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O novo aperto do mercado de trabalho brasileiro

EV

Evandro Buccini

coluna do Evandro Buccini

As empresas enfrentam dois desafios no mercado de trabalho brasileiro, um conjuntural, com taxa de emprego baixo e salários crescendo acima da produtividade há alguns anos e uma estrutural, com a mudança demográfica e pressões de Brasília, principalmente a nova discussão sobre redução de horas e de dias de trabalho.

Mesmo com a desocupação próxima de mínimas históricas, a oferta de trabalho vem se reduzindo de forma persistente e o ambiente institucional volta a se tornar menos previsível.

Para as empresas, o resultado é um quadro de custo crescente, menor margem e decisões cada vez mais complexas de contratação.

Nos últimos anos, a taxa de participação (relação entre população ativa e população em idade para trabalhar) caiu de forma consistente.

Após atingir níveis próximos de 63,5% no período pré-pandemia, o indicador opera hoje ao redor de 62%, ao mesmo tempo em que a população fora da força de trabalho, mas com idade para trabalhar, supera 66 milhões de pessoas.

Diferentemente de ciclos passados, a recuperação do emprego não trouxe de volta uma parcela relevante desses trabalhadores. As causas são múltiplas.

Há um forte componente demográfico: de acordo com o IBGE e com a ONU, o pico da População em Idade Ativa é no início da década de 2030. A partir daí o envelhecimento domina e a razão de dependência dos idosos cresce.

Imigração poderia ajudar, mas não acontece em grande número no Brasil. Soma-se a isso a expansão real de benefícios sociais no final do governo Bolsonaro e início do governo Lula, como Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada e reajustes do salário-mínimo, que elevam a renda de reserva, especialmente em ocupações de baixa produtividade.

O resultado é uma menor pressão para a busca ativa de trabalho formal, justamente nos segmentos mais intensivos em mão de obra. A reforma trabalhista de 2017 ampliou a flexibilidade contratual, reduziu incertezas regulatórias e, em um primeiro momento, diminuiu o custo jurídico associado à formalização.

A criação líquida de vagas e a redução da informalidade nos anos seguintes sugeriram ganhos concretos. No entanto, ao longo do tempo, esse efeito foi sendo progressivamente mitigado por interpretações do Judiciário que limitaram dispositivos centrais da reforma, como a prevalência do negociado sobre o legislado, a contratação intermitente e certos formatos de terceirização.

Do ponto de vista das empresas, a consequência mais imediata é o retorno do crescimento de ações trabalhistas na justiça. Nesse contexto já adverso, o debate da PEC do fim da escala 6x1 adiciona uma camada adicional de complexidade.

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Uma das propostas ainda reduz a jornada semanal máxima de 44 para 36 horas, sem redução salarial. Na prática, isso representa um aumento expressivo do salário-hora, com impacto direto no custo das empresas.

O principal risco associado é a migração para a informalidade, que já atinge cerca de 40% da força de trabalho. Sem ganhos de produtividade ou mecanismos de compensação, empresas de menor margem tendem a recorrer a contratos informais.

Esse movimento reduz a base de arrecadação previdenciária, amplia distorções no mercado de trabalho e pode comprometer, no médio prazo, tanto a sustentabilidade fiscal quanto a competitividade das empresas formais.

Embora a jornada média efetiva no Brasil já esteja abaixo do teto legal, essa média esconde forte heterogeneidade setorial, com segmentos como varejo, serviços pessoais, saúde e segurança ainda amplamente dependentes do regime 6x1.

O crescimento real dos salários ocorre em paralelo a uma produtividade praticamente estagnada. Desde meados dos anos 2000, a produtividade do trabalho no Brasil cresce a taxas inferiores a 1% ao ano e apresenta desempenho ainda mais fraco no setor de serviços, responsável pela maior parcela das horas trabalhadas.

Essa combinação leva à elevação do custo unitário do trabalho, pressionando margens, dificultando estratégias de preços e aumentando o risco de repasses inflacionários, especialmente em serviços intensivos em mão de obra. 

A combinação de demografia desfavorável, avanço real dos benefícios sociais e estagnação da produtividade aponta para um mercado de trabalho estruturalmente mais apertado nos próximos anos.

Para as empresas brasileiras, o desafio central será lidar com custos crescentes em um ambiente de oferta limitada de trabalho, sem contar com ganhos de eficiência.

Investimentos em tecnologia, automação, qualificação profissional e reorganização de processos deixam de ser apenas estratégias de crescimento e passam a ser condições essenciais para a sustentabilidade dos negócios em uma nova realidade do mercado de trabalho brasileiro.

Agradeço a José Alfaix, economista da Rio Bravo, o apoio na análise presente no artigo.

Evandro Buccini é sócio e diretor de gestão de crédito e multimercado da Rio Bravo


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