Juros mais altos e a demanda por fundos de crédito

Do final de julho até 24 de outubro, a curva de juros nominal abriu (subiu) em média um ponto percentual, atingindo impressionantes quase 13%. Já os títulos indexados à inflação, que também já estavam elevados, subiram 0,5 p.p., com o vencimento em 2035 passando de 6,25% para 6,75%. A inflação implícita nesses títulos está perto de 5,7% para os próximos anos, muito acima da meta de inflação.
Não é fácil explicar em poucas palavras esse movimento. Não houve alteração significativa das expectativas do Focus, o resultado fiscal primário não se alterou, as inflações previstas de 2025 a 2028 também não. Somente a inflação corrente subiu, principalmente por fatores climáticos, em energia e alimentos, e agora o IPCA deve encerrar o ano próximo ao teto da banda de tolerância da meta, em 4,5%. O Banco Central teve que voltar a subir juros e o fez de forma unânime, com o futuro presidente sendo uma das vozes mais agressivas sobre a necessidade de aproximar as expectativas de inflação da meta.
A foto não parece tão ruim quanto a reação do mercado e as expectativas não são boas, mas não pioraram. Há também fatores técnicos envolvidos, os investidores não querem comprar ativos de risco brasileiros, especialmente renda variável e títulos longos. Os fundos de ações e multimercados perderam muitos recursos, no ano quase R$ 200 bilhões, e os estrangeiros estão receosos, aportaram apenas US$ 2 bilhões este ano até agosto no país, a maioria em títulos de renda fixa.
A volatilidade das taxas de títulos do governo contamina as outras classes de ativos. Os fundos listados, os imobiliários e os de infraestrutura, estão negociando no mercado secundário com preços mais baixos do que seus ativos efetivamente valem. Hoje é possível comprar cotas desses fundos e garantir retornos consideravelmente acima dos títulos públicos e com isenção de impostos. Mas essa dinâmica dificulta a captação de novos recursos por esses fundos, que poderiam ser usados para comprar novas operações de crédito e ajudar as empresas tomadoras a investir e alongar suas dívidas.

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A demanda por fundos de crédito abertos continua forte e são os únicos com captação expressiva em 2024. De acordo com a Anbima, os fundos de renda fixa captaram mais de R$ 300 bilhões este ano e a maior parte foi naqueles que compram crédito privado. Aqui o efeito das marcações a mercado é positivo, com os spreads de crédito comprimindo muito nos últimos meses. Uma empresa com rating AAA que fizesse uma captação de debêntures no começo do ano pagaria, em média, 1,15% acima do CDI ao ano. No final de outubro, essa mesma empresa pagaria consideravelmente menos, 0,6% acima do CDI. Para as empresas com rating AA, esse prêmio caiu de 1,8% para 0,9% e aquelas com rating A saiu de 2% para 1,6%.
O volume de emissões de debentures bate recordes este ano, com R$ 315 bilhões até setembro, muito acima do mesmo período de 2022 que tinha R$ 185 bilhões (2023 não é um bom parâmetro, por causa de Americanas). Também estão nessa situação todos os outros instrumentos de crédito do mercado de capitais: FIDC, CRI, CRA, Notas Comerciais. Em especial no mundo imobiliário, os bancos menos competitivos com a redução de recursos na poupança e os CRIs representam fonte importante de financiamento para o setor.
As empresas que conseguem se organizar para acessar o mercado de capitais têm conseguido grandes volumes e taxas de juros reduzidas. O investidor que compra uma debênture de uma empresa com rating elevado ou fundo de crédito desses ativos precisa se perguntar se a remuneração está adequada para sua situação. Esse ambiente favorável ao crédito no mercado de capitais deve continuar, pois a taxa de juros elevada mantém a demanda dos investidores por fundos de crédito. O risco é algum evento não esperado, como aconteceu com Americanas em 2023, ou uma deterioração do resultado das empresas vindo de fatores macroeconômicos. Nenhum está no radar no curto prazo, o mais provável no mercado de empresas com rating elevado é um momento de acomodação, como foi no final de 2019.
* Evandro Buccini é sócio e diretor de gestão de crédito e multimercados da Rio Bravo.
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