O populismo fiscal cobra uma fatura cara
Após meses de uma crise causada pelo populismo fiscal do governo federal, o ano terminou com sentimento ruim para empresários e investidores. A dívida pública aumentou seis pontos percentuais desde o início do mandato atual de Lula. As taxas de juros futuras dispararam em dezembro após forte alta no ano, o Banco Central aumentou a Selic em um ponto percentual e prometeu mais duas altas da mesma magnitude, o que a levaria para 14,25%. O mercado de capitais, que teve importante crescimento no ano, ajudando empresas de todos os tamanhos a se financiar, teve um período de acomodação em novembro e dezembro, como esperado diante dos spreads de crédito muito baixos.
Em dezembro, o índice Ibovespa caiu mais de 4% e no ano mais de 10%, o dólar subiu mais de 3% no mês e impressionantes 27% em 2024. Os juros futuros para 2027 passaram de menos de 10% para quase 16%, a inflação calculada pelo mercado subiu 3 pontos percentuais. Todas as medidas de expectativas de inflação indicam falta de credibilidade da política monetária, com previsões de não cumprimento da meta de inflação. Precisa de muito esforço para produzir esse nível de destruição. O paralelo mais recente com a situação atual é a presidência da Dilma Rousseff e o que evita um cenário tão ruim é que a economia continua crescendo. Os economistas, na pesquisa Focus do Banco Central, preveem que o PIB irá crescer mais de 2% em 2025, com ajuda do agro e do carrego estatístico do crescimento de 2024, 1,77% em 2026 e 2% em 2024.
Outro fator que evitou crise mais ampla foi o uso das reservas internacionais. O final do ano tem uma sazonalidade de envio de recursos para o exterior, especialmente por empresas e bancos, e em 2024 a pressão foi potencializada pela crise doméstica e pelo fortalecimento do dólar no mundo. Em dezembro, o Banco Central usou mais de US$ 30 bilhões das reservas, sendo US$ 22 bilhões em venda de dólar à vista e US$ 11 bilhões em linhas com compromisso de recompra. Como esses últimos não afetam o cálculo, as reservas mantidas pelo BC caíram de US$ 367 bilhões para US$ 342 bilhões, o que pela maior parte das medidas é um volume adequado. Considerando os swaps cambiais, a posição do BC em moeda estrangeira é superior a US$ 230 bilhões.

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Os fundos de investimento tiveram moderada captação positiva no ano, mas quase totalmente explicada pelos fundos de renda fixa, incluindo FIDCs, já que houve resgates líquidos de multimercados e ações. Em dezembro, mesmo os fundos de renda fixa tiveram resgates de mais de R$ 100 bilhões, em parte efeito sazonal, mas principalmente explicado pela volatilidade muito elevada nos títulos públicos e privados. A acomodação no mercado de crédito que me referi no último artigo aconteceu, mas, pelo menos por enquanto, sem grandes repercussões. Os spreads de crédito para grandes empresas aumentaram e levaram o principal índice de ativos do setor, o IDA-DI, a cair 0,52% do pico em 17/12, mas já houve recuperação. Os dados de emissões de dívidas referente a dezembro ainda não foram divulgados, mas em novembro o volume de novas ofertas no mercado de capitais foi menor do que nos meses anteriores. A emissão de debentures caiu a R$ 24 bilhões, um dos menores valores de 2024, mas ainda saudável.
Diante dos juros altos, a demanda dos investidores por ativos de renda fixa deve continuar mantendo uma fonte de financiamento aberta para as empresas, ainda que com elevado custo devido aos juros pagos pelos títulos públicos. O ambiente macro e o baixo nível dos spreads de crédito para debentures de grandes empresas deve manter a volatilidade relativamente elevada, com períodos de rentabilidades abaixo do CDI mais prováveis. Os FIDCs tiveram excelente desempenho no último ano e o mesmo deve acontecer em 2025, já que unem proteção nas cotas seniores, devido às garantias, com baixa volatilidade e com bons retornos. No mundo imobiliário, o esgotamento dos recursos subsidiados tornou o mercado de capitais, os CRIs, muito competitivos para incorporações, um mercado antes dominado pelos bancos.
A falta de credibilidade da política econômica, especialmente o crescimento rápido da dívida pública, levou a taxa de juros a patamares que achávamos tinha ficado no passado. O mercado de capitais deve continuar ajudando empresas e investidores a encontrarem bons projetos em cada vez mais setores da economia, essa é a boa notícia. A taxa de juros que o governo paga na sua dívida é o ponto de partida de todos os cálculos de juros e, por isso, será mais caro se financiar em 2025.
Evandro Buccini é sócio e diretor de gestão de crédito e multimercados da Rio Bravo
