185,1 milhões, ou 35% do passivo. Esses papéis estão pulverizados entre cerca de 3 mil investidores pessoas físicas.

O plano extrajudicial

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O Tribunal de Justiça de São Paulo suspendeu a homologação do plano extrajudicial em janeiro de 2026. O desembargador Jorge Tosta, da 2ª Câmara Reservada de Direito Empresarial, considerou irregular o quórum de aprovação.

O BTG foi o único entre os 16 credores a aderir formalmente ao plano. O magistrado concluiu que o crédito tem caráter extraconcursal. Isso inviabilizava o quórum mínimo de 50% exigido pela Lei 11.101/2005 para a homologação.

Sem o suporte jurídico ao plano extrajudicial, a recuperação judicial tornou-se o caminho necessário para destrancar a venda à Cencosud.

Fora dos dois blocos principais, o Banco do Brasil é o maior credor, com R$ 23,5 milhões em quatro contratos com a Hortus. A Via Invest tem R$ 9,7 milhões em operações de confirming com a Virtus.

O Banco Daniele concentra R$ 6,2 milhões entre sete entidades do grupo e o ABC Brasil tem R$ 4,8 milhões entre sete subsidiárias. A Crefisa detém R$ 4,2 milhões e o Itaú, R$ 2,1 milhões em contratos com a Hortus.

Sifra, BEX, Yaaleh, BanMinas, InterSimples, Sofisa, Credifort e Descontanet somam cerca de R$ 7,5 milhões em contratos de confirming distribuídos entre as entidades operacionais do grupo.

Raio-x da crise

A crise do St. Marche teve origem em uma aposta de crescimento entre 2021 e 2023. A rede passou de 21 para 33 lojas com investimento acima de R$ 120 milhões.

O financiamento foi contratado com expectativa de Selic entre 8% e 9% ao ano, mas a taxa convergiu para 15% ao ano em 2025.

A alta dos juros coincidiu com o período de imaturidade das novas lojas. No varejo alimentar, tradicionalmente, o ciclo de maturação leva de quatro a cinco anos.

Segundo Ouro Preto, um nível de 15% de juros passou a ser inviável para o modelo de negócio da rede.

O colapso da Americanas em 2023 acelerou o corte de crédito no mercado de risco-sacado, modalidade central no financiamento do capital de giro do grupo.

Os atrasos com fornecedores tornaram-se recorrentes e causaram ruptura nas gôndolas, reduzindo o fluxo de clientes.

O plano do Cencosud

O Cencosud informou que a operação será financiada por meio da realocação de capital proveniente de desinvestimentos recentes no Brasil. O grupo chileno não divulgou quais ativos foram alienados.

Nos próximos dias serão aportados R$ 25 milhões em capital adicional para reforço de caixa do St. Marche, para que a operação siga funcionando com colaboradores e clientes durante o processo judicial.

O Cencosud afirmou que a aquisição reforça sua presença em formatos diferenciados, alinhados ao foco estratégico em rentabilidade e geração de valor no Brasil.


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