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RJI tenta reposicionar seu papel no mercado, após crise com caso Infinity

Redação Capital Aberto

Mauro Mello, sócio-fundador da RJI Investimentos
Mauro Mello, sócio-fundador da RJI Investimentos

A RJI Investimentos é uma relevante administradora com mais de R$ 11 bilhões sob administração. Administra 67 fundos de investimento e 2 clubes. Desde sua fundação, em 2015, se especializou na administração de fundos com ativos estressados.

Essa característica fez com que a RJI passasse a ser associada a episódios ruidosos do mercado de fundos de investimento do Brasil ao longo da última década. O mais emblemático é, sem dúvida o colapso dos fundos ligados à antiga Infinity Asset Management.

Milhares de cotistas de fundos geridos pela Infinity Asset sofreram perdas que chegaram a 85% do capital investido. Carteiras vendidas como produtos de renda fixa conservadora apresentavam, na prática, exposição relevante a operações estruturadas complexas e sem liquidez.

Em 2020, a RJI assumiu os fundos como administradora fiduciária, com a função de fiscalizar, supervisionar e controlar a aderência dos fundos às políticas de investimento descritas nos regulamentos.

Ter assumido a administração dos fundos da Infinity após todos os problemas detectados não isentou a empresa de uma enxurrada de processos judiciais, que duram até hoje. Apesar do tom duro de algumas condenações, o cenário jurídico está longe de ser uniforme.

Até o momento, não constam penalidades e multas contra a RJI Investimentos. A empresa segue habilitada junto à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para o exercício das atividades de gestão e administração fiduciária

Em entrevista ao Além do Capital, Mauro Mello, sócio-fundador da RJI, falou sobre o atual status da administradora, as brigas jurídicas, a relação conflituosa com os cotistas dos fundos da Infinity e o atual cenário do mercado de capitais brasileiro.

Por que a RJI decidiu se especializar na administração de fundos de investimentos com ativos estressados?

Em 2015, estava se desenhando no mercado uma grande construção na área de administração fiduciária. Foi naquele momento que tivemos muitos fundos montados para não dar certo. Foi quando o (BNY) Mellon teve um problema e era o maior administrador da época.

Identificamos que poderia sobrar alguma coisa para trabalharmos e decidimos nos especializar em administrar problemas. Montamos a empresa em 31 de janeiro de 2015. Em dois anos a empresa estava completamente montada, com o mote de sermos administradores de fundos com problema.

O primeiro fundo que pegamos foi um FIP chamado LSH – fundo criado para financiar a construção e operação do hotel LSH Barra, ex-Trump Hotel – criado no tempo das Olimpíadas e da Copa do Mundo. Pegamos porque estava abandonado e era um grande desafio para nós.

Estamos lá há sete anos e é o fundo mais antigo que temos. O hotel está de pé e tem um administrador do negócio, uma empresa séria do sul do país.

Sempre com esse viés de fundos com ativos estressados?

Eu diria que em fundos que, muitas vezes, os ativos não existiam legalmente. Mas o foco maior foi sempre a administração de recursos. Você teve, nessa época que eu falei, gestores que passaram por problemas sérios, muitos fundos com problema de lastros de ativos, e isso é um trabalho enorme.

Foi o caso dos fundos da Infitiny que vocês assumiram em 2020? 

Eu tenho 77 anos e eu diria que nos últimos sete foram emocionantes. Tem sido emocionante até hoje. Quando você se desafia a fazer algo muitas vezes você paga um preço caríssimo por isso.

Pegamos o Infinity com o intuito de fazer um trabalho que achávamos que era só de continuidade. Em verdade, não era. Era um fundo que tinha ativos que nos desagradaram.

Tínhamos algumas opções de renunciar esses ativos, mas nem sempre você fica livre. A legislação é muito difícil. Quando você renuncia a administração ou a gestão você fica linkado até que apareça alguém para receber. É sempre uma confusão.

Nós descobrimos nesse fundo que os ativos que lastreavam as aplicações dos cotistas não tinham o que mais se precisa ter. Serem ativos críveis. Você pode ter um ou outro problema, mas, nesse caso, não foi assim.

Nesse caso, você tinha uma operação que tinha ativos de financiamento de opções da Bolsa e as garantias não eram aquelas que haviam sido mostradas a nós. Só tinha uma solução. Encerrar o fundo, no peito e na raça.

Imagina o preço que foi e está sendo. Preço duro. Porque tinha um dos cotistas, vamos chamar assim, importante, e que se rebelou. E aí você tem, no meio do caminho, os aproveitadores, que sempre existem.

Esse caso gerou grande repercussão e os desdobramentos permanecem até hoje. Qual o status atual?

Estamos nesse momento de tentar conciliar tudo isso, que eu chamo de conciliação. É trabalhar. Você tem, obviamente, o envolvimento da Justiça e os cotistas achando que têm direito. Eu também acharia.

Mas quando você vai ver profundamente como as coisas andam, o mercado de capitais, apesar de ser algo que já está aqui há muito tempo, com a interferência do Banco Central lá atrás, com a criação da CVM, você ainda não tem uma firmeza junto à Justiça e uma clareza do que é um administrador, do que é um gestor, do que é um cotista.

Eu já tomei a liberdade, não sei se não é comum, de falar com o juiz e explicar a ele que, primeiro, que eu não era bandido, que eu não era malfeitor, e que eu não era distribuidor, eu era apenas administrador.

Aí o cara me pergunta: mas o que é administrador? Aí começa a grande dificuldade que você tem para explicar, ainda mais com esses movimentos todos que nós estamos envolvidos.

O caso Infinity impactou os negócios da RJI?

Apesar de todas as confusões de Reag, Operação Carbono Oculto, Master, ainda tem gente acreditando. Acabei de marcar uma reunião para sexta-feira (17/04). Dois FDICs que querem trazer para estruturar.

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Quer dizer, já tem gente para estruturar, não está satisfeito com o administrador, veio fazer uma consulta para a gente. A gente, graças a Deus, tem consulta. Apesar ainda da quantidade de ações, por causa desse Infinity, apesar dos cotistas em si criticarem o que a gente fez, o que aconteceu é que ninguém teve peito para parar uma operação que hoje estaria um bilhão.

Mas se você perguntar, você está arrependido de ter feito? Não. Posso estar arrependido de não ter feito três meses antes. Não fiz porque não tinha certeza da avaliação que nós estávamos tendo, através das consultas, a bolsa, a todos que eu tinha que consultar, nós estamos certos, liquida, não faz mais a operação.

Nesse ponto de definir o que é o que, quem cuida do que, como você avalia a fala do ex-ministro Fernando Haddad de querer passar para o BC algumas responsabilidades de controle que hoje estão na CVM? 

Isso é uma falácia de quem não é o mercado. É algo retrógrado. Nós fomos muito assertivos quando criamos a CVM, porque o mercado de capitais brasileiro é tão importante, tão dinâmico, tão inovador, que permite até inovações para o mal.

Nós estamos passando um momento de grande comprovação, de falta de gente que conhece. Esse senhor o qual você se referiu, ele não conhece a história do mercado. Infelizmente, nós estamos carentes de quem conhece, num momento em que muitas sabedorias se calaram, se esconderam.

O Banco Central é para ver os normativos referentes as operações financeiras, a parte de liquidez do mercado, tratar da dívida pública brasileira. Não pode ser emissor, como era antigamente, um PAB (Posto de Atendimento Bancária), que nós corrigirmos.

Essa forma de pensar é retrógrada. Cada um deve ficar no seu quadrado. A CVM foi muito bem montada e teve um papel importante. Deu sorte de ter o primeiro presidente (Roberto Teixeira da Costa), um cara que está falando a realidade.

É isso que a gente precisa. No Brasil, a gente precisa de ter a determinação. E hoje nós não estamos tendo. Hoje, nós estamos querendo dar jeitinho. A CVM não tem que ter viés político. No Banco Central não pode ter política.

De alguma forma, esse tipo de discussão é uma ameaça para o mercado de capitais no Brasil? 

Eu acho que tem muita coisa para acontecer e estamos no limiar disso acontecer. Eu estou animado. Se formos ver o que nós tivemos através do mercado de capitais, foi uma evolução muito grande.

Você pode passar desde a privatização, pela abertura de capital em si, uma coisa sadia, saídas de financiamento para a empresa, mas beneficiando o acionista, com regras claras.

Mas hoje temos uma bolsa com 500 ativos. É triste. O pessoal lá fora está acreditando mais do que a gente. E não acho que seja um dinheiro só para o mercado, especulativo.

É um dinheiro que está vindo antecipadamente para ficar aqui e aproveitar as oportunidades que vão aparecer. E que já estão aparecendo. Apesar de todas as confusões, ainda tem gente acreditando.

Esses investidores estrangeiros que estão chegando já precificaram o cenário político de 2026?

É muito difícil fazer uma avaliação política, eu já errei algumas vezes. Na última errei gritantemente. Agora, uma coisa eu tenho certeza, se o Brasil não consertar dessa vez vai ficar mais difícil a minha geração ver o resultado de alguma mudança.

Mas existem alguns aspectos internos como inflação, juros, guerra que ainda merecem algum tipo de atenção dos investidores, não?

Eu acho que a inflação sobe com os efeitos sobre o petróleo. É o problema da geopolítica, que não é diferente para outros países do mundo, mas é um ano eleitoral para nós. O país está parado, ninguém faz nada.

A geopolítica é uma grande confusão, com os Estados Unidos querendo mandar em todo mundo. Esse cara (Donald Trump) é um louco, pode-se esperar de tudo, mas os Estados Unidos sempre viveram por meio de guerras, que movimenta a economia em termos de produção.

No caso dos juros em patamares elevados, hoje, tenho várias dúvidas em relação à eficácia de se manter uma taxa elevada para segurar a inflação.

Houve um período em que tínhamos a correção monetária, que ficou provado ter sido um retro alimentador do sistema. A gente não sofria o mal da inflação porque tinha correção monetária, que retroalimentava todo mundo.

No Brasil, se criou essa cultura de que os juros têm que estar nessa estratosfera para inibir a inflação. Só que você tem uns múltiplos que ficam completamente distorcidos. Por exemplo, são os juros da dívida pública.

O problema é que a gente se endivida para pagar a dívida e para cobrir o déficit. Se você se endividasse para incentivar a produção, olha quanto dinheiro você teria para produzir.

Entrando no tema de fundos, que é onde você atual, como você avalia o crescimento dos FIDCs depois da resolução 175 da CVM?

Ela foi muito bem desenhada para colocar alguma ordem em quem é quem, porque estava tudo em cima dos administradores. Para ser gestor você não precisa ser uma instituição financeira. Para ser um administrador, você hoje, forçadamente, tem que ser uma instituição financeira ou equiparada.

Se você tem uma instituição que não é financeira, você não tem as mesmas obrigações do que uma instituição financeira. A 175 foi bem desenhada, levou um tempão para ficar pronta e está 90% implantada e tem ajustes a serem feitos. Agora, você tem a dinâmica para fazer esses ajustes e implantar logo.

Eu acho que o crescimento dos FDICs é independente da resolução 175. Ela afeta, mas traz mais controle. Agora, vai depender de como você olha os FDICs. Eu acho que o crescimento é importante, porque é um instrumento de crédito, ele se aplica muito bem. Agora, tem que ter o cuidado de estar olhando. A 175 veio trazer essa atenção.


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