De trabalhadores a investidores: o novo futuro da vida e do dinheiro diante da longevidade ativa
Marcia Scaramela
O envelhecimento populacional é um fenômeno global, mas o Brasil está envelhecendo mais rápido do que quase todos os países ricos e, com isso, o debate sobre qualidade de vida e futuro financeiro já não cabe apenas no noticiário de economia. Hoje, saúde física e emocional, vínculos sociais, tempo de descanso e capacidade de usufruir os anos conquistados entraram definitivamente na pauta pública — e na financeira.
Esse é um novo olhar que ganhou impulso com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), do Ministério do Trabalho e Emprego e em vigor desde o primeiro semestre de 2025. Pela norma, as empresas são obrigadas a identificar e gerenciar riscos psicossociais, como estresse, ansiedade e carga mental excessiva. Na prática, a legislação agora reconhece que bem-estar não é um benefício eventual. Mais que isso, é um direito trabalhista.
Essa visão mais abrangente que vale para o trabalhador, deve valer quando tal trabalhador assume outro papel relevante na sociedade: o de investidor. É uma virada de chave desafiadora, mas a abrangência agrega valor.
Hoje, apesar dos avanços regulatórios e corporativos em saúde mental, ao entrar no universo financeiro a lógica ainda é antiga: performance, retorno, liquidez, curva de juros, volatilidade. São pilares essenciais, mas insuficientes, dado que o investidor aplica recursos para envelhecer com autonomia, financiar prazeres e descanso, preservar saúde e relações e construir legado.
Nesse contexto, o papel do gestor de patrimônio ganha uma importância extra: não é apenas multiplicar capital, mas também ajudar o cliente a transformar esse capital em vida vivida — e não adiada. Aliás, viver bem precisa ser um objetivo econômico.
Na teoria, o investimento está intrinsecamente ligado à ideia de futuro. Na prática, investidores precisam ser convidados a responder qual a sua visão desse futuro e como gostariam de viver seus anos de longevidade ativa. Na indústria de investimentos, segurança e prazer precisam caminhar juntos.
Entretanto, dados mostram investidores inseguros. Pesquisa da Deloitte publicada em 2025 mostra que na geração Millenial (nascida entre 1980 e 1996) e na Geração Z (nascida entre 1997 e 2012), parte ativa do mercado de trabalho atual e, portanto, futuros beneficiários da previdência, não se sente segura financeiramente. Entre os Millenials, 46% estão inseguros, ante 32% na pesquisa de 2024. Na Geração Z, o percentual avançou para 48%, mais que os 30% registrados ano passado.

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Isso levanta um alerta porque Millenial e Geração Z são justamente as gerações que mais têm acesso a tecnologia, mobilidade e senso de propósito no trabalho. A conta não está fechando: nunca se teve tanta tecnologia, informação em tempo real e meios de planejar o futuro. Mas, paradoxalmente, nunca houve tanta ansiedade em relação a este futuro.
É hora de ajustar a rota. O conceito de suitability — compatibilidade entre perfil de risco, objetivos e horizonte de investimento — precisa deixar de ser apenas uma obrigação regulatória para se tornar uma oportunidade de compreender como o dinheiro se integra ao estilo de vida do investidor e que tipo de envelhecimento se deseja.
Hoje, porém, os diálogos entre investidores e gestores se limitam a rebalanceamentos, relatórios de rentabilidade e discussões sobre alocação. Mas, assim como o mercado muda, as pessoas mudam, suas dores e prioridades também. Falar de investimentos já é cada vez mais falar de vida. Dá mais trabalho e demanda mais conversas? Sim. Mas investidores estarão mais contemplados, e gestores terão maior valor percebido.
Numa perspectiva para os próximos anos, a transformação exigirá novas métricas além da rentabilidade, relatórios que conectem patrimônio a objetivos de vida, parcerias com especialistas de saúde, educação e bem-estar, programas de mentoria e alfabetização financeira emocional, canais de diálogo contínuo, entre tantas outras ações possíveis.
As instituições que criarem espaços de aprendizagem e planejamento integral estarão à frente de uma nova cultura previdenciária e de investimento no Brasil. Já temos ações nesse sentido entre as Entidades Fechadas de Previdência Complementar, programas e aplicativos de wellbeing sendo implementados edesenvolvidos para apoiar empresas e indivíduos, pois viver mais importa, mas viver bem importa mais.
Por fim, a longevidade é um dos maiores feitos da nossa época. Mas alcançar um século de vida, se não houver autonomia, vínculos e propósito, pode se tornar mais um problema do que uma conquista. O investimento não é somente uma ciência financeira. É uma ciência da vida.
Marcia Scaramela, sócia da TAG Investimentos
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