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Prateleira: a mãe de todas as crises

PE

Peter Jancso

Prateleira: o que nunca muda

O assunto definitivamente não é novo. Muito já se escreveu sobre a crise de 1929 e como uma queda acentuada no preço das ações em Wall Street acabou contagiando a “Main Street” (economia real dos Estados Unidos) e o resto do mundo. Mas o que torna a narrativa de Andrew Ross Sorkin, renomado jornalista e autor de “Too Big to Fail” (sobre a crise de 2008), é a minuciosa pesquisa sobre os principais personagens ao redor da crise e seus comportamentos. A obra é construída a partir de notas, diários e artigos da época, buscando recriar a atmosfera dos bastidores e diálogos dos envolvidos nos acontecimentos.

A obra não busca decifrar o enigma da crise de 1929, suas origens e culpados. Trata-se de uma narrativa em ordem cronológica, com duas partes (antes e depois do crash), onde cada capítulo é um dia no calendário. O autor nos leva ao caos da queda de braço entre Wall Street e Washington do ponto de vista dos principais personagens da época. Para chegar ao ponto pivotal da crise (a “terça-feita negra) quando o mercado sofre uma queda brutal, o autor provê o contexto político-econômico da nação: um presidente impopular em fim de mandato, tarifas comerciais elevada para proteger produção local (elevando a inflação), mercado de ações aquecido por alavancagem (pessoas tomando empréstimos para comprar ações), mercado bancário descentralizado (bancos não podiam ter agências fora de seu estado) e pouco capitalizado. O cenário dos dominós estava montado, bastava um “empurrãozinho” para desencadear a avalanche que moldaria toda uma geração de norte-americanos.

Não se trata apenas de uma tragédia sobre fortunas perdidas e economias populares dizimadas, o crash de 1929 reconta a velha história de ganância e medo. Os sinais de alarme foram ignorados e aqueles que levantaram bandeiras amarelas foram rotulados como “profetas do fim do mundo”. Conforme sabiamente registrado em outro livro, todos acreditavam na ilusão sedutora de que “dessa vez é diferente”.

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A obra tangencia as principais causas da crise, mas sugere que a principal ruptura ocorre no mercado de crédito, que simplesmente secou, levando a um efeito cascata: falta de confiança no mercado bancário, corridas para sacar depósitos, bancos quebrando, levando a menos crédito ainda. Pelo lado dos negócios, demanda em queda livre, levando a demissões em massa, que levam à queda na renda coletiva, que exagera ainda mais a queda na demanda. Deve-se lembrar que o pensamento econômico daquele momento se apoiava na mão invisível dos mercados, que deveriam corrigir os excessos para cima e para baixo. As ideias de Keynes e como o Estado poderia ajudar em momentos de ruptura só viriam a se consolidar em 1936, com a publicação de The General Theory of Employment, Interest and Money.

A crise de 1929 é uma história sobre a natureza humana. Assim como, anos antes, o Titanic era reputado como o navio mais seguro já construído, levando a tomada de risco exagerada pelo capitão, o índice Dow Jones só poderia subir, refletindo o poder da nação lider do mundo pós primeira guerra. A confiança no futuro, uma vez abalada, apresenta grande inércia para ser restaurada. 1929 pode ser lido como um romance que narra os acontecimentos terríveis daquele tempo, mas indica caminhos o entendimento de ciclos especulativos, as forças que podem levar a grandes reversões de mercado, e os sinais de alerta que ignoramos por nossa conta e risco.

1929: Inside the greatest crash in Wall Street history – and how it shattered a Nation

Andrew Ross Sorkin
Editora: Penguin Random House
567 páginas
1a edição, 2025

* Peter Jancso é conselheiro independente e consultor de finanças


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