A incrível trajetória do capital empreendedor
Embora a literatura econômico-financeira atribua o início da atividade de Venture Capital ao ano de 1946, com a criação da American Research and Development Corporation (ARDC) por Georges Doriot, as raízes do financiamento à atividade de risco podem ser encontradas 100 anos antes. Ou seja, muito anos do famoso termo ter sido cunhado, já havia evidências de arranjos contratuais desenvolvidos para financiar empreendimentos de alto risco. Segundo o professor da Harvard Business School, Tom Nicholas, autor de VC: an American History, os primeiros registros documentados de forma estruturada tratavam do financiamento à pesca de baleias na segunda metade do século 19.
A partir de uma pesquisa surpreendente e detalhada sobre o florescimento desta atividade na Nova Inglaterra, o autor traça paralelos bastante interessantes entre as duas épocas em termos de retorno financeiro e alinhamento de interesses entre investidores e empreendedores (capitães das baleeiras, naquele tempo) por meio de contratos sofisticados. Daí em diante, passamos pela onda da eletrificação a partir das invenções de Thomas Edison, e chegamos até os automóveis e aviões do início do século 20. Nesse intervalo, coube principalmente aos barões da indústria americana (devido à vasta riqueza acumulada com ferrovias, aço e petróleo) e ao lendário JP Morgan o financiamento dessas inovações, em um formato que hoje reconhecemos como investimento-anjo. No entanto, até o estabelecimento da ARDC, não havia registro de uma empresa dedicada ao financiamento da inovação como modelo de negócios. No período entre 1946 e os anos 70, uma boa parte do “funding” e das invenções estavam relacionados a gastos militares, e os poucos que tentaram financiar inovações de forma sistemática, criando companhias, tiveram resultados moderados, na melhor das hipóteses. Mas o final dos anos 60 testemunharam os casos da Digital Equipment e Fairchild Semiconductor, onde múltiplos de retorno acima de 10x foram vistos pela primeira vez, e nomes como Arthur Rock começaram a gravar seus nomes na história. A despeito das dificuldades da economia americana na década de 70, o processo de investimento dos primeiros fundos dedicados a financiar inovação foi aperfeiçoado e casos como Atari e Apple Computer confirmaram o potencial de retornos astronômicos. Some-se a isso tratamento favorável na tributação desses investimentos e a permissão de fundos de pensão para investir nessa classe de ativos, e temos o contexto perfeito para o a explosão da indústria de VC. Para completar, temos a emergência da internet nos anos 90 e da comunicação pessoal na década seguinte, com grande parte da infraestrutura (hardware, middleware e software) e dos produtos e serviços criados por empresas financiadas por VCs.

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Além de contar essa trajetória incrível da indústria do capital empreendedor de forma leve e sem jargões, a obra também faz um bom trabalho ao acompanhar a evolução dos arranjos para alinhamento de interesses entre investidores e empreendedores. Por fim, o autor tenta explicar o sucesso do Vale do Silício em tornar-se o berço da inovação tecnológica, e manter-se lá por mais de 50 anos. Surpreendentemente, a resposta acadêmica já havia sido publicada pelo economista Alfred Marshall em 1890: no setor de alta tecnologia, a concentração geográfica tende a potencializar os resultados aos envolvidos, devido à cadeia de valor que conecta as empresas, o acesso a um “pool” de colaboradores talentosos e ambiciosos e à livre troca de ideias. Vida longa ao vale do Silício!
VC: An American History
Tom Nicholas
Editora: Harvard University Press
384 páginas
1a edição, 2019
Peter Jancso é conselheiro independente


