Prateleira: uma breve história das finanças corporativas
A ciência econômica pode traçar suas raízes ao século 18 (ou antes), e se desenvolveu buscando explicar o comportamento dos agentes econômicos de forma individual (micro) e agregada (macro). Com a evolução do capitalismo, alicerçada sobre uma construção social chamada empresa, uma nova questão econômica vem à tona: como as empresas se organizam, se financiam e operam para conduzir seus negócios de forma eficiente. Esta é o desafio da teoria de finanças corporativas, cuja gênese, na década de 50, a coloca na infância em relação à “mãe” economia.
A partir de uma carreira de quatro décadas de relacionamentos com os principais acadêmicos e executivos da área de finanças, Donald Chew pesquisou, organizou e sintetizou uma narrativa elegante sobre o desenvolvimento desse campo em “The Making of Modern Corporate Finance”. Ao longo de 12 capítulos, os tópicos cobertos podem ser agrupados em três áreas principais: a relação entre finanças corporativas e a criação de valor para a sociedade; o desenvolvimento das teorias que formam, em conjunto, os fundamentos de finanças corporativas; e a aplicação dessas teorias sobre vários desafios empresariais, incluindo a medida de desempenho, o uso de dívida no balanço e como alinhar incentivos com remuneração variável. Mas a verdadeira espinha-dorsal da obra reside nos capítulos que descrevem o desenvolvimento conceitual dos fundamentos de finanças e as pessoas (os acadêmicos) por trás de cada avanço. Os leitores que estudaram e/ou trabalham com finanças certamente se lembrarão de nomes como Merton Miller (a relevância das decisões sobre estrutura de capital), Michael Jensen (teoria da agência), Stewart Myers (teoria de opções), e Clifford Smith (gestão de risco).

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Uma das primeiras provocações da obra refere-se ao termo finanças corporativas “modernas”, em oposição ao pensamento anterior, das finanças corporativas “tradicionais” (“old-fashioned”). Esta última preconizava o objetivo de crescimento de lucros contábeis e diversificação, com baixa atenção sobre os interesses dos donos da empresa (acionistas). Em contrapartida, a prática “moderna” iluminou a necessidade de buscar retorno (em vez de lucro contábil) para compensar os fornecedores de capital (credores ou acionistas), para prover sustentabilidade ao crescimento econômico no longo prazo. Estranho como algo que parece bom senso em algum momento foi considerado radical e “moderno”!
Por fim, esse denso conjunto de ideias consideradas revolucionárias em um certo momento, compõe o tecido que melhor explica a eficiência e a criação de valor de cada negócio individual. No entanto, ao se considerar seu efeito sobre o coletivo, a teoria de finanças pode contribuir com os principais desafios da sociedade, conduzindo a um aumento progressivo no bem estar geral (a eficiência econômica como alicerce para demandas ambientais e sociais). A partir de sua posição como editor do Journal of Applied Corporate Finance desde seu lançamento em 1981, Don Chew sempre esteve em uma posição privilegiada para acompanhar o estado da arte de finanças, tanto na teoria quanto na prática. O rigor intelectual e a narrativa acessível tornam esta obra obrigatória para estudantes e acadêmicos, e profissionais de finanças, assim como todos os curiosos que gravitam ao redor do campo da economia.
The Making of Modern Corporate Finance
Donald H. Chew, Jr.
Editora: Columbia Business School Publishing
328 páginas / 1a edição, 2025
* Peter Jancso é conselheiro independente e consultor de finanças
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