A integridade muito além do compliance

Cumprir leis e respeitar normas, embora ainda haja muitas organizações em todo o mundo que insistam em tentar burlá-las, é um compromisso intrínseco à cidadania e à gestão das empresas. Ou seja, compliance não é uma virtude, mas um comportamento esperado. Obviamente, embora atendê-lo seja uma obrigação, cabe destacar o mérito das organizações que primam pela conformidade em todas as suas relações com o mercado, os consumidores, clientes e o poder público.
Sem dúvida, o arcabouço legal e normativo tem imensa importância no processo de construção de uma sociedade mais ética, diversa e equitativa, cujo êxito não depende apenas de políticas públicas, mas também do protagonismo das empresas. Entretanto, seu acatamento mais exemplar, espontâneo e efetivo decorre – antes do aspecto jurídico e do temor de riscos reputacionais e de sanções penais e pecuniárias – do princípio de integridade, que não é sinônimo, mas sim um pressuposto essencial para que o compliance seja consolidado como um valor pétreo das organizações.
É muito importante que essa visão mais ampla e holística permeie cada vez mais a comunidade de negócios, pois a disseminação da integridade é um caminho sustentável para um mundo de relações pautadas por imperativos éticos. Sem ingenuidades utópicas, e reconhecendo os obstáculos e dificuldades a serem enfrentados, jamais devemos abdicar da busca dessa situação ideal. Afinal, muitas organizações já a alcançaram ou se aproximaram dela. Cabe ressaltar que não se trata de uma construção hermética e definitiva, mas sim de um processo permanente, que deve ser diariamente retroalimentado.
Nesse sentido, promover avanços na cultura corporativa é uma excelente maneira, se não a melhor, para induzir o desenvolvimento de boas práticas, incluindo a realização de um programa de integridade bem-sucedido. Subsídios preciosos para implantá-lo no âmbito das empresas encontram-se na sexta edição do Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa do IBGC. O primeiro tópico do capítulo Fundamentos do documento aborda a ética, definida “como o conjunto de valores e princípios que orienta a conduta e viabiliza o convívio e a evolução do ser humano em sociedades cada vez mais complexas”. A publicação, de modo bastante lúcido, observa que essa virtude deriva do senso de coletividade e interdependência, que impulsiona os indivíduos a colaborarem para o avanço da sociedade, direcionando suas ações em busca do bem comum.
De modo muito coerente com o pressuposto de que a integridade precede o compliance, o Código do IBGC acentua que, “em um primeiro momento, os valores e princípios éticos eram traduzidos para as práticas corporativas com o intuito primordial de proteger os sócios contra fraudes, abusos dos administradores (conselheiros e diretores) e conflitos de interesses dos e entre os agentes de governança”. Atualmente, a ética aplicada a empresas e demais organizações estende-se de modo crescente para sua relação e dos agentes de governança com uma gama muito mais ampla e complexa de partes interessadas.
Esses públicos e todos os stakeholders incluem colaboradores, fornecedores, clientes, consumidores, comunidades do entorno das empresas e a sociedade em geral. Também não devem ser esquecidos os compromissos referentes ao meio ambiente e à agenda do clima. “Nessa perspectiva mais abrangente, a ética embasa os cinco princípios de governança corporativa (integridade, transparência, equidade, responsabilização (accountability) e sustentabilidade) e as melhores práticas para alcançá-los”, conforme consta do Código do IBGC.

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Outro tópico do capítulo Fundamentos correlacionado à questão que estamos avaliando neste artigo diz respeito de modo direto ao princípio da integridade. Este preceito, conforme define o próprio documento, pressupõe a promoção do contínuo aprimoramento da cultura ética, evitando decisões influenciadas por conflitos de interesses, mantendo a coerência entre discurso e ação e preservando a lealdade à organização e o cuidado com suas partes interessadas, com a sociedade em geral e o meio ambiente.
A construção de uma cultura organizacional alicerçada em ética e integridade, como recomenda o Código do IBGC, somente é viável a partir do engajamento das lideranças e dos agentes da governança corporativa, devendo, necessariamente, ser compartilhada com os colaboradores, investidores e acionistas. A mobilização de todos e a consciência de que se trata de uma iniciativa importante para o êxito e longevidade dos negócios e para agregar valor à sociedade são essenciais para que os objetivos sejam alcançados.
Nesse processo, é fundamental o máximo empenho do conselho de administração, que deve pautar a empresa no sentido de que converta a integridade em meta permanente e inegociável. Compete aos seus membros demonstrarem aos gestores e acionistas os ganhos que uma postura de boas práticas proporciona à empresa em termos de resultados operacionais, reputação, atração dos investidores e conquista de credibilidade, além do atendimento ao compromisso, cada vez mais necessário e reconhecido, de contribuir para a melhoria da sociedade. Cabe ressalvar que não basta uma abordagem teórica do colegiado, por mais consistente que seja. Também é determinante liderar pelo exemplo de conduta.
Notam-se avanços no universo corporativo brasileiro em termos de ética. É o que se pode inferir, por exemplo, ao verificarmos que o índice de adesão das companhias abertas ao Código Brasileiro de Governança Corporativa, foi de 65,3% em 2023, de acordo com a última edição de estudo realizado pelo IBGC, EY e TozziniFreire Advogados. O resultado situou-se 2,7 pontos percentuais acima do ano anterior e 14,2 na comparação com 2019. Quanto às empresas fechadas, pesquisa que acaba de ser divulgada pelo IBGC mostra que a pontuação total média de adoção às recomendações de seu Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa passou de 34,6, em 2018, para 37,2 em 2023 (em um máximo de 100 pontos).
O progresso, embora importante, ainda é lento. Assim, é necessário continuar trabalhando, muito e sempre, para a disseminação dos melhores princípios e valores no âmbito da cultura nacional, da população e das empresas, que, a rigor, são microuniversos da sociedade na qual estão inseridas. Numa perspectiva de otimismo equilibrado e responsável, devemos almejar e acreditar que poderemos atingir um estágio no qual o cumprimento das leis e normas seja majoritariamente uma consequência da integridade!
* Henrique Luz, CCA+, CCoAud+ e CCF IBGC, é conselheiro independente e ex-presidente do conselho de administração do IBGC.
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