M&A: cultura e cliente elevam o valor da aquisição
Graziela Bernardo e Deusa Marcon

Fusões e Aquisições (M&A) são movimentos estratégicos, frequentemente vistos como impulsionadores de crescimento e sinergia. No entanto, pesquisa recém-publicada no livro The M&A Failure Trap: Why Most Mergers and Acquisitions Fail and How the Few Succeed, realizada ao longo de 40 anos com 40 mil transações de M&As, revela que a maior parte dessas transações (75%) não atingiu seus objetivos e traz, como principais insights:
- Expectativas irrealistas: As empresas superestimam os benefícios potenciais, subestimando os desafios operacionais e culturais envolvidos na integração.
- Foco excessivo em sinergias financeiras: Sinergias financeiras são frequentemente um dos principais drivers enquanto ignorar aspectos culturais e de gestão pode levar a falhas significativas na integração.
- Falta de planejamento adequado: Planejamento estratégico insuficiente é um dos principais fatores de fracasso.As empresas frequentemente não têm um plano detalhado para a integração pós-aquisição, o que leva a problemas de execução.
- Problemas de comunicação: A comunicação inadequada entre as partes interessadas, ou mesmo culturas contrastantes, resulta em mal-entendidos e conflitos, que são prejudiciais para o sucesso.
Atuante no Mercado de Capitais, dentre outros mercados, já tendo acompanhado diferentes processos de M&A, as executivas da Recíproka entendem o desalinhamento cultural como um sabotador silencioso. Um bom e real exemplo de como a cultura organizacional pode ser impactante para uma transação de M&A é compartilhada pelo banqueiro Nik Johnston, do JP Morgan, sobre quando a varejista de moda de luxo NMG foi adquirida pela Saks Global em dezembro de 2024, resultando em um múltiplo EBITDA 9,7 vezes maior e superior ao múltiplo de 5,9 da concorrente Nordstrom. Curiosamente, este valor não se deveu ao posicionamento da empresa no segmento de luxo. Na ocasião, a arma secreta da NMG foi uma cultura de trabalho flexível e focada em resultados de longo prazo, que impulsionou estabilidade e desempenho, sem precedentes, em um setor conhecido pela alta rotatividade. (Artigo de Brian Elliott, MIT Sloan Management Review, 2025)
Case Toro e Santander: cultura como diferencial competitivo
A Recíproka marcou presença no último Hacktown – um dos maiores festivais de criatividade e inovação da América Latina, que acontece em Santa Rita do Sapucaí - MG, onde acompanhou a palestra de Marcos Machado, Partner & Group Product Manager na Toro, negócio adquirido pelo Banco Santander em 2023, em que o gestor compartilhou sua experiência com a fusão, resultante da aquisição total da Toro Investimentos pelo Santander em 2023. A Toro, fintech de Belo Horizonte, se destacava por uma cultura ágil, não-hierárquica e com foco intenso na autonomia e colaboração. Marcos ressalta que na Toro, "você tinha que errar" para aprender, enquanto a alta liderança admitia seus próprios erros, reforçando um ambiente de experimentação e aprendizado. Abordou também o papel fundamental do middle management na preservação e fortalecimento da cultura organizacional, que garantiu uma transição segura e sadia para todas as pessoas e consequentemente, para o negócio.

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Apesar do "choque cultural" inevitável entre a startup e o gigante bancário tradicional, a Toro não "perdeu sua essência". Pelo contrário, sua cultura de inovação e foco no cliente foi combinada com a solidez do Santander, resultando em um crescimento notável: Um salto da 12ª para a 5ª posição em volume negociado na B3 (Toro Blog, 2025). Essa resiliência e sucesso pós-aquisição demonstram que, mesmo diante de estruturas distintas, uma cultura forte, baseada em valores como propósito, colaboração e tolerância ao erro, pode ser o catalisador para prosperar.
Mas afinal, o que os relatórios financeiros das diligências convencionais não mostram?
Para responder a esta pergunta, a Recíproka ouviu em profundidade diferentes atores das operações de M&As, desde negócios que têm como estratégia de crescimento a aquisição, passando por fundos de investimento e intermediários, como assessorias especializadas, e chegou aos seguintes pontos, geralmente não levados em consideração e que corroboram com os resultados da pesquisa que analisou 40 mil operações de M&A, sendo:
- Desalinhamento cultural
- Falta de Planejamento Estratégico
- Não considerar a voz do cliente
- Ruídos de comunicação
Neste cenário, a Recíproka atua como a ponte entre números e narrativas, cultura e execução, percepção e estratégia, garantindo que o deal não só feche, mas prospere com sustentabilidade e propósito. E faz isto integrando 3 alavancas de valor à jornada de investimento, sendo:
- Escuta de Clientes (Customer Due Diligence): Identifica o valor percebido, riscos de "churn" e alavancas de fidelização.
- Mapeamento Cultural (Cultural Due Diligence): Diagnostica crenças e comportamentos, verifica o "fit cultural" e antecipa riscos de rotatividade.
- Planejamento Estratégico Cocriado (buy-side & sell-side): Alinha estratégias, com foco em execução e resultados, garantindo a apropriação do plano pela liderança e integração desses vetores – cultura, cliente e estratégia – o que é fundamental para transformar uma tese de investimento em valor real.
Graziela Bernardo, Estrategista e Designer Thinker, CEO e Fundadora da Recíproka
Deusa Marcon, Estrategista e Especialista em Inovação, Co-fundadora da Recíproka
