Boutique de M&A 44 Capital prepara esteira de dívida e assessoria para IPOs em 2026
Redação Capital Aberto

Foco em transformar o relacionamento de longo prazo com as empresas em mandatos de M&A. Foi esta a aposta feita há 10 anos por Guilherme Steagall, ex-VP do Morgan Stanley em Nova Iorque e São Paulo, para criar a 44 Capital. Com “orgulho de ser pequena”, a boutique de fusões e aquisições, já realizou mais de 50 transações movimentando US$ 10 bilhões, sem perder o foco no atendimento próximo ao empresário. “Temos muito orgulho de ser pequenos, porque a gente acredita que assim podemos oferecer um serviço diferenciado para os clientes. As transações têm sempre a presença de um dos sócios”, comenta Steagall. Só nos últimos quatro anos, foram 30 transações, 80% delas no exterior. “A gente fez, do México para baixo, praticamente todos os países, exceto aqueles que não tiveram transações, como Venezuela, Argentina. Isto nos deu uma experiência internacional bastante interessante”, comenta Steagall. Na entrevista ao Além do Capital, o executivo falou dos planos para 2026, que incluem uma esteira de dívida privada e outra de assessoria para IPOs. Acompanhe:

Como você define a 44 Capital e qual a origem das transações que passam pela
assessoria da casa?
Sou fundador da 44 Capital, uma boutique de M&A, embora eu não goste muito do termo boutique, mas é como o mercado define. Nós somos pequenos e temos muito orgulho de ser pequenos, porque a gente acredita que assim podemos oferecer um serviço diferenciado para os clientes. As transações, diferentemente de outros lugares, têm sempre a presença de um dos sócios. Nos últimos quatro anos, fizemos 30 transações. Nessas 30 transações, eu diria que 80% vieram de fora do Brasil. A gente fez do México para baixo praticamente todos os países, exceto aqueles que não tiveram transações, como Venezuela, Argentina. Isto nos deu uma experiência internacional bastante interessante.

Esta experiência com empresas e investidores internacionais, atuando em M&A,
difere do que vocês encontram no Brasil?
Na verdade, te digo que os empresários latino-americanos são muito parecidos com os empresários brasileiros. O empresário brasileiro é desconfiado. A gente chegou à conclusão de que atender empresários brasileiros e latino-americanos não é tão diferente assim. Todos muito sistemáticos, desconfiados. Todos são apegados. Nenhum deles é vendedor natural de nada, eles gostam de ter por que ter, no Brasil, é sinônimo de poder. No Sul, fizemos a venda de uma empresa de proteína animal, a Frango Sul, que era de dois sócios, duas famílias, que praticamente eram donos da cidade, empregavam todo mundo. Era um dinheiro muito bom, mas não foi fácil para eles se desfazerem da empresa. Acho que o empresário associa “ter a poder” e não “ser rico a ter poder”. É algo muito significativo para os empresários, não apenas brasileiros, mas latino-americanos. Nas empresas mais novas, que têm founders, já é diferente.

Quando você criou a 44 Capital, qual era a ideia, que dor você buscava resolver? E
porque atuar tanto no sell-side quanto no buy-side?
Eu via uma oportunidade muito interessante de conseguir transformar os relacionamentos, monetizando, em mandatos. Mais do que isso, conseguindo investir no longo prazo dos relacionamentos. Nos bancos é mais difícil você olhar para longo prazo. As pessoas têm uma preocupação muito grande com o resultado do ano. E é claro que nós também temos, mas a gente gasta um tempo enorme para ganhar a confiança do empresário, estar disponível quando ele te liga, saber ter conversas difíceis. Achamos, naquela época, que poderíamos fazer esses relacionamentos renderem bons mandatos, bons negócios. Este ano, provavelmente, venderemos uma empresa, em uma transação bastante interessante, cujo dono conheço há 14 anos. Fomos desenvolvendo um bolsão de relacionamentos que, de fato, nos criou um pipeline interessante. Eu trabalhei tanto em banco estrangeiro como em nacional. E cheguei à conclusão que conseguiria fazer a tecla SAP para o investidor estrangeiro. O empresário brasileiro pensa diferente do que ele fala. E precisamos interpretar isto para o estrangeiro, a tecla SAP. Com isto, temos a oportunidade de fazer este papel para os dois lados. Diferente de muitas boutiques de M&A, fazemos sell-side e buy-side, principalmente para clientes americanos institucionais grandes.

Você já descreveu o perfil do empresário latino-americano, mas e do investidor que
vocês acessam? É um investidor que avalia questões de curto prazo para investir?

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Ele é um investidor não oportunista, estratégico, que dá muito menos peso para as variáveis macroeconômicas de curto prazo, mesmo as eleitorais. Muita gente no ambiente local está preocupada com a eleição. É claro que todo mundo tem uma preocupação com isso, mas o investidor internacional, institucional, tem uma visão de longo prazo. Se o Lula ganhar de novo, se for o Tarcísio, ele está olhando para ciclo de 15, 20 anos, então não muda muito. Ele está vendo um mercado que ainda precisa de consolidação, com potencial de desenvolvimento, crescimento e alavancagem. A visão deles é muito menos presa a variáveis macroeconômicas de curto prazo do que do investidor local.

Como você avalia o ano de 2025 para M&As e qual a perspectiva, tanto do setor
quanto da 44 Capital, em 2026?
O ano de 2025 foi um interessante porque apontou alguma retomada. Não foi um ano brilhante, longe disso. O que tivemos foi um volume menor de transações, mas valores maiores. Para nós, na 44 Capital, foi importante e tivemos algumas transações, mas uma em especial foi bastante importante, em logística refrigerada, uma empresa relativamente grande aqui no Brasil. Agora, 2026 é um ano que será interessante. O Ibovespa, a 161 mil pontos, aponta um valuation de mais de 10 vezes o PL. E Isto é muito acima daquilo que a gente tinha apontado nos anos anteriores, que era cerca de 7,5 vezes. Isso quer dizer que mesmo sem a taxa de juros cair, os valuations aumentaram. Toda vez que o valuation aumenta, você começa a ter mais espaço para o M&A. A segunda coisa é um movimento de retomada de IPOs para 2026. Não acho que vai ser um ano abundante de IPOs, mas voltaremos a ter abertura na bolsa. Tem todo um meio de campo que é o nosso cliente, o middle market, de companhias que têm ambições grandes para consolidação, para ganho de eficiência, ou mesmo por questões sucessórias, que sofrem muito com a taxa de juros alta. A indicação de que a Selic vai cair, em primeiro lugar, é importante. E se a capacidade de financiamento dessas companhias se esgota, elas começam a ter que procurar outros caminhos para maior eficiência. As transações de M&A para empresas de middle market passam a fazer mais sentido para a consolidação. Falando em setores, infraestrutura tem muito para gerar negócios, energia, em especial fotovoltaica, além de tecnologia, devem gerar oportunidades.

A 44 Capital tem uma área de reestruturação de companhias. Quais as sinergias com
M&A e qual a relevância dentro da operação?
Hoje, a gente tem feito pouca reestruturação porque não sobra tempo. Até pela minha origem, tenho ótimo relacionamento com as áreas de crédito dos bancos. Isto nos levou a atuar também com reestruturações, algumas grandes. A gente tem expertise, sabe fazer. Mas a reestruturação tem um problema, que é consumir muito tempo dos sócios. E preferimos investir nosso tempo em M&A, que é o nosso ganha-pão, focar nestas operações. As áreas, claro, combinam de várias formas. Primeiro, acredito que a expertise do M&A envolve a negociação, e a reestruturação pode ser parte do processo. Não é [fazer reestruturação] algo que descartamos, mas no momento não é o foco por falta de braços.

Quais os planos da 44 Capital para 2026? Falta algo na grade de serviços oferecidos
que está no radar?
Para este ano, a gente discute efetivamente criar uma esteira de dívida. Exatamente porque conhece muita gente no mercado de dívida e conhece as companhias. Estamos começando a organizar internamente uma assessoria para companhias que querem emitir. Isso é algo que deve acontecer em 2026. Já temos três ou quatro casos que estão em andamento com nossos parceiros de mercado. A gente quer identificar emissores que têm potencial de emitir e aproximar as partes para que a emissão ocorra, atuarmos na originação. Além disso, as companhias que vão à IPO, muitas não têm o roadmap de como se preparar para o IPO. É mais um serviço que uma assessoria financeira como a nossa pode fazer. Podemos ajudar as companhias a se prepararem para um IPO. O mercado está mudando, tem nova bolsa, a BEE4, tem o novo regime Fácil. Com isso, vai ter um número maior de companhias, mas de tamanho médio, procurando essa oportunidade.

O que essas novas áreas podem acrescentar no desempenho da companhia?
O M&A tem uma taxa de óbito grande. Você precisa gerar um portfólio e um pipeline muito robusto para conseguir, no final, ter anos bons e produtivos. Embora seja o meu produto favorito e onde o meu coração mora, acho que é importante ter o portfólio completo de produtos para tornar a casa mais robusta. M&A são conversas mais difíceis, transações mais complexas. Hoje, de 30% a 35% das negociações chegam a termo.
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