Em meio à onda de RJs, Funchal defende teses com foco no agronegócio
Redação Capital Aberto

Os sócios da Funchal Investimentos, Eça Correia e Olivier Colas, sempre tiveram como objetivo conectar dois setores pujantes da economia: agronegócio e o mercado de capitais. A meta sempre se mostrou bastante simples, conceber e estruturar produtos financeiros de longo prazo para o setor.
Nesse sentido, já desenvolveram dezenas de veículos para financiar empresas de todos os portes, incluindo na lista CRAs e Fiagros. Atualmente, a Funchal tem perto de R$ 2 bilhões em operações estruturadas.
Em 2022, Funchal e EQI anunciaram uma parceria e que Eça e Olivier passaram a ser co-heads da área de agronegócio. Quatro anos depois, os executivos começam a buscar novos horizontes no mercado, sempre com foco no agronegócio.
Nesta entrevista ao Além do Capital, Correia contou sobre a aquisição da Rosenberg Partners, antiga gestora de Renato Soriano, rebatizada como Buri, e as novas teses criadas para dois fundos em captação.
A aposta segue no agro, ainda mais em um momento em que as oportunidades se mostram bastante vantajosas em meio à enxurrada de pedidos de Recuperação Judicial no setor. “As operações de dívida que estamos fazendo hoje, por exemplo, estamos entrando com um índice de cobertura em garantia que eu consigo terra que vale três vezes o dinheiro investido. Há um ano e meio atrás, era uma vez e meia”, afirma Correia.

De onde surgiu a ideia de uma gestora com fundos dedicados ao agronegócio?
Eu e o Olivier sempre tivemos a ideia de ter uma gestora, mas as restrições dos contratos que a gente tinha acabaram por adiar esse plano. Ao longo da vida, fomos acessando muito passivo de varejo, que não é o passivo que a gente entende ser mais aderente ao tipo de produto estruturado que gostamos de fazer.
Nessa fase de transição de saída da EQI, em que acabamos fechando um acordo para continuar a parceria, mas sair de lá fisicamente, fechamos a compra da gestora do fundo de compensação ambiental que a gente fazia a consultoria, que era do Renato Soriano, a Rosenberg. Já fazíamos a gestão no dia a dia e acabamos comprando a gestora em si e renomeando para Buri.
Agora, estamos captando para duas teses, sempre no nosso viés de tentar captar para alguma coisa de nicho, que tenha um racional mais de longo prazo, uma coisa com ESG envolvido.
Invariavelmente vai ser um pouco mais difícil de captar, até por conta da especificidade do produto, mas a gente sabe que uma vez que você engaja o investidor, você de fato tem mais confiança na parceira de mais longo prazo.

E quando tudo isso aconteceu?
Isso aconteceu ao longo do ano passado, e começamos a captação no começo desse ano. Estamos, hoje, captando para dois fundos já na gestora nova. Mantivemos a Funchal que fica como um IB, uma mesa de estruturação de dívida e tudo mais, mas a gente acabou capacitando a equipe na gestora.
Trouxemos o Hugo Bittencourt, por exemplo, que era o CRO do Banco Alfa nos últimos sete anos e o Sidney [Helfstein] junto com ele, que era o cara de risco e crédito lá. Também trouxemos o Maurício [Kameyama], que já foi dono de securitizadora e de gestora para fazer toda a operacional, back-office e o Christian [Laloe], que é um cara que foi BTG em Londres para fazer a parte comercial. Éramos 5 pessoas tocando uma mesa e agora somos 12 pessoas tocando tanto produtos de asset quanto de dívida.

Que tipo de investidor vocês estão mirando, considerando que a atuação de vocês sempre foi nichada?
A ideia é crescer nesse formato de passivo institucional barra profissional. Nesse intervalo dos últimos 12 meses que a gente estava no processo administrativo e regulatório de montar a gestora, fizemos algumas operações de DCM, mas elas foram 100% feitas para family offices, que são os investidores da gestora.
Já calibramos, parametrizamos os produtos para esses clientes. Fizemos um CRA de R$ 100 milhões, que tem 3 investidores. Outro CRA de R$ 90 milhões, que tem 4 investidores. E por aí vai. Fizemos operações em que, na prática, são club deals para um perfil de investidor.
Mesmo tendo feito um CRA sem ser na nossa gestora, sem ser fundo nosso, fazemos relatórios bimestrais porque é um single family office. Estamos fazendo o que a gente chama de estruturação as-a-service para esse cara.
Então eu faço o trabalho para ele, ele não tem remuneração. Eu fui pago na operação e estou fazendo isso, na verdade, um piloto para a minha gestora.

Quais são as teses que vocês estão defendendo para os dois novos fundos que foram estruturados?
Agora estamos captando para duas teses bem específicas. Uma delas é de dívida vencida, de NPL no agro, com cheques pequenos. Estamos sendo muito demandado.
Tem Fiagro listado que procura a gente e fala ‘cara, estou executando uma dívida aqui de um produtor, compra essa garantia esse crédito, esse CRA que está aqui no meu fundo, porque senão eu vou ter problema com o meu investidor que é listado, reestrutura, leva e me dá uma liquidez’, então estamos fazendo isso.

Hoje em dia, no agronegócio, deve ter muita proposta nesse sentido.
Muito, muito, muito. Trouxemos gente, advogado para fazer isso, embarcamos tecnologia, só na parte legal e jurídica temos duas ferramentas para ter eficiência nesse processo. Nessa tese de NPL, já temos um book com R$ 90 milhões na cota sub-sênior. A Sênior está rendendo CDI mais 10% e estamos na sub a 30%.
Agora, estamos captando no outro veículo uma cota única, que foi uma provocação dos investidores, já que a cota sub de 30% mais a Sênior dão uma proteção, mas a maior proteção está na diversificação, no fato de ter muito ativo no mercado e, portanto, você poder peneirar escolher melhor e daí você não precisa ter tanta subordinação ou não ter nenhuma subordinação, porque basta você, sendo um gestor que sabe fazer o que está fazendo, escolher bem e dar o pedaço maior do ganho.
Então, essa foi a provocação dos investidores. Acabamos montando um veículo para fazer cota única. E esse veículo está com R$ 50 milhões garantidos já de investidores, chamada de capital. A gente vai, conforme aprova as operações em comitê, eu chamo dinheiro e invisto.

Você falou em duas teses. No que consiste a segunda?
A outra é uma tese de terra para conversão, muito ESG. Já temos pouco mais de R$ 200 milhões e já vai para R$ 500 milhões agora. Compramos pasto degradado para converter em lavoura, num viés de regeneração da terra e revendemos depois de um tempo.
Hoje tem muito produto no mercado que o cara compra terra com viés de private equit. Ele compra a terra para ficar às vezes 7, 8, 10 anos e obviamente depois desse período vai vender com lucro, com ganho de capital.
Emosntra numa tese um pouco diferente. Compramos áreas menores, perto de grandes produtores. Trabalhamos menos essa área, ou seja, destravamos o maior valor que ela tem no começo que é a conversão, a transformação de pasto degradado em lavoura e depois revende para esse cara que ainda vai ter que investir um pouco. Assim, damos a primeira pedalada para depois esse cara dar as outras.

Mesmo que a ideia seja destravar o potencial inicial da área, vocês precisam de alguém que conheça de práticas agrícolas para fazer a coisa rodar nesse primeiro momento, certo?
Há uns 10 anos, a Macquarie tinha aqui no Brasil um fundo de terra. Era um australiano e um brasileiro que tocavam isso. Trouxemos esses dois caras para serem consultores do nosso fundo. Tem um componente de estruturação, um componente de hedge da terra por causa da commodity e eles vão ajudar a originar e estruturar as áreas.

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Trouxemos também um produtor rural que tem 30 mil hectares próprios, que será o responsável por fazer toda a operação de conversão. Ele, inclusive, coloca no fundo para poder investir o dinheiro do fundo na conversão da terra. Ele é sócio do fundo.
Tem produtor que está enrolado e o cara tem lá uma terra, um pasto e ele não tem dinheiro para converter, mas tem um valor ali travado. Então ele aceita aportar a terra no fundo, recebe cota do fundo e gente trabalha a terra, investe na conversão. Esse cara vira um cotista e depois vendemos com lucro e ele leva um pedaço do lucro.

Mas esse produtor que aportou a terra no fundo e virou cotista tem o direito de recomprar essa área lá na frente?
Ele tem direito a recomprar, mas obviamente que lá na frente vai ser a valor de mercado, porque a ideia do fundo não é fazer dívida. Temos Fiagros listados que procuraram a gente também, porque o cara executou uma dívida que venceu e aí ganhou uma terra de presente.
Estamos comprando a fazenda, investindo para transformar. Esse fundo já nasceu grande e ele tende a ser muito escalável. Ele está com R$ 200 milhões, vai para R$ 500 milhões agora até o final do semestre e a ideia é chegar até uns R$ 3 bilhões.

Quem é o investidor que vocês buscam para esses fundos?
Ambos os fundos para profissionais, cetipados, com chamada de capital, sem muita volatilidade. No caso do fundo de terra, sempre olhando para ganho de capital. A carteira do fundo vai rodar a 30% ao ano, sendo 5% ao ano de taxa de gestão mais performance e 25% para o cotista. Desses 25%, eu vou ter uma cota sênior a CDI mais 4% e uma cota sub que vai receber o resto então metade.
Estamos rodando hoje com 40% de sub, que é o que está no regulamento. Quem entra na sênior a CDI mais 4%, que já é uma taxa boa, o cara tem a proteção de 40% da sub e a terra, porque, na verdade, o fundo é dono da terra. No limite, você liquida tudo, vende as terras e paga.
É um fundo que tem o viés de achar um investidor que quer ver uma operação de renda fixa na sênior, mas também pode achar um investidor que quer olhar para uma valorização brutal que pode acontecer na terra nos próximos anos.

E vocês enxergam que existe potencial de valorização dos preços da terra nos próximos anos?
Se eu olhar para o valor das terras hoje, os laudos que a gente faz, eles estão vindo com valores muito próximos de 3, 4 anos atrás. Ou seja, há 3, 4 anos estava caro? Pode ser. Agora está barato? Não sei, mas o fato é, soja é no patamar que está, dólar no patamar que está, guerra no Irã, fertilizante, o ponto de entrada para a compra de terra é interessante.
Além de todo esse cenário macro, existe um cenário mais local, que foi o cara que há 3, 5 anos atrás se alavancou, buscou investir, porque o preço estava uma coisa fora da realidade, deu um passo maior do que a perna, dado o número de RJs que tem aí, que não é segredo para ninguém.

Quem sem empolgou com a alta das commodities e apostou além da conta agora está sendo obrigado a dar um ou dois passos atrás ou mesmo ir para RJ para colocar a casa em ordem.
Esse cenário que você traçou, que eu chamo de banho de sangue das RJs no agro, ele não aconteceu só por conta do desejo, do apetite do produtor. Ele também aconteceu pela falta de critério na concessão de crédito do setor.
A gente passou por um momento de liquidez no mercado de crédito. Muito dinheiro, taxa de juros barata. Muitos Fiagros foram captados. E aí o produtor olhou e perguntou: o quê? Eu não vou pegar o dinheiro? Passa para cá.
Não temos nada contra Fiagro, quanto mais, melhor. Mas a gente fez um recorte e, se não me engano, 35% ou 40% dos Fiagros que tinham sido captados no mercado, Fiagros listados, não tinham ninguém de agro na equipe.
O agro é um mundo à parte. Muito específico. Se o produtor não pagou a parcela de maio, atrasou e vai pagar em julho, na cabeça do produtor ele está em dia. É uma lógica super natural, porque é assim que ele negocia com a revenda dele. Essa é uma lógica que muita gente daqui, do mercado financeiro, não entende.

Parte da Faria Lima errou na forma de entender o agro?
É a falta de pessoas com experiência. Eu não estou falando que precisa ser agrônomo. Eu até brinco, que se fosse a falta de agrônomo, a gente deveria colocar engenheiro civil para tocar FII. Não é isso que eu estou falando. O que eu estou falando é justamente o que você falou. falou, é o cara conhecer um pouco dos meandros.
O que está sendo bom é que está decantando e aí aproveitou o cenário externo, guerra e tudo mais, e já decanta tudo de uma vez. A chuva, a tempestade perfeita vem tudo de uma vez.
Estamos vendo muito caso de ativo estressado que procura a gente para estruturar junto e a gente pegar um pedaço do cheque. Eu acho que ainda vai mais um ano e meio de banho de sangue.

Por que tanto tempo assim, considerando que a safra vai bem e os preços não estão tão ruins??
Porque a taxa de juros não vai reduzir na velocidade que o produtor precisa e a gente está no meio de 2026, os caras que tomaram a grana nesse período de liquidez do mercado, tomaram entre 2021 e 2022, talvez 2023 um pouco, em operações de 4 a 5 anos.
Está tudo vencendo este ano e ano que vem. Numa taxa de juros que o cara não tem mais como pegar, com uma Selic num patamar que ele não aguenta e com uma alavancagem que ele não consegue entregar EBITDA para pagar nem o serviço da dívida atual, quanto mais a próxima, que vai ser mais cara.

Nesse cenário, quem está disposto a entrar é uma oportunidade enorme, não?
Infelizmente eu costumo dizer que quando o país vai bem a gente vai bem. Quando o país vai mal tem muita oportunidade. Eu não quero que o país vá mal, mas, de fato, o momento de entrada é agora.
As operações de dívida que a gente está fazendo hoje, por exemplo, estamos entrando com um índice de cobertura em garantia que eu consigo terra que vale três vezes o dinheiro investido. Há um ano e meio atrás, era uma vez e meia.
Quando o cara estava muito enrolado, 1,75. Então, hoje, o LTV (Low To Value), que é o índice de cobertura das garantias, está muito favorável para o investidor.
O DIP em RJ é melhor ainda, porque você é o primeiro da fila. Você já está comprando dívida com desconto e está tudo na mesa, o cara já não tem nada escondido. Infelizmente, quando está no caos, tem mais oportunidade do que quando não está E aí o nosso tipo de investidor acaba acessando algumas operações onde o ganho é bem expressivo.

E quanto de área o fundo deve comprar?
Quase 10 mil hectares Mato Grosso. Estamos começando ali porque é uma região que tem muita área degradada de pasto, mas temos áreas identificadas no Oeste da Bahia, Norte de Minas e no Pará. Mas optamos por começar por Mato Grosso porque a turma que a gente juntou é especialista ali. Mas, de repente, montar um outro fundo para a Bahia e outro para o Pará depois de comprovar a tese em Mato Grosso.
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