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Alkíndar de Toledo Ramos: o homem que introduziu a Contabilidade Saxônica no Brasil

EL

Eliseu Martins

Faleceu em 02/12 passado, aos 95 anos, o Prof. Alkíndar de Toledo Ramos, o Professor que introduziu a contabilidade saxônica no Brasil, especificamente a norte-americana, em 1964. Há 60 anos !!!

Na FEA/USP, como no Brasil inteiro, ensinava-se, até então, a contabilidade aziendalista, excessivamente teórica e, na prática, fiscalista (não existia demonstração do resultado – não sei se sabiam!). O Prof. Alkindar era o primeiro-assistente do então regente da antiga Cátedra V -  Contabilidade Geral e Pública. Mas, por mãos do Prof. José da Costa Boucinhas (professor, auditor, líder da classe contábil, um dos fundadores do Ibracon, então IAIB,), regente de outra Cátedra, o Prof. Alkíndar conheceu a contabilidade norte-americana e pleiteou a reformulação do ensino na FEA/USP junto ao seu chefe. Não conseguindo, chegou a pedir demissão.

Eis que o então regente da Cátedra V se aposenta e o Prof. Boucinhas assume interinamente essa Cadeira também. Reverte o pedido de demissão do Prof. Alkíndar e o incentiva a reformular o ensino da Contabilidade Geral; entrega-lhe então o livro mais vendido nos EUA, Principles of Accounting, de Finney & Miller. E o Prof. Alkíndar começa a preparar as apostilas e seus colegas da Cátedra para essa grande revolução.

E em 1964 inicia o ensino da contabilidade saxônica, base total da contabilidade do IASB e das Normas Brasileiras de Contabilidade de hoje. E nesse mesmo ano de 1964, como cobaia dessa nova filosofia, lá estava eu entrando na FEA, calouro, assistindo às aulas dele e de seus assistentes. Me encantei e escolhi, por causa disso, cursar Contabilidade.

Em 1965 o Prof. Alkíndar me convida para ser seu Monitor, auxiliando a ele e aos demais Professores da ainda Cátedra V. E inicio minha vida mais próxima à Academia pelas suas mãos. Em 1966 o Prof. Sérgio de Iudícibus termina seu Doutoramento e assume a regência da Cátedra V. Dá enorme impulso a essa linha contábil e a leva fortemente para fora da FEA/USP, com a criação do Contabilidade Introdutória, inicialmente pela Editora da USP e depois pela Ed. Atlas.

O Prof. Sérgio me manteve como Monitor e, quando me formei, fins de 1967, convida-me para ser seu Professor Assistente! E lá estou até hoje... É fácil entender por que os venero.

Apenas para dar alguns detalhes técnicos por conta desse movimento iniciado na FEA/USP em 1964:

  • O Brasil foi o primeiro país não saxônico do mundo a ensinar Equivalência Patrimonial e Balanço Consolidado (mais de uma década antes da Lei das S/A de 1976!). Muito antes de Itália, Alemanha, França etc. etc. Com fortíssima reação dos aziendalistas contra a Consolidação!!! (Balanço de entidade que não existe...)
  • Foi o primeiro não saxônico a ensinar Demonstração de Origens e Aplicações de Recursos, depois substituída pela Demonstração dos Fluxos de Caixa.
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  • Introduziu o conceito econômico de depreciação (a tese de Doutoramento do Prof. Alkíndar é um primor até hoje!).
  • Introduziu a metodologia da correção monetária que 22 anos depois se transformou na Correção Integral de Balanços, declarado pelo IASB (então IASC) como o melhor modelo do mundo quando da sua aprovação pela ISAR Group da ONU.
  • Introduziu um conceito de Goodwill que substituiu o velho Fundo de Comércio, evoluído com o CPC 15 apenas.
  • Eliminação da até então Demonstração de Lucros e Perdas (só Contador conseguia visualizar o lucro!), substituída pelas Demonstrações do Resultado e de Lucros/Prejuízos Acumulados.
  • Desapareceram as contas de Ativo e Passivo Pendentes! Se não sabe do que se trata, não queira conhecimento inútil.
  • As contas que ficavam no hoje Patrimônio Líquido, à época Passivo Não Exigível, de “Fundos de Depreciação”, “Fundos de Devedores Duvidosos” e semelhantes, passaram a ser redutoras de Ativos.
  • Introduziu-se a Teoria da Manutenção do Capital Físico (citado até hoje na Estrutura Conceitual do IASB), com fundamento no Custo de Reposição. As teses do Prof. Sérgio de Iudícibus são imbatíveis até hoje. Pena que a prática, por ser mal utilizada, acabou no Brasil (parcialmente na forma de reavaliação de ativos.
  • Passou-se a dar importância ao Regime de Competência que até então era aplicado de forma relativamente parcial.
  • Etc. etc.
  • Deveríamos sempre nos lembrar dessa tríade: Prof. Alkíndar de Toledo Ramos, Prof. Sérgio de Iudícibus e Prof. José da Costa Boucinhas. Por causa deles, com a liderança inicial do Prof. Alkíndar, seguida pela força e ousadia do Prof. Sérgio, passou-se a ensinar a contabilidade saxônica no Brasil. Por isso a FIPECAFI foi contratada pela CVM em 1978 para escrever o Manual de Contabilidade porque só nós ensinávamos o que a nova Lei das S/A passou a prescrever para a nova Contabilidade agora oficial para o Brasil. E por isso o Brasil foi o país não saxônico a menos sofrer com a introdução das Normas Internacionais de Contabilidade. Viva muito alto a eles!!!

    E, em meu nome pessoal: Profs. Alkíndar e Sérgio, e também Boucinhas, MUITÍSSIMO OBRIGADO!!!

    * Eliseu Martins é professor emérito e professor sênior das FEAs-USP de São Paulo e Ribeirão Preto. Ex-diretor da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e do Banco Central. 


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