Pregão sem fim: promessas e desafios de um mercado que nunca dorme
Em novembro do ano passado, a 24X National Exchange – uma fintech ainda incipiente – tornou-se a primeira bolsa a receber autorização da Securities and Exchange Commission americana para oferecer sessões de negociação com 23 horas de duração. Trata-se da fase inaugural de seu projeto de operar de forma ininterrupta, inclusive aos finais de semana e feriados.[1] Pouco depois, a NYSE também recebeu sinal verde para operar um pregão de 22 horas. [2] Em fevereiro, a CBOE Markets[3] anunciou sua adesão ao modelo 24x5, no que foi seguida, em junho, pela NASDAQ. [4]
Os cronogramas de implementação são ambiciosos. Em alguns casos preveem o início ainda em 2025, consolidando a percepção de que a transição para o 24x5 deixou de ser uma miragem para se torna diretriz em curso. Embora algumas corretoras de varejo hoje ofereçam sessões noturnas por meio de uma combinação de plataformas próprias e sistemas alternativos, o engajamento das principais bolsas globais marca uma nova era, conferindo escala e legitimação institucional ao processo. A ampliação da oferta de dados e a perspectiva de atrair novos perfis de participantes para as bolsas americanas alimentam a expectativa de crescimento de liquidez e volumes negociados.
Do sino ao smartphone
É compreensível que o movimento tenha se consolidado como uma inovação estrutural e parece uma questão de tempo para que seja exportado. Estamos habituados à conveniência de ter tudo na palma das mãos, adaptado às exigências das nossas rotinas, e com a nossa vida financeira não é diferente. Ainda que, por séculos, o sino do pregão tenha simbolizado a cadência do nosso mercado, no zeitgeist contemporâneo o “ ter que esperar” qualquer coisa é percebido como limitação e provoca comparações pejorativas. Uma das mais saturadas é com os criptoativos, cujos investidores nunca conheceram outra realidade que não a da negociação 24 horas, 7 dias por semana, liquidada instantaneamente e sem tantos intermediários. Se a tecnologia permite, por que, então, não estender o padrão para os ativos tradicionais?
Outro catalizador é interesse de investidores de varejo, domésticos e internacionais. A retomada do trabalho presencial afastou do horário comercial tradicional o momento de acompanhamento dos investimentos, hobby adquirido por muitas pessoas físicas durante o confinamento da pandemia. Além disso, a febre pelas empresas de growth listadas nos EUA atraiu a cobiça do varejo estrangeiro, todos demandando fluidez operacional e ausência de restrições impostas pelo relógio.
O crescimento sem precedentes dos volumes contribui para explicar o ímpeto. Levantamento recente indicou que 97% e 82%, dos ganhos apurados, respectivamente, com ações da Tesla e da Nvidia ocorreram fora do horário regular.[5] A NYSE reporta que mais de 11% do volume negociado com ações no mercado norte-americano desde janeiro de 2025 se deu fora do pregão normal.[6] A Robinhood estima que 25% de seu volume negociado ocorra em horários estendidos.[7] Há um consenso quase instintivo sobre os méritos da popularização para o investidor normal de um acesso que só os profissionais, que por ofício operam em vários fusos, hoje conseguem ter.
Rumo ao 24x5:as obras nas engrenagens
Vários temas de infraestrutura, regulatórios e técnicos precisam ser resolvidos antes que o 24x5 se torne realidade. O funcionamento de um mercado é uma tarefa complexa e uma mudança como essa atravessa os ciclos operacionais em todas as suas camadas. Viabilizar a negociação contínua exige revisar toda a engrenagem que viabiliza que exista um livro central de ordens, ativos sejam cotados, ofertas estejam visíveis, negócios fechados, preços publicados de forma sincronizada, quantidades conciliadas, a liquidação aconteça, ativos troquem de mãos, vendedores recebam o preço e toda essa informação esteja refletida nos registros pertinentes. Tudo isso é feito de maneira coletiva e conectada, dentro de janelas de tempo bem definidas. A longa cadeia de agentes que assegura o funcionamento do sistema dá expediente diurno e precisará ser reprogramada para operar em tempo real. Ainda que nem todos compartilhem do ganho econômico associado à extensão, terão que arcar com os custos operacionais e tecnológicos da reconfiguração.
Para além desses pontos, o investidor notívago deve ter direito às mesmas salvaguardas que caracterizam os mercados regulados e os diferenciam de ambientes opacos ou das negociações bilaterais. Isso inclui não apenas a observância de regras de melhor preço e integridade informacional, mas também a presença efetiva de mecanismos de supervisão, autorregulação e responsabilização em caso de ilícitos de mercado. A adesão das bolsas à negociação 24x5 é uma mudança de paradigma porque seus negócios estão sujeitos às regras de melhor preço e, mais do que transações, se tornam registros oficiais, servem a múltiplas finalidades, alimentam outros sistemas e repercutem no atendimento de obrigações de terceiros, além dos investidores e intermediários.
Como se o enredo já não estivesse agitado o suficiente, há debates surpreendentemente complexos sobre questões que sempre foram simples. Quando começa e termina um dia de negociação se ele dura 24 horas? Qual seria o preço de fechamento de uma ação, referência para marcar a mercado o patrimônio dos fundos de investimento, se o dia será contínuo? Ainda deveria haver leilões especiais de abertura e fechamento, e quando, se não houver mais pausas? Decisões como a ativação de circuit breakers, ou a imposição de limites dinâmicos de oscilação de alta ou baixa também precisarão ser redefinidas, com alinhamento prévio de toda indústria.
O dia ficou mais longo, mas e o mercado, ficou melhor?
Mesmo na dinâmica e horários atuais, os leilões de abertura e fechamento continuam sendo os horários de pico de liquidez. Essa concentração ilustra uma característica fundamental do processo de formação de preços: sua qualidade depende da densidade da atenção e participação coletiva. Fora dessas janelas, o fluxo se torna mais ralo, com predominância de algoritmos, arbitradores e investidores menos informados, padrão por vezes é descrito como “liquidity smile”, uma curva em que a liquidez sobe no começo, despenca no meio e volta a subir no fim do dia.[8] Sessões contínuas, por definição, prolongam o trecho de menor densidade da curva.
A assimetria de participação tem efeitos empíricos concretos. Estudo publicado no Journal of Investment Management sustenta que a ampliação do horário de negociação não corrige, e pode até aprofundar distorções já presentes na formação de preços.[9] Seus autores identificam um padrão recorrente de valorização das ações fora do pregão regular — o chamado overnight drift —, atribuído ao comportamento do varejo que opera à base de decisões tomadas à noite e enviadas para execução na abertura. Trata-se, segundo os autores, da “avó de todas as anomalias”: um desvio estatisticamente robusto, de longa duração e difícil arbitragem. Ampliar o pregão não suprimiria essa assimetria; apenas a redistribuiria em janelas ainda mais vulneráveis, posto que é a densidade de participação — e não a disponibilidade permanente do mercado — que sustenta a integridade do processo de precificação.

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Como se vê, glamour à parte, há implicações estratégicas para a provisão de liquidez e controle de volatilidade. A escassez da liquidez nas sessões noturnas alarga spreads e intensifica movimentos de preço, já que o sistema, embora operante, funciona com eficiência reduzida. A eliminação das pausas suprime os momentos naturais de consolidação e reflexão, e amplia a exposição a reações impulsivas diante de eventos pontuais. O risco de oscilações dissociadas de fundamentos econômicos se eleva com consequências para gestores, emissores e reguladores.
Outro vetor de impacto refere-se à comunicação corporativa. A negociação contínua exigirá novas convenções para divulgação de fatos relevantes e a revisão dos calendários corporativos. Atualmente, tais comunicações ocorrem fora do horário de negociação, com o objetivo de permitir uma assimilação mais gradual e menor ingerência nos preços. Nesse ponto a comparação com o universo cripto mostra seus limites: ações conferem direitos sobre entes econômicos reais, que desenvolvem atividades empresariais e assumem obrigações legais, diferentemente dos criptoativos, onde nem sempre isso acontece e que negociam 24x7 porque alguém os programou para isso.
Nem nostalgia, nem tecnofetichismo
A discussão sobre a negociação contínua não pode ser reduzida a um embate entre resistência ao progresso e adesão irrefletida à inovação. Um mercado sempre aberto é, em tese, muito mais responsivo ao permitir que os preços incorporem eventos em tempo real e decisões sejam tomadas com maior autonomia temporal pelos participantes. Mas isso não elimina os trade-offs estruturais que a extensão do horário impõe.
Mercados não são apenas sistemas técnicos. São estruturas de coordenação coletiva, sustentadas tanto por tecnologia quanto por uma lógica de sincronia entre compradores e vendedores. Historicamente, essa coordenação se deu por meio de mecanismos claros: encontros em praças físicas, pregões viva-voz, janelas automatizadas e sincronizadas de negociação. Eram pontos de convergência não porque todos podiam estar ali, mas porque sabia-se quando todos estariam. A digitalização desfez a centralidade do espaço físico e esticou as fronteiras do tempo. A tecnologia tornou possível que “o mesmo lugar” possa ser “qualquer lugar” e que “ao mesmo tempo” possa ser “sempre”. Mas essa nova dinâmica de vigília permanente exige mais que sistemas operacionais robustos. Exige arcabouço normativo, supervisão coordenada e atenção constante de todos que sustentam o funcionamento dos mercados.
Aline Menezes é General Counsel do Grupo UBS para Brasil e América Latina e integrante do Conselho de Autorregulação da BSM – Supervisão de Mercados (BSM)
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[1] 24X National Exchange Plans to be the First Exchange to Offer U.S. Equities Trading 23 Hours-Per-Day on Weekdays. 29.11.2024. Disponível em: https://24exchange.com/new-york-stock-exchange-tests-views-on-round-the-clock-trading-2/. Acesso em: 02.08.2025.
[2] The early bird gets the worm. 10.02.2025. Disponível em: https://www.nyse.com/research/insights/the-early-bird-gets-the-worm-a-new-normal-in-off-hours-us-equities-trading. Acesso em: 02.08.2025.
[3]Cboe announces plans to launch 24x5 Us equities trading. 03.02.2025. Disponível em: https://ir.cboe.com/news/news-details/2025/Cboe-Announces-Plans-to-Launch-24x5-U.S.-Equities-Trading-2025-NwujmKvsxb/default.aspx Acesso em: 02.08.2025.
[4] The market never sleeps, should trading? Disponível em: https://www.nasdaq.com/solutions/market-data-apac/24x5. Acesso em: 02.08.2025.
[5] Tesla, Wall Street Giants Made 80–90% of Gains After Hours, New Pepperstone Data Shows. 24.02.2025. Disponível em: https://www.financemagnates.com/forex/analysis/tesla-wall-street-giants-made-80-90-of-gains-after-hours-new-pepperstone-data-shows/. Acesso em: 02.08.2025.
[6] The early bird…
[7] A Quarter of Robinhood’s Trading Volume Often Comes After Hours. 06.03.2024.Disponível em: https://www.bloomberg.com/news/articles/2024-03-06/a-quarter-of-robinhood-s-trading-volume-often-comes-after-hours?sref=KkPzpZvz. Acesso em: 02.08.2025.
[8] Por isso, com a espirituosidade de sempre, Matt Levine sustenta que as sessões de negociação deveriam ser reduzidas para dois leilões de meia hora no começo e no final do dia, o oposto da negociação 24x5. 24/7 trading. 06.08.2021. Disponivel em: https://www.bloomberg.com/opinion/articles/2021-10-06/why-not-trade-all-night. Acesso em: 02.08.2025.
[9] HAGHANI, Victor, RAGULIN, Vladimir e DEWEY, Richardo. Night moves: is the overnight drift
the grandmother of all market anomalies? 2024. Disponível em: https://www.joim.com/wp-content/uploads/emember/downloads/P0753.pdf. Acesso em: 02.08.2025.


