Mapfre Investimentos mira R$ 30 bi de AuM e grade de parceiros na previdência
Amanda Meneses

Oriunda de uma seguradora espanhola e quase 23 anos de história, a Mapfre Investimentos atingiu a marca de R$ 29 bilhões sobre AuM e almeja chegar a R$ 30 bilhões este ano. A casa, que possui longa relação com institucionais, já possui uma fatia maior de recursos de terceiros do que de capital próprio e pretende ampliar a frente de previdência fornecendo serviços a grandes casas do mercado.
“Já temos duas entidades de previdência que contam com produtos Mapfre e pretendemos expandir essa grade nesses parceiros. Pode ser tanto na XP, no BTG, como em outros. Fato é que temos cinco produtos de previdência prontos para isso”, conta Carlos Eduardo Eichhorh, diretor de gestão de recursos da Mapfre Investimentos.
Na entrevista ao Além do Capital, o executivo recapitula a história da asset e conta sobre os planos da casa, que incluem o lançamento do fundo Confianza Plus, em treck recorde há um ano. Acompanhe:

Primeiro, a Mapfre Investimentos faz parte do grupo Mapfre, com atuação global. Como está dividido o grupo e a atuação da asset brasileira?
O resultado da Mapfre Investimentos é super importante para o resultado global da empresa. No Brasil, temos 5 milhões clientes, quase 3 mil colaboradores, e muitos parceiros e sucursais da empresa por todo o país. Falando de asset, estamos no mundo inteiro. Nas principais regiões da América Latina, é o único centro de gestão de recursos com asset.
Tem lugares com departamentos financeiros, mas aqui é o único país, fora a Espanha, que tem, de fato, uma asset. Nos Estados Unidos, temos a Boyer Valley, um acordo em que a Mapfre distribui os produtos da Boyer Valley na Europa e ela utiliza alguns veículos da Mapfre nos EUA. E na Espanha, tem o grande centro de gestão, que faz a gestão de toda a carteira da Europa.
Na Europa e na França, a Mapfre comprou uma asset especializada em ESG, “La financiera responsable”, que não é novidade, existe há bastante tempo, e trouxe equipes e processos especializados em análise e gestão de produtos ou ativos ESG. Essa é a grande cara das empresas de gestão de recursos da Mapfre no mundo.

Quais os desafios na trajetória da Mapfre Investimentos? Como oriunda de um grupo estrangeiro, quais as dificuldades que viram no Brasil?
Desses 23 anos, estou aqui os 23. A empresa abriu em abril de 2003 e eu entrei em 19 de maio de 2003. É um histórico de bastantes desafios que vimos ao longo do tempo. Porque é diferente ter uma gestora de recursos em um grupo, por exemplo, bancário, que tem um canal de distribuição. Quando abrimos a gestora, não tínhamos canal de distribuição.
Naquela época não existiam plataformas. Começamos fazendo distribuição direta, captação direta. A gente tinha, na época, uma distribuidora de títulos e valores mobiliários (DTVM), que hoje não é mais, em 2015 transformamos numa gestora limitada. Se a gente não tem canal, a gente tem que desenvolver o nosso próprio canal de distribuição.
E esse crescimento durante esse período foi bastante difícil, porque essa captação foi lenta ao longo dos anos. Para atingir um nível de maturidade, demorou um certo tempo. Num certo momento de mercado, apareceram os alocadores. E eles acabaram virando o primeiro canal de distribuição, porque eles tinham os clientes, normalmente de alta renda, com ticket elevado, porque ninguém se atreve a tirar o cliente do banco para alocar R$ 10 mil.
Foi ali o primeiro canal de distribuição que entendemos estar surgindo, e nos ajudou em uma fase de crescimento, ali entre 2010 e 2015. Hoje, se você for no corretor de seguro ele tem investimento, e tem as plataformas. Acho que a nossa trajetória de crescimento veio com essa evolução de mercado.

E como foi a evolução da asset em relação à prateleira de produtos e novas áreas?
Como toda asset no Brasil, nossos primeiros produtos foram renda fixa. Nosso primeiro fundo de gestão de recursos de terceiros foi o fundo renda fixa para o segmento de previdência, lançado em 2004. Para se ter ideia, ele existe até hoje. A renda fixa no Brasil é dominante até hoje na preferência da alocação do cliente. Fomos oferecendo, ao longo do tempo, produtos que os clientes demandam. Depois, surgiu o multimercado aberto, que é uma inversão. Foi o primeiro fundo aberto que a gente lançou.
Depois lançamos um renda fixa aberto, Mapfre Renda Fixa, de 2007, que existe até hoje. Ele, inclusive, foi uma das estrelas do ano de 2023, quando teve o problema de Americanas, grande parte dos fundos renda fixa de mercado tinham alocação em crédito privado corporativo. Ele se destacou muito positivamente porque, além de não ter os créditos corporativos, a gente tinha esse fundo de gestão ativa, estava pré-fixado e ganhou muito dinheiro naquele ano.
Um dos últimos produtos que a gente lançou foi o Mapfre cambial, em 2015. Depois vieram os dois de crédito bancário, Confianza e Confianza Plus. Como eles surgiram? O pessoal olhava para a carteira de crédito do renda fixa e falava: vocês fazem uma gestão tão boa de crédito bancário, por que não abrem uma carteira só de bancários com essa estratégia segregada?
Muitos assessores foram pedindo isso. Em julho de 2023, abrimos esse primeiro Confiança, que ficou um ano fazendo track record só com seed money da casa, e abrimos comercialmente em 2024, quando colocamos nas plataformas. De 2024 até hoje, ele bateu R$ 12 bi. Agora temos o Confiança Plus, aberto ano passado, mas ainda não lançado, em fase de seed Money.
A gente encontrou o bancário como uma alternativa que tem um prêmio, mas com a vol menor, porque tem muito fundo de crédito convencional, de debêntures, em que a vol é muito alta, dá um retorno maior, mas tem mês que tem downgrade de rating das empresas e tudo mais, aquelas chacoalhadas e esse cliente aqui, de fundo de zero, não gosta disso. Ele gosta de previsibilidade. Lógico, não estamos imunes a choques, mas esse tipo de produto tem a característica de oscilar menos.
Lançamos conforme o cliente vai demandando. E assim foi surgindo a demanda dos fundos de ações, ações small também, porque ele tem um prêmio de risco sobre o segmento tradicional. O cambial surgiu com uma demanda de clientes que gostariam de fazer hedge com custo baixo, 0,17 de taxa de administração. Toda essa prateleira surgiu de acordo com a demanda específica de cada momento, não necessariamente essa demanda desaparece, e aí a gente mantém o produto.

E como estão os resultados da casa e a divisão dos recursos?
Aqui no Brasil, acabamos de atingir R$ 29 bilhões sob gestão no fechamento de fevereiro. Atingimos R$ 29 bi nos fundos em que sempre tivemos experiência em fazer a gestão. Na linha do tempo de criação da gestora, faremos 23 anos agora em abril de 2026, temos diversos destaques, sendo o último justamente o ranking de gestão de crédito pela Moody’s, em que fomos top 1 em 2025 e 2026, na gestão do crédito privado. Aqui, temos o rating máximo de qualidade de gestão da Moody’s. Isso está em reavaliação, que é anual.
Na divisão dos recursos sob gestão, fundos abertos e institucionais deve somar agora cerca de R$ 17,7 bi, o que já é bem maior do que os recursos próprios, os recursos da própria seguradora e da nossa entidade de previdência, que somam R$ 11 bi, em contas rápidas.
O total de recursos de terceiros já superou o total gerido das próprias reservas. E isso é muito bom. Significa que estamos conseguindo crescer não só pelo segmento da própria empresa, das reservas, mas também trazendo recursos de fora.
Se você notar, basicamente 54% do total sob gestão está em crédito privado, mas esse crédito privado não é crédito debênture, é crédito bancário. De debêntures, deve ter algo entre R$ 50 e R$ 70 milhões. É um número bem baixinho em comparação com o montante bancário. Nesses bancários, é bom lembrar, são todos os bancos de primeira linha com rating acima de duplo A. Operamos num nível de rating super elevado. Não temos a intenção de fazer portfólios de high yield, de crédito de alto risco, alto rendimento.

Qual é o papel da Mapfre Investimentos dentro do grupo Mapfre e como a gestão de recursos se diferencia no Brasil?
No fechamento de 2025 de resultados da Mapfre, do grupo como um todo, não apenas as assets, tivemos 1 bi de lucro em euros anual, receita de 34,5 bi de euros em 2025. Aqui no Brasil, representamos 25% do resultado global, de 1,78 bi. Isso significa 73% do resultado da América Latina.

PUBLICIDADE
Mais do que o resultado em si, de lucro e contribuição financeira para a empresa, a nossa maior atribuição é fazer a gestão dos recursos próprios de forma a garantir os resultados do grupo. Crescer é importante, temos metas globais de crescimento de recursos de terceiros, mas esse resultado da asset acaba sendo pequeno perto da contribuição do resultado financeiro que damos para a empresa, que é a gestão.
O resultado financeiro dessa estratégia é inteiro do grupo. É uma responsabilidade enorme se olharmos por esse prisma da nossa importância, porque boa parte do resultado do agregado de uma operação de seguros, hoje, vem do lado financeiro. O resultado técnico, baixa sinistralidade, ter uma boa gestão do prêmio, da subscrição, mas apresentar um resultado financeiro suficiente ou que supere essa meta para poder suportar oscilações no mercado de seguros.
Na questão da sinistralidade, por exemplo, em um ano de muita sinistralidade no agro ou em outros segmentos, o resultado financeiro complementar ajuda a amortecer essa sinistralidade maior. Então é fundamental o resultado financeiro da asset, não só da brasileira, mas da asset da Espanha também.

Como uma casa oriunda de uma seguradora, com histórico em atender institucionais, como é a relação de vocês com esse público? Possuem uma área com foco neles?
Para se ter ideia, temos clientes do segmento previdenciário de outras empresas do mercado. Por exemplo, temos fundos da XP Previdência, da BTG Previdência, dos quais fazemos a gestão. Depois do sucesso grande dos fundos abertos, tivemos autorização do Grupo Mapfre para oferecer esses produtos para outras empresas de previdência. Normal.
Por exemplo, o modelo da Icatu é abertão, tem uma diversidade de gestores lá dentro e dentro de um grupo que tinha uma asset. Algumas empresas de previdência foram pioneiras nesse modelo mais aberto e outras mantiveram um modelo mais fechado, a Mapfre previdência mesmo tem a Mapfre Investimentos, BTG Asset, BNP Asset, ASA Investimentos como gestor.
A própria Mapfre Previdência tem essa plataforma aberta, de oferecer produtos de outros gestores para os clientes. Assim como oferecemos para outras casas. Nessa parte de previdência, acho que estamos super bem encaminhados.
Em institucional, atendemos diretamente os fundos de pensão. Quando temos cotação, por exemplo, ou quando o fundo de pensão é público, participamos da licitação. E tem também os fundos de pensão privados, que normalmente têm um critério próprio, não precisa de licitação. É um segmento muito bacana, não podemos revelar nomes aqui, mas tem grandes clientes alocados há mais de 10 anos com a gente. Nesse segmento de fundo de pensão, só trabalhamos diretamente quando o fundo nos procura ou nós procuramos.

Em um mercado marcado por volatilidade e incertezas macro, como vocês têm ajustado a proposição de valor aos clientes? A que devem o resultado dessa captação de R$ 7 bi?
Fazemos uma gestão bastante ativa, principalmente nesses produtos que mais captaram, que tem um volume maior. E sempre entramos em momentos e operações que tenham assimetria positiva. Quando estou vendo uma oportunidade de mercado uma possibilidade de ganhar maior do que aquela de ter um drawdown por um momento de mercado ou por uma volatilidade. Em 2025, principalmente na parte de renda fixa, houve momentos de rápido avanço.
Em dezembro de 2024 o mercado estava super estressado, dólar a R$ 6,30, juros a 16%, então montamos algumas posições pré-fixadas e conseguimos capturar esse movimento na renda fixa até março de 2025. Quando deu março, realizamos o lucro de todas essas operações direcionais, juros real e pré-fixados, e ficamos mais em operações de arbitragem, ao longo do resto do ano. Essas operações servem para qualquer cenário.
Na verdade, você opera uma arbitragem estatística. Você identifica operações que têm um histórico de variação. Não necessariamente isso acontece por um estresse de mercado, pode ter outras questões que influenciam esses movimentos estatísticos, e se houver um momento de volatilidade e você estiver na posição correta, acaba ganhando dinheiro.
Isso ajudou muito, porque foi um cenário de bastante incerteza em que a gente conseguiu ganhar dinheiro no direcional até março e depois foi conseguindo esse alfa adicional ao longo do ano, aos poucinhos, e que trouxe uma rentabilidade complementar.
Além disso, na renda variável, mantivemos alocação na nossa posição máxima ao longo de todo o ano e, obviamente, os multimercados e os fundos de ações tiveram aquele ótimo retorno até agora.
E no crédito, gestão ativa o tempo todo. Procurar ficar bem ativo no mercado secundário para capturar vendas com ganho e novas compras com um yield melhor.

Há uma constante mudança no mercado, como ascensão de FIDCs, novas regulações e a Inteligência Artificial. Vocês identificam alguma tendência estrutural no mercado brasileiro que possa redefinir a forma como vocês alocam capital?
Vimos que o mercado de alocação em créditos bancários tem um diferencial entre a alocação direta de pessoa física e a por fundos. Todos esses eventos que acompanhamos de mercado, crise do Master, dois, três bancos indo junto, etc, deixou claro para o investidor que não é um investimento sem risco. Ele recebe aquele recurso que é garantido, mas dependendo do momento em que está alocando, ele pode ficar sem liquidez ou demorar para receber aquele recurso. E isso valoriza a gestão profissional de recursos.
Por exemplo, nos nossos fundos, ao longo de todo esse tempo, nunca alocamos nos três emissores que estavam entre os problemáticos. Enquanto se olharmos a carteira de pessoa física, tinha quase 2 milhões de clientes com aquele ativo. Ou seja, a alocação profissional não fez a alocação por indicação, contando com a garantia do FGC.
Acredito que isso acaba servindo como aprendizado de que a gestão profissional tem valor. A liquidez no fundo é D0, se o cliente não ficou feliz ou está com algum receio, ele pede resgate 9 horas da manhã, dependendo do dinheiro da plataforma, às 9h05 está na conta dele. Isso tem valor, e os clientes chegam a perceber.

Tem novas teses ou áreas no radar da casa? A que prazo?
Nos fundos abertos, o próximo lançamento é o Confiança Plus, ainda não lançado. O foco estará nele, porque ele é o Confiança com um pouco mais de risco de concentração de emissores e um pouco menos de caixa. Vamos trabalhar entre 10% e 15% de caixa, e o fundo será adequado. O resultado líquido disso é que pretendemos ter um pouco mais de rentabilidade. O Confiança está trabalhando de 103 e 105, esse fundo vai trabalhar ali de 107 e 110. Ele precisa ser desenhado de uma forma um pouco diferente. Também foi demanda dos assessores.
E a outra frente é justamente a previdência. Já temos duas entidades de previdência que já contam com produtos Mapfre e pretendemos expandir essa grade nesses parceiros. Pode ser tanto na XP, no BTG, como em outros. Fato é que a gente tem cinco produtos de previdência prontos para isso. Normalmente eles estão usando só o espelho do que é o fundo “Confiança” de previdência.
A previdência já tem o Confiança antes do confiança existir, porque o portfólio é parecido e já existia na prévia, fundo Mapfre estratégia DI. A maioria das entidades de previdência estão ainda só buscando estratégia DI, e a nossa estratégia é expandir outros produtos com um pouquinho mais de risco para essas plataformas também. Lógico, isso depende de muita negociação, e demanda também.

E quais as metas da Mapfre? Estão otimistas para o ano?
Falando de metas, pretendemos atingir R$ 30 bilhões. Já andamos rápido, porque começamos o ano com R$ 26,5 bi e já estamos com R$ 28,8 bi, praticamente R$ 29 bi. A intenção é alcançar R$ 30 bi até o final do ano. Esse é o primeiro ponto.
Em relação às estratégias, como em todo ano de alta volatilidade, é trabalhar com gestão cautelosa, procurar fazer hedge de algumas posições que consideramos em alguns fatores de risco para minimizar efeitos de volatilidade, hoje são dois, antes era só eleitoral, agora tem o geopolítico e eleitoral.
Procurar não trair a questão da preservação de capital, parte integrante do nosso DNA, não achar que está com a vida ganha, e saber trabalhar com stop loss, encontrar as operações com assimetria de risco e retorno, para entregar o melhor resultado para o cliente.
Leia também: Da renda variável à infraestrutura, 4UM chega a R$ 9 bi sob gestão e cria área para FIDC
