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Tera Capital reforça presença global, avalia aquisições e projeta R$ 40 bilhões sob gestão até 2030

Jiane Carvalho

Fábio Vidigal, CEO da Tera Capital

Prestes a completar uma década atendendo famílias no universo Ultra High e com R$ 15 bilhões sob gestão, a Tera Capital tem se consolidado como um Multi Family Office (MFO) de alta seletividade nas famílias que atende e na oferta de soluções customizadas para a perpetuação do patrimônio. Sem abandonar seu público-alvo - famílias com mais de US$ 50 milhões de patrimônio líquido - a Tera tem planos ousados de chegar a R$ 40 bilhões sob gestão até 2030. Sem deixar o cliente local, o MFO tem reforçado sua presença internacional, atento a parcerias e famílias de outros países da região. “Ter presença internacional não só melhora o que já está andando bem como abre outras oportunidades”, comenta o CEO Fábio Vidigal, ao comentar o reforço da presença nos Estados Unidos. Na entrevista ao Além do Capital, o executivo contou um pouco da história da Tera Capital, dos planos de crescimento, que pode incluir aquisições, e do braço de “Investment Office”, voltada ao apoio estratégico de CIOs de outros Single Family Offices. Acompanhe:

A Tera Capital trabalha há 10 anos atendendo famílias com soluções que vão de
asset allocation a wealth planning. Este modelo vem desde sua criação ou foi
evoluindo ao longo da década?

Até 2021, o modelo era outro. Éramos mais uma tesouraria. A casa nasceu em 2015 para organizar o patrimônio dos fundadores do Pátria. Apesar da origem, a Tera é uma empresa totalmente independente, sem ligação com o Pátria. A partir de 2017, a Tera começa a atrair outras famílias, mas ainda com uma função de organizar a relação com outras casas, bancos, do que realmente uma atuação estruturada, com uma visão de patrimônio dos clientes. A partir de 2020, isto começa a mudar. Eu chego à Tera em 2021 e, desde então, a casa trabalha como um endowment, tendo uma visão realmente de longo prazo e global.

Qual o cliente foco da Tera e quanto dos recursos geridos estão em outros países?

Nosso foco são grandes empresários que têm um tamanho mínimo de US$ 50 milhões de patrimônio líquido, sem contar propriedades, empresas. O Brasil representa 1,8% do PIB global. A proposta é trazer um equilíbrio na exposição das famílias atendidas. Buscamos inseri-los em ativos globais. Temos um componente internacional bastante grande. São R$ 15 bilhões sob gestão e boa parte dos recursos está em ativos no exterior, quase 90%.  Nada contra o Brasil, mas este movimento de internacionalização é importante. Este percentual (de investimento no exterior) era de 50% há três, quatro anos, e registrou um salto importante. Não é um movimento que se faz da noite para o dia, mas fomos bem ágeis. São famílias que já estão bastante expostas ao Brasil, têm empresas, patrimônio imobilizado aqui. Faz sentido destinar os recursos líquidos, uma boa parte, a ativos no exterior. A gente perpetua o patrimônio, multigerações, em moeda forte. Quando a família entende isto, que o ativo financeiro é uma parte relativamente pequena, em muitos casos, do patrimônio total que já está no Brasil, fica mais fácil avançar na internacionalização.

Fatores estruturais ou mesmo regulatórios colaboraram para esta maior exposição dos
clientes da Tera ao mercado externo? 

Se voltasse 20 anos, para muitos, fazia sentido ter todo o patrimônio no Brasil, sendo uma família já bastante rica. Não era uma preocupação, CDI sempre alto, ou simplesmente o regulatório era muito complexo para investir no exterior. Hoje, o conjunto do arcabouço regulatório permite que o brasileiro invista no exterior com alguma segurança jurídica. No passado, toda a legislação era feita para segurar capital aqui dentro por conta dos problemas históricos de balanço de pagamento. Mas isso já não é mais válido. Tem uma parte estrutural regulatória que permitiu a mudança. Outro fator é que o investidor avaliava muito mal o risco de não ter a diversificação internacional. É a parte conjuntural, também importante. A gente vem de 15 anos de retornos muito ruins, e riscos muito exacerbados, com uma volatilidade grande. Se você olhar o Brasil em dólar, a gente está com 15 anos de underperformance, o Ibovespa em dólar não sai do lugar, tem uma destruição de riqueza em dólar e euro muito grande. As pessoas começaram a acordar há dois, três anos, para esta realidade. Além disso, tivemos a reforma tributária, o fim dos fundos exclusivos aqui.

Qual o efeito da tributação dos fundos exclusivos na carteira dos clientes?

A mudança na forma de tributar foi no fim de 2023 e, nestes dois anos, houve um movimento muito acelerado de saída de capital e até de famílias do Brasil. Acho que era o esperado. Vou fazer uma comparação concreta numa classe de ativo que era super relevante. No Brasil, tínhamos um histórico de gestão ativa, nos fundos multimercado. Mais ou menos um terço do passivo de multimercado vinha de fundos exclusivos. A família montava um fundo exclusivo (MM) e ficava confortável, conhecia o gestor. A tributação era de 15% a ser incidente no resgate daquele fundo. Se este investidor tivesse uma PIC (Private Investment Company) no exterior para fazer a mesma coisa com gestores nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Suíça, pagaria a alíquota marginal do imposto, 27,5% dentro daquele PIC. São 12,5 pontos a mais de tributação, favorecendo a manutenção do dinheiro aqui. Isto acabou. Inverteu o incentivo tributário. Hoje em dia, paga-se menos para investir no gestor externo do que no interno. Tudo isto ajuda na migração dos recursos para outros países.

Como as diferentes áreas da Tera atuam conjuntamente na montagem de estratégias de
perpetuação do patrimônio?

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Da parte líquida, acompanhamos o cliente conforme a necessidade de cada família, o que varia bastante de família para família. Mas o nosso principal objetivo é andar de mãos dadas com o cliente, do dia em que ele coloca o pé aqui até o final, não é um trabalho por projeto. Se você for, por exemplo, num wealth planning de banco, eles vão te auxiliar em algumas demandas. Temos por prática somar as áreas, atuar de forma sincronizada, desde que o cliente chega, falando em asset allocation, e olhando a parte do patrimônio que não é líquida. Tem um trabalho feito com o time de relacionamento que faz um diagnóstico das necessidades da família, olhando para temas como planejamento sucessório, fiscal e de forma a complementar o que ele já tem.  Alguns clientes chegam conhecendo suas necessidades, outros não. Nosso trabalho, como conselheiro de confiança da família, o trusted advisor, é ter esta visão holística. Para montar um asset allocation precisamos perguntar quanto ele quer ganhar, muito, pouco, e quanto ele tolera perder. É um diagnóstico inicial que precisa ser feito.

Em outras classes de clientes, mesmo de alta renda, nos privates de bancos, a
tolerância a perdas é pequena, e, em momentos mais tensos, o efeito manada ocorre.
Como o público que a Tera atende se comporta em momentos de estresse? 

Varia de família para família. Tem relatos de famílias que, em situações de estresse, entram em pânico. Outras toleram mais. Parte desse trabalho de mapeamento e levantamento é importante. Entender logo no início o quanto ele tolera perder. A gente enfatiza muito que estamos criando um portfólio e que usamos a métrica do drawdown. A pergunta para o cliente é se ele, por exemplo, perderia 30% do seu patrimônio. Se soa bem, se vai dormir tranquilo. Porque esperamos que não aconteça, mas se ocorrer, ele precisa ter em mente o risco. Deixamos os números muito claros no começo da conversa. Outro debate importante é se a perda é permanente ou se, em uma visão de prazo mais longo, a queda vai se recuperar. Dos nossos clientes, globalmente, mais ou menos 60% está em Equities, entre público e privado. Dos 40% que sobram, mais ou menos 10% commodities, 10% hedge funds, 20% cash e bonds.

Além do atendimento às famílias, a Tera também tem um braço voltado a Single Family.
Qual é a proposta? 

É o nosso “Investment Office”, voltada ao apoio estratégico de CIOs de outros Single Family Offices. Nosso maior esforço é voltado para famílias, mas acreditamos muito no potencial do Investment office. Temos um bom histórico, de um trabalho super sofisticado no atendimento e montagem de estratégias. Estamos integrados nesse ecossistema de grandes gestores no mundo inteiro. Alguns single family offices que existem no mercado estão em nosso horizonte. Eles, às vezes, têm estrutura de investimento, mas não têm tanta sofisticação ou expertise em certas capacidades. Só em private equity no exterior, temos US$ 600 milhões alocados e muita expertise. Trabalhamos muito com head funds globais e são mais de US$ 200 milhões investidos. Tudo isto nos dá fluidez nas conversas e discussões com esse universo que alguns singles não têm. Nós os convidamos (single) para serem nossos clientes, aproveitando-se da expertise da Tera. É um trabalho, de atender os singles Family, iniciado em 2021. Podemos ajudá-los de forma complementar em suas estratégias.

A Tera tem uma presença local, nos Estados Unidos, e tem reforçado a equipe. Qual
a importância de ter um escritório em outro país?

Nós começamos em 2023 no exterior e temos uma equipe local, falando com gestores locais, o que faz a diferença. Ajuda na conexão com o mercado global, na diligência, prospecção de gestores. É um papel extremamente importante, tocado por um profissional muito experiente, o André Penalva, com mais de 30 anos de mercado. É  muito importante essa conexão da Tera com o mercado internacional. Outro papel importantíssimo é pensar no crescimento da Tera, do ponto de vista internacional. Hoje em dia, as famílias que atendemos são de origem brasileira. E quando você olha para o mercado, tem uma oportunidade muito grande de expansão para outros mercados, no começo, sul-americanos, depois latino-americanos. Estamos falando de Chile, de Colômbia, de Peru e de Uruguai também. As famílias dessas geografias têm uma demanda tremenda, exatamente pelos serviços que a gente presta. E várias dessas famílias são super mal atendidas, porque, no final das contas, elas procuram quem faça a alocação de portfólio, mas fica faltando um monte de outros serviços que a Tera consegue prover. Tem esse ângulo de crescimento com famílias que estão na América Latina, fora do Brasil, além de conexão com outras casas com o mesmo tipo de mindset. Ter presença internacional não só melhora o que já está andando bem, como abre outras oportunidades.

A casa tem um plano de atingir R$ 40 bilhões de recursos sob gestão até 2030.
Parece bem ousado. Como chegar lá?

O caminho que vamos percorrer é sem reduzir ou alterar o público que atendemos. Não queremos colocar um monte de clientes para dentro. Vamos permanecer com clientes que tenham a partir de US$ 50 milhões. Vamos crescer neste universo e via aquisição. Esta agenda (aquisição) está se aprofundando. Estamos sempre olhando o mercado, entendendo a melhor forma de crescer, inclusive inorganicamente. O Brasil é o maior mercado da América Latina. A gente quer ter uma posição regional relevante, temos muito para crescer ainda no Brasil, organicamente. Eu acho que tem casas interessantes para a gente avaliar no Brasil, sim. Mas não temos pressa. A gente vai fazer esse trabalho de uma forma organizada. E podemos olhar um player regional, casas específicas que estamos acompanhando, conhecendo e que podem resultar em aquisição, ou para prestarmos um serviço como investment office. Em 2022, tínhamos R$ 6,5 bilhões, volume que saltou para os R$ 15 bilhões atuais. Mantido o ritmo, contando com crescimento do patrimônio, novas captações, a meta de R$ 40 bi é viável.


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