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Mercado de securitização é o mais feminino do setor financeiro

Redação Capital Aberto

A maior securitizadora em operação no país, a Opea comemora cinco anos de existência em 2026. Criada como uma investida da Jaguar Partners, a companhia fechou 2025 com R$ 220 bilhões de ativos de securitização sob sua gestão, mais de 600% acima dos R$ 30 bilhões em seu primeiro ano.

A Opea partiu da proposta inicial de ser um hub completo de produtos e serviços para esse grande ecossistema de crédito estruturado e securitização. Posteriormente, expandiu suas operações com a criação de uma gestora em 2022, que hoje atua com 20 fundos que totalizam mais de R$ 5 bilhões.

No ano seguinte, aproveitando a abertura do Banco Central para novas modalidades de fintech, a Opea montou uma Sociedade de Crédito Direto (SCD) que já conta com mais de 2.100 contas ativas. A SCD é usada para dar suporte e agilidade às operações de securitização e fundos (FIDCs) da própria empresa.

A empresa é líder na emissão de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI), segundo a Uqbar, com uma fatia de 50% do mercado. Seu faturamento com securitização somou 66% em 2025, e o restante ficou dividido entre ofertas de serviços de crédito e serviços financeiros.

Referência no mercado de securitização, a CEO da Opea Flavia Palacios se orgulha de atuar na divisão mais feminina no mercado financeiro brasileiro. Em 2023, a Opea criou o Selo Atena para premiar o protagonismo feminino. E neste ano, pela primeira vez, conseguiu reunir outras cinco securitizadoras para premiar as lideranças femininas no mercado de securitização.

Em entrevista para a Capital Aberto, ela falou sobre o protagonismo feminino e como o crescimento expressivo da Opea no período contribuiu para a expansão e diversificação da indústria de securitização no Brasil. Confira:

A Opea está comemorando cinco anos de existência neste ano. Você pode nos contar sobre a formação da Opea e o seu papel no desenvolvimento do mercado de securitização no Brasil??

A minha carreira é toda dentro do mercado de securitização. Acompanhei muito de perto o desenvolvimento e todas as conquistas deste mercado. Passados cerca de 20 anos da origem do mercado, é perceptível que a securitização no Brasil foi ganhando um formato muito próprio e, obviamente, se adaptando às questões estruturais do país.

A gente entendia que havia um grande gargalo para o desenvolvimento na parte de serviço e infraestrutura dedicados. Então, a Opea nasceu com a proposta de prover diversidade, qualidade, infraestrutura e oferta de serviços, viabilizando o crescimento do mercado para triplicar ou quadruplicar de tamanho e ganhar amplitude.

O mercado de securitização começou focado no setor imobiliário, depois expandiu para o agro e a nossa visão sempre foi de que ele deveria ser um caminho de financiamento para todo e qualquer setor que tenha crédito no meio da sua estrutura.

Nossa proposta foi dar um passo à frente e falar: “Não vamos ficar esperando que tenha demanda para dar oferta. A gente vai montar um negócio com uma proposta de ser um hub completo de produtos e serviços para esse grande ecossistema de crédito estruturado e securitização”. E este movimento foi capaz de induzir o desenvolvimento do próprio mercado.

Isso deu origem à Opea cinco anos atrás. Na época, havia demanda por investimentos, mas a parte de infraestrutura e serviço também precisava de investimentos. Quando a gente nasceu, éramos tão somente uma securitizadora, então veio de um spin-off da RB Capital, com um investimento da Jaguar, que é o nosso sócio aqui, um fundo de private equity. E esta foi a partida para desenvolver todo esse hub, trazendo outras soluções. Montamos a nossa securitizadora, expandimos a operação que era majoritariamente imobiliária, e ela hoje é uma securitizadora que atua em todos os setores.

Hoje, além da operação imobiliária, ainda tem um volume muito grande no agro, securitização financeira, de cartão de crédito, veículo, consignado, o que você for colocando de crédito. Então a gente conseguiu tornar a securitizadora agnóstica.

Também montamos a gestora, alternativamente aos produtos via securitizadora, para ter fundos ligados ao mercado de crédito e securitização também, sobretudo FIDCs. Mas, de novo, a Opea precisava ser completa no serviço e oferecer dentro de casa as alternativas que o cliente busca. Então, a gestora já veio com essa visão complementar.

E por qual razão, a Opea optou por entrar também no segmento de serviços financeiros??

Montamos a operação de serviços financeiros via Sociedade de Crédito Direto (SCD), aproveitando a abertura do Banco Central para essas novas modalidades de fintech. Montamos esta operação dedicada a desenvolver e prover serviços financeiros para este mercado. Isso veio em função do nosso olhar sobre o que faltava para determinadas estruturas serem mais seguras, escaláveis ou transparentes.

Precisávamos de determinados serviços que os bancos tradicionais não tinham na prateleira, porque são coisas muito mais específicas e muito mais customizadas. Então, o nosso foco foi desenvolver aqui essa gama de serviços para prover esse ecossistema. Montamos uma vertical que a gente chama aqui de serviços de crédito.

Entendemos que quando se fala de securitização, estamos falando praticamente da conta final. Mas por trás disso, existe toda uma gestão dos créditos que, para eu viabilizar essa segunda parte, eu também precisaria ofertar a primeira.

Hoje temos serviços de créditos agrícolas, imobiliários, agentes de conciliação, cobrança de créditos concentrados. Desenvolvemos uma série de serviços ligados a serviços para crédito e carteiras de crédito, mas que se acoplam nessa esteira. Então, Opea chega cinco anos depois de uma securitizadora, notadamente imobiliária, a uma empresa que tem um pilar completo de serviços de crédito.

Dentro deste primeiro pilar, ampliamos a atuação da securitizadora para outros segmentos. Depois trouxemos a gestora para ter aqui esse olhar mais agnóstico com relação ao tipo de produto de securitização. E com o terceiro pilar, que é de serviços financeiros, conseguimos gerar valor nas cadeias anteriores, tanto na ponta de serviços de crédito quanto na ponta de securitização, trazendo serviços financeiros feitos muito mais sob medida para este tipo de mercado.

E como se deu esta jornada de crescimento? Foi somente a partir do crescimento orgânico da empresa? 

Essa jornada não foi só orgânica. No meio do caminho, fizemos a aquisição da Planeta Securitizadora em 2022. Em 2024, a gente comprou a True Securitizadora, que era o nosso maior concorrente. No mesmo ano, compramos a Maximus, que é a empresa de serviços financeiros imobiliários, que hoje está dentro do grupo. Também fizemos investimentos em uma plataforma de tokenização, de créditos, para olhar para onde o blockchain pode trazer ganhos e vantagens de escala dentro desse ecossistema.

Com isso tudo, saímos de 16 pessoas lá em abril de 2021 e hoje temos em torno de 350 pessoas aqui, nessas verticais todas. Mais do que celebrar nosso crescimento, o mais legal desta história é que a gente cresceu impulsionando o mercado a crescer. Este mercado não está estabilizado, ainda vemos que terá muito desenvolvimento pela frente, eu sempre digo que a nossa principal missão é desenvolver o mercado.

É óbvio que não conseguimos sozinhos, mas eu não tenho dúvida de que fomos um agente muito importante no desenvolvimento deste mercado. Atualmente, tem um nível recorde esse ano de debêntures de securitização e de Certificados de Recebíveis (CR). Era um produto que praticamente não existia quando a Opea começou.

Todos nós sabemos que o Brasil não está passando pelo melhor momento econômico, mas ainda assim eu vejo como o mercado de securitização cresceu muito nesse período e não só em volume, mas em abrangência, na quantidade de setores que estão abarcados e na sofisticação de operações. Hoje, fazemos alguns tipos de estruturas que seriam impensáveis cinco anos atrás, mas justamente porque eu não tinha infra, não tinha serviço. Como fazer uma securitização de crédito envolvendo bilhões de reais, processando em tempo real com transparência para o investidor concedente? Não tinha essa infraestrutura lá atrás.

Diante disso, você avalia que a restrição do crédito bancário tradicional, provocada pelo cenário econômico desafiador, acabou sendo um motor para a sofisticação tecnológica e a inclusão de novos públicos no mercado?

Eu gosto de ver o copo meio cheio sempre. Eu acho que temos dois pontos importantes aqui. O fato de não estar no melhor movimento econômico não é só para o mercado de capitais, é para o mercado financeiro como um todo. De fato, portas que se fecham no crédito tradicional viram oportunidades para o mercado de crédito via mercado de capitais e via securitização.

Então, sim, acho que as dificuldades do mercado bancário tradicional abriram portas para nós. Além disso, trouxe uma questão sobre o aprendizado e o aprimoramento de produtos. Para o produto sair à prova de bala no final da esteira, ele tem que passar por testes. É nesse momento de estresse econômico, de crise de crédito, que estamos testando se as nossas estruturas estavam bem-feitas ou não, e se os nossos mecanismos e ferramentas estão funcionando.

É óbvio que tem um monte de coisa que funcionou e tem um monte de coisa que a gente entendeu, agora num cenário de crise, que poderia ter sido feito de forma diferente e a gente aproveita para ajustar. Então acho que esse é outro lado positivo aqui deste momento que a gente está passando.

Fora que a Opea já nasceu no meio de pandemia, e logo veio a crise. Mas é neste momento de mercado pouco aquecido que dá tempo para se desenvolver também. E ainda olhando o copo meio cheio, acho que temos aprendizados em função da crise.  No fim do dia, o fato da crise chegar antes nos mercados tradicionais deu espaço para o mercado de securitização se desenvolver.

Quais os desafios que o mercado brasileiro de capitais tem pela frente em relação ao investidor estrangeiro?

Um dos maiores desafios do mercado de capitais é atrair o capital estrangeiro. Atrair este capital é o sonho de todos nós, seja no mercado de ações, seja no mercado de dívida, seja no mercado de securitização.

Eu enxergo vantagens do mercado de securitização nesta atração. Nós entendemos que esta era uma oportunidade para o Brasil. Em muitos países, a securitização é bastante conhecida e já difundida, mas ainda temos um processo de education por aqui. Porque em outros países, as pessoas entendem mais, sabem fazer e analisar estas operações.

A Opea tem uma frente muito grande de operações no agro, que é um setor fortemente fixado ao dólar. Então, este setor tem uma facilidade muito grande de gerar operações na essência dolarizadas, tirando o risco real da mesa, que eu acho que é um fator que ajuda a atrair capital estrangeiro. Porque ao olhar o Brasil, o capital estrangeiro tem duas decisões: querer estar no Brasil e querer estar em real. E escolher entre estas duas coisas talvez seja mais difícil para o investidor.

O agro nos permitiu avançar nesta frente há cerca de uns três anos. Fomos super pioneiros na venda de operações de securitização do Brasil lá fora, inclusive lidando com bolsas internacionais para que os investidores internacionais tenham acesso às operações aqui. Todos os anos, a gente vem fazendo novas operações, inclusive conseguindo aumentar os volumes dessas operações.

Nestas operações nós conseguimos trazer um pool de investidores relevantes, temos listado esses títulos de securitização em bolsa no exterior, como na bolsa de Viena, por exemplo. A Opea tem listado em bolsas fora para reforçar essa governança e transparência. Nossa ideia é o seguinte: não é que eu quero fazer uma operação, eu quero desenvolver um mercado, desenvolver a confiança e o conhecimento neste produto.

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A ideia é dar visibilidade, conhecimento, trazer mais informação pública, documentação em padrão internacional, em inglês, para ir criando esse education lá fora. Na época em que eu comecei, a Opea estava inclusive considerando abrir um escritório no exterior para fazer essas ofertas lá fora. A verdade é que a gente entendeu que não precisava ter uma unidade no exterior. Estamos atuando com parceiros para fazer a ponte para o serviço de que a gente precisa lá fora, mas este caminho segue sendo uma vertical muito estratégica para a Opea.

De novo, o Brasil não está em seu melhor momento economicamente, mas estamos plantando essa semente de pouco em pouco, reforçando o education. Tenho ido ao exterior com alguma frequência, conversado com investidor estrangeiro, porque entendemos que é assim que a gente vai ganhando essa confiança. Na hora que o Brasil voltar a ser a menina dos olhos lá fora, nós teremos uma oportunidade porque essa semente já foi plantada.

Ainda falando sobre o agronegócio, o setor passa por um momento difícil após registrar um recorde de pedidos de recuperação judicial. Especialistas apontam que o segmento enfrenta uma "tempestade perfeita": além dos impactos climáticos do El Niño, lida com custos elevados de diesel, frete e insumos. Diante desse cenário, como você avalia o mercado de crédito para o agronegócio nesta temporada? 

É um cenário bem difícil para este começo de temporada. É mesmo como uma tempestade perfeita, porque acho que a gente tem realmente um somatório de fatores nunca visto. Tem a questão climática, e o efeito externo, que começou lá atrás com a guerra da Rússia e Ucrânia. Ninguém nem lembra mais, não é? E ninguém imaginava o quanto podia escalar para outras situações.

O que o agro sofreu com a alta no preço de insumos foi um absurdo. O problema dessa tempestade perfeita é que ela veio justamente quando o setor estava muito machucado no que se refere à parte de crédito, e além das RJs, houve um aumento da inadimplência.

Mas vou te falar que quando a gente tira o zoom dos problemas e olha o mercado como um todo, o agro no Brasil é enorme. O Brasil segue sendo não só um fornecedor de produtos internos, mas um exportador muito relevante. Então, independentemente de impactos de safra, do custo, a gente tem muita coisa acontecendo e acontecendo bem.

Se você olhar para o nosso portfólio de agro hoje, nem tudo está com problema de crédito ou com default. Tem muita coisa performando bem, a gente tem carteiras performando bem.

O setor está passando por um soluço, assim como já passou por outros. Está numa fase mais difícil, mais restritiva no crédito bancário e no mercado de capitais.

Já não tem tantas operações quanto tinha há cerca de três anos porque a reação mais imediata do investidor é ficar mais seletivo, diminuir a exposição em determinados segmentos e tomar mais cuidado. E o que temos visto são operações muito mais direcionadas aos dois extremos, as operações com baixíssimo risco de crédito ou as operações estressadas.

Na verdade, quem está ali no meio neste setor está enfrentando mais dificuldades. Isso porque o investidor que quer boa qualidade de crédito está indo para o melhor possível. Ao mesmo tempo, tem investidor olhando as oportunidades dentro do mundo de crédito estressado. Eu vejo como um momento temporário e não estrutural. Talvez atrase o plantio, ou talvez custe mais caro e reduza as margens, talvez as operações precisem de um pouco mais de estrutura mesmo para dar conta de um crédito mais apertado, mas eu não vejo o mercado parando.

Neste cenário, as estruturas estão ficando mais robustas, tanto do ponto de vista de estrutura jurídica como em nível de cobertura de garantia. Então, eventualmente, operações que saíam com 30% de cobertura agora estão saindo com 40% ou até 50%, por conta desta visão do aumento do risco. Eu não vejo isso como um ponto negativo; eu vejo isso como uma capacidade do mercado de se adequar e manter a roda girando. Ok, você muda o tipo de estrutura, você muda o tamanho da garantia, mas seguimos saindo e fazendo negócio.

Já que a Opea teve a oportunidade de se estruturar, desenvolver, aprimorar e ajustar operações em meio à crise da pandemia e ao momento adverso da economia brasileira, como você enxerga o crescimento da empresa nos próximos cinco anos? 

Eu diria que nestes cinco anos a gente conseguiu colocar de pé o chassi de que precisávamos para os próximos cinco anos. Hoje, de fato, conseguimos acessar e prover serviços para todos os setores. Expandimos nossa base de serviço de uma forma muito significativa e estamos colhendo frutos da sinergia entre os diversos serviços que eu tenho dentro de casa. Então, eu consigo que a combinação dos diversos serviços da Opea se transforme em benefício para o meu cliente.

O que esperamos agora, e torcemos para isso porque fizemos a nossa parte, é que o mercado retome curva de crescimento aqui com uma taxa de juros caindo. Agora estamos muito mais prontos e com produtos muito mais redondos para poder tocar quando vier uma onda de mais operações, tanto em quantidade em complexidade.

Nós não paramos na ponta de desenvolvimento de novas frentes. Talvez a gente tenha feito o que era mais óbvio e mais estruturante, mas seguimos mirando novidades, novos serviços, novas infras, então a gente tem muita coisa na ponta de tecnologia sendo testada da porta para dentro, que a gente considera abrir para o mercado, eventualmente até como derivada de serviço.

Tem algumas frentes testando dentro de casa em termos de serviços que hoje nem existem no nosso mercado, mas que a gente entende que vão ser importantes para uma nova fase que a empresa já está maturando.

Eu vou usar o chassi mais robusto para acelerar o crescimento, mas eu vou seguir trazendo inovação dentro desse meu ecossistema. Achamos que esse mercado ainda tem um potencial para crescer muito, se pensarmos no mercado de securitização, vis-à-vis o PIB do Brasil, eu considero esse volume bastante tímido.

Então, daqui a cinco anos, vamos olhar como este mercado ganhou volume e robustez e, com isso, novos bolsos, investidores, mais investidor institucional e estrangeiro. Ter mais sofisticação de produto, maiores volumes, mais transparência, que gera mais segurança, que gera redução de taxa. E estamos preparando o caminho para que tudo isso aconteça.

Um exemplo da forma como a gente prefere entrar no mercado é o investimento na plataforma de tokenização. Entendemos que, para a Opea, o melhor valor da tokenização e do blockchain é como meio e não com fim de vender o produto tokenizado.

Ou seja, se eu usar a tokenização para uma maior eficiência, transparência e controle do operacional do crédito, talvez ele possa gerar mais valor do que propriamente tokenizando o meu produto e vendendo. Estamos trabalhando na tokenização de créditos desde a origem.

Então no conceito ali, no caso do imobiliário, que é esse caso específico, a incorporadora imobiliária, ao invés de vender os seus produtos de uma maneira tradicional e tokenizar em algum momento, nós decidimos fazer a tokenização tendo um smart contract desde a origem.

Neste caso, a sua promessa de cumprimento do imóvel já vai estar no smart contract, que já nasce com um contrato todo autoexecutável, que é feito e gerido nessa plataforma nossa aqui. E isso terá uma vantagem que é uma segurança muito grande, porque na medida em que você tem o seu crédito cruzado, você sabe exatamente onde ele está, com quem ele está, quanto ele custa. Todo o processo é muito transparente, todas as chaves, tudo que aconteceu, é porque está tudo registrado na blockchain.

Testamos essa tese ao fazer a securitização de um crédito já tokenizado, porque pulando etapas, eu corto custos, eu reduzo fricção, porque eu já tenho essa auditoria feita, eu tenho transparência, eu tenho uma autoexecução de contrato que facilita enormemente o negócio de securitização.

E para amarrar e fechar com chave de ouro a operação, que vamos chamar aqui de tokenizada de ponta a ponta, a gente optou por fazer a distribuição via plataforma de crowdfunding pela Resolução 88 da CVM.

Já que nasceu diferente, por que não terminar diferente? Então, hoje é uma operação, eu diria que ela é uma operação 100% sem papel, ela é 100% digital. Todos os créditos lastros da lei da operação são nativamente tokenizados, eles são geridos, eles são autogeridos, autoexecutáveis através de contratos inteligentes. Na ponta final, os investidores que investiram aqui chegaram por meio de uma plataforma de crowdfunding e compraram papel também numa modalidade de distribuição não tradicional. É sem papel,100% digitalizada. Foi uma operação pequena, da ordem de R$ 3 milhões, mais como um primeiro teste do conceito.

Conte sobre o Selo Atena e o protagonismo feminino no mercado de securitização. Como surgiu a ideia?

A Opea, desde seu início, sempre teve uma participação feminina muito relevante, sendo uma empresa que nasceu liderada por mulheres. Ao longo da minha trajetória, eu relutei muito em levantar bandeiras sobre presença feminina por receio de que isso parecesse uma muleta. Mas com o tempo eu fui entendendo o quanto isso era importante, porque a gente contratava mulheres e elas falavam assim: “Eu preferi vir para a Opea porque eu vi lideranças femininas e isso me inspirava, me motivava e me fazia entender que teria espaço para mim".

Meu caso foi diferente: quando comecei a trabalhar, a empresa era totalmente masculina, portanto, essa opção não existia. Foi assim que passei a entender o quanto era importante que a gente falasse mais e colocasse mais luz sobre esse protagonismo feminino, que a gente às vezes não queria falar, achando que podia ser levado para um lado de ativismo excessivo. Começamos a entender que isso que estava sendo importante para as pessoas que estavam chegando aqui na Opea.

Criamos o Selo Atena em 2023 porque entendemos que a gente precisava diferenciar aquelas transações majoritariamente conduzidas por mulheres aqui dentro.  Porque isso ajudava a dar exposição para esse protagonismo das mulheres. 

Então, no ano passado, tomamos a decisão de expandir o Selo Atena. Tem lideranças femininas cada vez mais despontando em outras pontas dos negócios que não estão somente aqui dentro. A ideia foi levar este movimento que foi bem-sucedido na Opea para fora de casa. E aí, surgiu a ideia de fazer a premiação como uma forma de reconhecer aquelas mulheres mais presentes nas transações em 2025. Para isso, buscamos em nossa base de dados operacionais quem foram essas mulheres que tiveram mais representatividade.

Eu digo que o mercado de securitização é o mercado mais feminino dentro do mercado financeiro, que ainda é muito masculino. Mas quando você vai reduzindo, olhando para o mercado de securitização, que cresceu e tem uma robustez hoje, a presença feminina é muito forte. Isso é parte da própria dinâmica de desenvolvimento do nosso mercado. 

Muito da construção coletiva do mercado, do desenvolvimento do mercado, talvez tenha sido facilitado, porque, apesar de concorrentes, a gente tem um grupo de mulheres que conseguem se unir e olhar para o benefício comum. A partir daí convidamos cinco securitizadoras do mercado, Bari, Canal, Província, VERT e Ecoagro. Juntas, elas e a B3 representam hoje mais de 50% do mercado de securitização e têm mais de 52% do quadro de colaboradores formado por mulheres. 

Consideramos que se esse protagonismo feminino, em vez de ser um holofote na Opea, tiver um olhar de mercado, ele tem um potencial muito mais transformacional do que eu simplesmente ficar fazendo aqui dentro. Os homens duvidavam que a gente ia conseguir algum nível de adesão, mas a gente conseguiu 100% de adesão.

Então, o evento que originalmente seria só uma premiação, teve o toque da campainha para o lançamento do Selo Atena para o mercado de securitização. E acabou virando um dos temas que mais nos envolvem aqui hoje. O tamanho que está ganhando, a quantidade de apoio, incluindo a própria B3, está sendo muito legal.


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