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Fundos de private equity precisam ser estratégicos ao renegociar portfólios com títulos de dívida amplamente dispersos

Luciano Lindemann

As emissões de títulos de dívida corporativa, que bateram recorde no ano passado com uma taxa de crescimento anual de 16,6% — de acordo com levantamento da FTI Consulting — continuam registrando volumes significativos em 2025. Atualmente, cerca de um terço desses instrumentos está nas mãos de pequenos investidores e pessoas físicas por meio do mercado de capitais.

Essa dispersão de credores representa um desafio relevante para gestores de private equity, especialmente quando uma empresa precisa passar por um processo de reestruturação. Nesses casos, torna-se necessário negociar com dezenas — ou até milhares — de credores, muitos dos quais têm pouca familiaridade com o ambiente corporativo ou com processos complexos de recuperação empresarial.

A ausência de credores “âncora”, como grandes bancos, combinada à diversidade de interesses entre pequenos investidores, pode tornar as negociações mais custosas, atrasar processos de recuperação judicial e até aumentar o risco de liquidação da empresa. Nesse cenário, surge uma oportunidade estratégica para que os fundos atuem de forma preventiva, antecipando potenciais dificuldades financeiras nas empresas de seus portfólios e se preparando para enfrentá-las com agilidade e eficiência.

Uma das ferramentas essenciais nesse processo é a modelagem financeira e de cenários. Por meio de modelos dinâmicos capazes de simular alternativas como redução de dívida, extensão de prazos e impactos sob diferentes condições de estresse, é possível estimar com mais precisão a real capacidade de geração de caixa de uma empresa e avaliar a viabilidade das soluções propostas.

Outra estratégia eficaz envolve o uso mais assertivo dos covenants — cláusulas contratuais que impõem limites e obrigações financeiras. O monitoramento contínuo desses indicadores permite não apenas a identificação precoce de sinais de alerta, mas também sua utilização como ponto de partida para renegociações mais amplas. Após uma recuperação judicial, novas cláusulas podem ser redefinidas conforme os interesses e expectativas de credores e acionistas.

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Para além do aspecto financeiro, é fundamental mapear credores e estabelecer mecanismos de governança e transparência, especialmente quando se lida com uma base tão ampla. O uso de tecnologias avançadas e ferramentas de inteligência artificial pode contribuir significativamente para esse processo, organizando informações, antecipando riscos e facilitando a comunicação com stakeholders.

Por fim, o timing é crucial. Identificar o momento certo para apresentar um plano, convocar credores e atuar dentro das janelas de liquidez disponíveis pode ser determinante para o sucesso da renegociação e para a preservação do valor da empresa.

Ao adotar essas práticas de forma proativa, os fundos de private equity aumentam as chances de que as empresas de seus portfólios atravessem períodos de crise com maior resiliência e estejam melhor preparadas para potenciais processos de reestruturação financeira.

Em um cenário cada vez mais complexo, no qual o capital está mais amplamente distribuído, quem se antecipa à crise ganha tempo — e a preparação pode fazer toda a diferença entre uma reestruturação mal conduzida e uma transição bem-sucedida.


Luciano Lindemann é senior managing director na prática de Turnaround & Restructuring da FTI Consulting. Com mais de 20 anos de experiência, atua em consultoria financeira, gestão interina, captação de recursos e assessoria em fusões e aquisições para empresas em processos de reestruturação e expansão em diferentes regiões da América Latina, incluindo Brasil, Argentina, Paraguai, Colômbia, Costa Rica, Chile e Panamá.


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