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Fluxos e a bolsa brasileira – Quem está certo, o estrangeiro ou o brasileiro?

AL

Alexandre Póvoa

Fluxos e a bolsa brasileira

Estamos apenas no final de março e o ano de 2026, pelo menos para a bolsa, surge como muito mais longo do que o tempo cronológico aponta. Iniciamos janeiro com extremo otimismo nos pregões e estamos terminando março em meio a uma grandiosa volatilidade causada pela guerra EUA/Israel versus Irã, que parece não se resolver. O preço do petróleo oscilou entre US$ 70 e US$ 120/barril, sem sinais aparentes de encontrar um novo ponto de equilíbrio.

Além disso, já aconteceu tanta coisa em três meses, que a situação fiscal instável e uma importante eleição presidencial no final do ano no Brasil estão totalmente esquecidos pelos investidores.

Mas, sem dúvida, o que mais surpreendeu nesse primeiro trimestre foi o enorme (e “imparável’, mesmo com a guerra) fluxo estrangeiro para a bolsa de valores brasileira. Sempre considerando nesse artigo o ponto de corte em 22/03, nada menos que R$ 47 bilhões já entraram em nossos pregões em 2026, contra R$ 25 bilhões no ano inteiro fechado de 2025.

Mais incrível constatar que nem em março, depois da eclosão do conflito, essa entrada refluiu. Pelo contrário, o fluxo mensal de estrangeiros em março para a B3 alcançava R$ 6 bilhões positivos.

Enquanto isso, na outra ponta, é impressionante como o investidor local encontra-se completamente “sobrevendido” em renda variável. As pessoas físicas retiraram R$ 5 bilhões do mercado acionário nesse ano e em 12 meses o saldo entre compras e vendas é próximo a zero.

O que chama mais atenção, porém, são os institucionais (basicamente fundos de pensão, regimes próprios de previdência e seguradoras), que já desinvestiram em ações nada menos que R$ 36 bilhões em 2026, acumulando uma saída de R$ 75 bilhões em 12 meses e estratosféricos R$ 400 bilhões desde começo da pandemia em 2020.

Mas como analisar comportamentos tão díspares desses importantes agentes em relação à bolsa brasileira? Em outras palavras, o que o investidor estrangeiro está enxergando, que o aparentemente pessimista investidor local supostamente não observa em relação às ações locais? Ou seria o contrário, o investidor local está correto em sua visão e o estrangeiro otimistamente míope?

Na verdade, não existe “certo ou errado” nessa aparente dicotomia. Cada investidor possui seus respectivos incentivos. Cabe ressaltar que aconteceu com o estrangeiro nesse primeiro trimestre não foi um movimento específico para Brasil.

Com a elevação da insegurança e de risco advindos do imprevisível Governo Donald Trump, os investidores no mercado norte-americano resolveram investir uma fração maior de sua poupança em mercados emergentes. Não é à toa que o dólar norte-americano se desvalorizou em 5% frente a uma cesta de moedas (índice DXY) em doze meses.

Mas por que altas tão relevantes?  Mesmo com a queda em março, a bolsa brasileira sobe 15% no ano (até 25/03). A explicação reside na palavra “proporção”. Para se ter um parâmetro, a negociação média diária da Bolsa de Nova York atinge superlativos US$ 170 bilhões, enquanto na B3 esse número não chega a parcos US$ 7 bilhões/dia.

Qualquer fluxo que entra no Brasil (número que parece gigantesco para nós) é como se retirasse um balde de água de uma piscina olímpica (o que é nada para o mercado norte-americano) e se jogasse tudo em um recipiente muito pequeno (o mercado brasileiro, que “transborda”). Por isso, as fortes altas e baixas quando o investidor estrangeiro resolve se movimentar. Não é à toa que 60% do valor de mercado da B3 já estão em mãos estrangeiras.

O Brasil acabou sendo mais beneficiado pela atratividade de preço relativo comparado a outros emergentes. Além disso, os países asiáticos, pela proximidade geográfica da guerra e por serem mais dependentes do petróleo do Oriente Médio, tiveram seus mercados mais afetados.

Já o investidor brasileiro, que viu o famoso CDI dar uma surra em termos de rentabilidade contra a bolsa desde o Plano Real, tem assistido, nos últimos anos, a uma disparada da taxa SELIC, que saltou de 2% a.a. na pandemia para os atuais 14,75% a.a. Além disso, o custo de oportunidade em renda fixa se elevou também por conta dos títulos incentivados que, pagando taxas super-atrativas, são isentos de imposto de renda.

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O que falar dos investidores institucionais, que possuem metas atuariais para cumprir de IPCA + 4/5% a.a e que podem atualmente aplicar suas reservas no longo prazo em títulos públicos que remuneram acima de IPCA + 7% a.a? Como “condenar” os gestores que simplesmente resolvem abandonar as bolsas, na busca de “casar” ativo e passivo atuarial em um horizonte mais largo?

A consequência dessa característica de jabuticaba completamente tupiniquim – alto retorno e baixo risco em renda fixa (excetuando-se casos particulares, como o Banco Master) – resulta em um recorde histórico de baixa participação de renda variável no portfólio de todos os investidores locais.

Segundo a Anbima, o volume de produtos de ações representa hoje apenas 6% do total da indústria de fundos, mostrando como as pessoas físicas praticamente não querem nem saber de bolsa nas suas carteiras. A Abrapp aponta que somente 7% das aplicações de fundos de pensão estão direcionadas à renda variável. Para completar, segundo a Secretaria de Previdência Complementar, nada mais que 8% dos recursos dos regimes próprios de previdência de estados e municípios (RPPSs) estão aplicados em produtos lastreados em ações.  

No entanto, parece um contrassenso que instituições que possuam um passivo de longo prazo não tenham um percentual ao menos um pouco mais relevante de investimento em ações. Tal política, nos últimos 12 meses, custou 40% de rentabilidade do Ibovespa. Na teoria de Finanças, não há perdão: Deixar de ganhar é conceitualmente igual a perder.

É correto afirmar que a teoria da diversificação parece ter sido mais bem aproveitada pelo investidor estrangeiro relativamente ao investidor local nesses últimos tempos. Lembrando que até o investimento em papéis da Petrobras, que vinha sendo ruim nos últimos anos, vem se pagando em 2026, mostrando a força de uma carteira diversificada no longo prazo – seja pela classe do investimento, pela geografia, pelo setor ou pela escolha do ativo específico.  Obviamente, uma larga concentração em renda fixa é o mais recomendável nesse momento, mas o virtual abandono da renda variável, em uma visão de longo prazo, pode custar caro.

A realidade, porém, é que a bolsa brasileira hoje, olhando o copo meio vazio, corre um sério risco porque sua performance recente foi toda alavancada por recursos estrangeiros. Qualquer sinal de piora mais relevante no risco-país ou mundial ou melhora mais substancial das perspectivas dos mercados desenvolvidos, pode provocar um refluxo desses investimentos para fora do país e o mercado não teria defesa, dado o investidor local afastado dos pregões.

Porém, sob o prisma do copo meio cheio, a bolsa pode ser ainda uma grande oportunidade, dado que a queda de juros e uma eleição presidencial no final do ano podem significar a volta do fluxo local para a renda variável, considerando que o investidor brasileiro em geral nunca esteve tão “leve” em ações nas suas carteiras.

Dentro da psicologia comprovada nos livros de Finanças Comportamentais, a 60 mil pontos de Ibovespa ninguém quer comprar Bolsa em um momento de crise; já a 160 mil pontos, todo mundo mergulha de cabeça sem pensar, se esse custo de oportunidade de renda fixa cair de forma mais acentuada (o que não parece muito provável).

2026 ainda promete muitas emoções no mercado acionário, não só no Brasil, mas pelo mundo inteiro. 

Alexandre Póvoa é estrategista da Meta Asset Management e autor dos livros Meta Asset Management e autor dos livros: Valuation, Como Precificar Ações e Mundo Financeiro, o Olhar de um Gestor


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