Pre-matching acelera modernização do mercado de títulos
Jaqueline Mendes

Crédito: Divulgação
O cronograma definido pelo Banco Central para a integração do pre-matching às plataformas eletrônicas de negociação marca uma nova etapa na modernização da infraestrutura do mercado de títulos públicos. O mecanismo é responsável pela validação dos dados das operações antes de seu registro definitivo no Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic). Com implementação em ambiente de homologação desde a última sexta-feira (19), a solução passa a ser opcional em agosto e a sua adoção será obrigatória para fins de pontuação dos dealers a partir de outubro.
A medida pretende reduzir falhas operacionais e ampliar a automação dos fluxos de pós-negociação. Na avaliação de especialistas, o movimento também tende a acelerar investimentos em tecnologia e pressionar instituições com estruturas mais dependentes de processos manuais. A iniciativa faz parte do processo de aprimoramento da infraestrutura do Selic, principal ambiente de registro e liquidação de títulos públicos federais.
Na avaliação de Marcelo Godke, sócio do Godke Advogados e especialista em mercado de capitais, a integração do pre-matching deve ampliar a automação dos fluxos de pós-negociação e reduzir fricções operacionais no mercado de títulos públicos. "O ganho está sobretudo na automação, padronização e rastreabilidade das informações antes do registro definitivo", afirma.
Banco Central aposta em incentivos regulatórios
Um dos aspectos mais relevantes da iniciativa, segundo Godke, é a estratégia adotada pelo Banco Central para estimular a adesão das instituições financeiras. A partir de outubro, a utilização da integração passará a ser considerada na avaliação dos dealers de títulos públicos, grupo formado pelas instituições autorizadas a atuar diretamente nas operações com o Tesouro Nacional e com a autoridade monetária.
A medida cria um incentivo regulatório para acelerar a modernização dos participantes do mercado. “Não se trata apenas de uma recomendação de boa prática. Passa a haver um efeito direto sobre a avaliação das instituições que atuam como dealers no mercado de títulos públicos”, afirma o especialista.
Segundo ele, a decisão tende a antecipar investimentos em automação de processos, integração de sistemas e governança operacional, sobretudo em instituições que ainda dependem de procedimentos manuais ou de plataformas tecnológicas mais antigas.
Pressão sobre sistemas legados
Embora a iniciativa beneficie o mercado como um todo, o impacto não deverá ser uniforme entre os participantes. Instituições com estruturas tecnológicas mais robustas tendem a realizar a adaptação com menor esforço, enquanto organizações que operam com sistemas legados poderão enfrentar custos mais elevados para atender às novas exigências.

PUBLICIDADE
Para Godke, a mudança contribui para elevar o padrão mínimo de eficiência operacional exigido dos principais participantes do mercado de títulos públicos. “Isso é positivo para a segurança e a qualidade do mercado como um todo. Mas também pode criar pressão sobre instituições menores ou menos automatizadas, que precisarão se adequar para preservar sua posição competitiva”, diz.
Na avaliação do advogado, o Banco Central também sinaliza uma redução gradual da tolerância a processos manuais, lentos ou sujeitos a erro nas rotinas operacionais do mercado de títulos públicos.
Menos erros e maior controle operacional
O pre-matching funciona como uma etapa prévia de validação das informações das operações antes de seu registro definitivo no Selic. Atualmente, parte desse fluxo ainda depende de trocas de dados por e-mail, telefone, planilhas ou sistemas sem integração direta.
Esse modelo aumenta a possibilidade de divergências entre as informações registradas pelas contrapartes, gera retrabalho e pode provocar atrasos no processamento das operações.
Com a integração às plataformas eletrônicas de negociação, a tendência é que os dados trafeguem de forma mais automatizada entre os sistemas, reduzindo inconsistências e melhorando a qualidade das informações.
Segundo Godke, a medida também fortalece mecanismos de supervisão, auditoria e compliance. “Quanto mais padronizado e automatizado for o fluxo de informações, menor tende a ser o risco de inconsistência entre aquilo que foi negociado e aquilo que será registrado”, afirma.
O especialista ressalta que a integração não altera as atribuições do Selic nem transforma o pre-matching em um sistema de liquidação. O objetivo é aprimorar a etapa anterior ao registro definitivo, aumentando a confiabilidade das informações e a eficiência operacional.
Investimento agora, ganho de eficiência depois
A implementação da nova estrutura exigirá investimentos em tecnologia, integração de sistemas, testes operacionais, governança de dados e treinamento de equipes. Apesar dos custos iniciais, a expectativa é que os ganhos superem o esforço de adaptação ao longo do tempo.
A redução de erros operacionais, o menor volume de retrabalho e a diminuição da intervenção manual tendem a gerar economias relevantes para bancos, corretoras e demais participantes do Selic. “É o tipo de investimento que pode parecer burocrático no início, mas que melhora a musculatura operacional do mercado”, afirma Godke. Para o especialista, a iniciativa aproxima o mercado brasileiro das melhores práticas internacionais de infraestrutura financeira e reforça uma tendência global de automação dos processos de pós-negociação.
À medida que o cronograma do Banco Central avança, a discussão perde o viés exclusivo sobre temas tecnológicos e envolve, também, assuntos como estratégia competitiva, governança e capacidade de adaptação dos participantes a um ambiente cada vez mais digitalizado.
Leia também: Mercado de FIDCs deve superar R$ 1 trilhão de PL até agosto


