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Educação Financeira é a infraestrutura necessária para o novo ciclo de Bull Market

André Vasconcellos

Regulamento do Novo Mercado: B3 abre nova consulta pública
Imagem: Divulgação

Nenhuma economia prospera sem infraestrutura: são os recursos energéticos, logísticos e tecnológicos que, por exemplo, permitem a existência dos empreendedores e contribuem para a geração de emprego e renda. No caso do mercado financeiro, há um alicerce tão importante e necessário quanto as estradas e as linhas de transmissão de eletricidade: a educação financeira dos investidores.

O Brasil deve atribuir à formação de seus investidores a mesma importância que dá às rodovias e à energia se quiser potencializar a confiança e a liquidez no mercado, permitindo a formação de poupança e seu uso para financiar o nosso desenvolvimento socioeconômico.

Isso exige alinhar autoridades reguladoras, entidades responsáveis pela autorregulação e as companhias que captam recursos, sobretudo as small caps, a um novo contrato de transparência que facilite a comunicação ativa com o investidor pessoa física. Sem metas, métricas e salvaguardas para investidores e empresas, seguiremos “pregando para os convertidos”, sem atrair novos participantes ao mercado.

Nos últimos cinco anos, o número de investidores pessoas físicas na B3 mais que dobrou. No entanto, isso não favoreceu a diversidade do mercado. O volume de negociação segue concentrado em poucas companhias de grande porte. Das mais de 367 empresas listadas, cerca de 59 empresas concentram 80,18% do volume financeiro médio diário do mercado a vista neste ano de 2025 (R$ 18,18 bilhões/dia). Enquanto isso, o custo de observância ainda é elevado e a janela de aberturas de capital (em inglês, Initial Public Offerings – IPO) segue fechada desde 2021.

Esta é a maior "seca" de IPOs em quase três décadas, já que o momento atual supera o período entre 1995 e 1998, que até então era o mais longo sem novos IPOs, conforme dados da CVM. Esse desequilíbrio evidencia que o acesso ao mercado ainda é restrito e que não há uma cultura de investimento estabelecida em nosso país, mesmo com o Ibovespa, principal índice da B3, registrando, somente em 2025, 21 recordes históricos, chegando a ultrapassar a marca dos 164 mil pontos.

Infelizmente, nosso mercado de capitais só tende a crescer em momentos de euforia. Em economias maduras, boas teses empresariais encontram interessados, seja em momentos de expansão ou também de retração do Produto Interno Bruto (PIB). Democratizar o capital não é apenas atrair novos CPFs, mas garantir que o investidor compreenda riscos, acompanhe resultados e confie na governança das empresas listadas.

As novas companhias que chegarão ao mercado, especialmente as de menor capitalização, testarão a resiliência do sistema. Elas serão verdadeiros agentes de renovação e podem expandir o mercado desde que, independente da forma de acesso, não confundam “atalho societário” com “atalho de governança”.

O “IPO reverso”, por exemplo, é um procedimento legítimo, mas que requer vigilância. Por meio desses IPOs, uma companhia de capital fechado incorpora uma empresa já listada, alterando seu objeto social, sua razão social e seu código de negociação, de modo a abreviar o caminho para o pregão. Esse procedimento deve vir acompanhado de um compromisso objetivo de proteger o investidor minoritário e de consolidar a credibilidade da companhia, sem inibir o crescimento dos negócios.

Para que isso seja possível, o investidor deve ser capaz de compreender as oportunidades e os riscos que a ele se apresentam. A universalização da educação financeira precisa ser continuamente tratada como um programa de Estado, ou seja, como uma política pública permanente.

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Há várias décadas que o Brasil entendeu que a educação é um vetor de desenvolvimento e soberania. É imprescindível dar a mesma importância à alfabetização financeira. É preciso haver módulos obrigatórios desse assunto no ensino médio e no ensino superior, além de campanhas permanentes e digitais que ampliem a compreensão dos investimentos como instrumento de cidadania e de estabilidade financeira familiar.

É preciso incorporar conteúdo de finanças pessoais e investimentos no currículo escolar e universitário, bem como fortalecer campanhas coordenadas entre Ministério da Educação (MEC), Tesouro Nacional e B3, como a Olimpíada do Tesouro Direto de Educação Financeira (OLITEF). Essa iniciativa, por exemplo, tem, entre seus objetivos, o de ampliar os conhecimentos da população brasileira sobre os mecanismos de investimento em títulos públicos.

A criação de trilhas de aprendizado digitais e gratuitas, voltadas ao investidor iniciante, deveria ser acompanhada por sandboxes regulatórios, que estimulem práticas inovadoras de comunicação financeira, especialmente dedicadas ao público pessoa física.

Uma agenda prática para revitalizar o mercado de capitais brasileiro pode ser sintetizada em três pilares fundamentais. Além da alfabetização financeira, é preciso promover a liquidez inteligente como política de mercado e o custo de acesso como vetor de inclusão.

A liquidez deve ser promovida por meio de políticas de market making com metas explícitas de volume e spread, vinculando incentivos tarifários ao desempenho efetivo dos formadores de mercado. No campo da inclusão pela redução do custo de acesso, é essencial reduzir encargos de negociação para investidores de menor porte e estimular Exchange Traded Funds (ETFs) de base ampla com limites regulatórios de taxas, de modo a democratizar o acesso sem comprometer a sustentabilidade do sistema financeiro.

Nenhuma dessas medidas requer dinheiro público nem subsídios fiscais. Elas dependem apenas de coordenação institucional, contínua modernização regulatória e visão de longo prazo para consolidar um mercado mais inclusivo, eficiente, sustentável e competitivo.

O profissional de Relações com Investidores (RI) ocupa posição estratégica nesse novo ciclo. Mais do que comunicar resultados, é ele quem traduz a governança em credibilidade e reduz a assimetria informacional entre companhias e mercado.

Em tempos de volatilidade e transformação digital, o RI atua como guardião da narrativa corporativa, conectando estratégia, risco e transparência. Para as novas empresas listadas em bolsa, ele é o diferencial entre um projeto que inspira confiança e outro que desaparece nas estatísticas.

O Brasil deve aumentar a confiança em seu mercado de capitais por meio de medidas concretas. Educação, transparência e custo de observância são variáveis mensuráveis. No entanto, é a percepção de governança que transforma mercado em confiança e confiança em liquidez. E essa percepção só será ampla quando o investidor tiver acesso a conhecimento para interpretar as informações divulgadas e tomar decisões com a melhor racionalidade.


*André Vasconcellos é Diretor Estatutário de Estratégia, Planejamento e Relações com Investidores da Fictor Alimentos S.A. (B3: FICT3); membro de Conselho de Administração; membro-coordenador de Comitês de Auditoria Estatutário; e coordenador de pós-graduações em direito societário, governança corporativa e em mercado de capitais. As opiniões expressas são pessoais e não representam necessariamente a posição de companhias ou entidades.


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