Câmbio em 2026: entre a previsibilidade doméstica e a incerteza global
Alexandre Viotto
O ano de 2026 reúne todos os ingredientes para ser particularmente volátil no mercado de câmbio. Eleições no âmbito estadual e federal no Brasil, a realização da Copa do Mundo de futebol e um cenário internacional cada vez mais imprevisível formam um pano de fundo que exige cautela, leitura atenta dos sinais e, sobretudo, preparo por parte de empresas e investidores.
Considerando os últimos acontecimentos do ponto de vista político, se a direita brasileira conseguir capitalizar politicamente os episódios envolvendo o presidente venezuelano Nicolás Maduro, vinculando-os à imagem do presidente Lula, o cenário pode favorecer o avanço das candidaturas de oposição. Para o mercado, esse contexto tende a ser positivo para a moeda brasileira, diante da percepção favorável a uma possível alternância de poder em 2026.
No primeiro trimestre, o cenário tende a seguir um roteiro relativamente conhecido. No Brasil, o Banco Central deve iniciar, finalmente, o ciclo de queda da taxa básica de juros, com uma redução inicial estimada em 0,25 ponto percentual já na reunião de janeiro do Copom. Trata-se de um movimento amplamente esperado e que, por si só, não deve provocar grandes sobressaltos no mercado de câmbio.
Embora a redução da Selic diminua o diferencial de juros entre o Brasil e o exterior, essa diferença ainda permanece em patamar suficientemente elevado para não comprometer, ao menos em um primeiro momento, o fluxo de capital estrangeiro para o país. O investidor global continua encontrando no Brasil uma combinação atrativa de retorno e liquidez, especialmente quando comparada a outras economias emergentes.
O tema fiscal, como não poderia deixar de ser, seguirá no radar. Ainda assim, a tendência é que ele funcione mais como um elemento de monitoramento contínuo do que como um gatilho imediato para uma mudança brusca de humor ou de tendência no câmbio durante o início do ano.
É a partir da metade do próximo semestre que o ambiente começa a ficar mais nebuloso. Com a definição dos nomes que disputarão a Presidência da República, o mercado deve passar a reagir de forma mais intensa às pesquisas eleitorais. O histórico recente mostra que o câmbio brasileiro é particularmente sensível à percepção de risco político.

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Um cenário em que candidatos mais alinhados ao centro político apareçam como favoritos tende a enfraquecer o dólar frente ao real. O inverso também é verdadeiro. O fortalecimento do nome do atual presidente ou a confirmação de seu favoritismo pode contribuir para a desvalorização da moeda brasileira, especialmente se vier acompanhado de ruídos na comunicação econômica.
Nesse contexto, caberá ao governo um papel central: melhorar a sua comunicação e atuar de forma clara e consistente para demonstrar compromisso com o equilíbrio das contas públicas. Não se trata de uma exigência nova, mas de uma lição que o mercado já deixou clara em episódios não tão distantes da nossa história recente.
Se no front doméstico os riscos são relativamente conhecidos, a grande novidade de 2026 está no cenário externo. As incertezas devem se concentrar, de forma inédita, no que acontecerá fora do Brasil. Com a administração Trump envolvida na disputa pelas eleições de meio de mandato, torna-se extremamente difícil antecipar como serão conduzidas políticas sensíveis, como tarifas comerciais e outras medidas de viés protecionista.
Esse fator adiciona uma camada extra de complexidade à equação cambial. Os Estados Unidos, tradicionalmente vistos como um polo de estabilidade e previsibilidade, passam a representar a maior fonte de incerteza para os mercados globais. Mudanças abruptas de discurso ou de política econômica por parte da Casa Branca têm potencial para gerar movimentos rápidos e intensos no dólar, com impactos diretos sobre moedas emergentes, como o real.
Diante desse cenário, 2026 exigirá uma postura ainda mais estratégica de empresas e investidores. Mais do que tentar prever o próximo movimento do câmbio, será fundamental investir em gestão de risco, diversificação e planejamento financeiro. Em um ano marcado por eleições, eventos globais e decisões políticas de alto impacto, a previsibilidade será um ativo escasso — e valioso.
Alexandre Viotto, chefe de Banking da EQI Investimentos
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