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Tudo que reluz é ouro

AL

Alexandre Póvoa

Imagine se retroagirmos no tempo e voltarmos ao começo de 2025. Um analista então prevê, naquela época, que o ouro atingiria um desempenho estrelar na casa de 65% de alta no ano, saltando em doze meses de US$ 2.640 para US$ 4.315 a onça troy (31,1 gramas). Certamente a grande maioria das pessoas desdenharia da previsão.

Mas aconteceu. O ouro, como todos os metais preciosos, representa um ativo peculiar em termos de valuation. Qual é o fluxo de caixa, qual é a taxa de desconto? Porém, diferente de outras commodities, onde pelo menos questões de oferta e demanda são mais fáceis de mapear, como estabelecer o “valor justo” para o ouro? Ele está caro ou está barato depois de ter subido tanto? Qual o preço de equilíbrio? Qual é o prêmio correto do ouro como seguro na carteira? Difícil a resposta em termos puramente técnicos, mas o mercado dá sempre os seus sinais.

Pelo livro-texto, o ouro consiste em reserva de valor clássica devido às características de escassez, durabilidade, aceitação universal e manutenção do poder de compra, mesmo em momentos de crise.

O Sistema de Bretton Woods (1944 -1971) foi um regime monetário internacional que atrelou moedas ao dólar americano, o qual, por sua vez, era fixamente conversível em ouro a US$ 35 por onça, criando um "padrão dólar-ouro”. Nessa época, os EUA mantinham reservas do metal, lastreando o sistema e promovendo estabilidade e comércio global no pós-guerra, arranjo que foi abandonado pelo presidente norte-americano Richard Nixon em 1971, marcando o fim da conversibilidade. O último país que manteve sua moeda parcialmente atrelada ao ouro foi a Suíça, que manteve a exigência constitucional de 40% de lastro no metal até 1999/2000, quando foi definitivamente removida. Era o fim da experiência “padrão ouro” também na Suíça. 

Mas o ouro nunca perdeu o seu papel de porto seguro na economia. Guerras, hiperinflações e todos os tipos de instabilidades ocorreram ao longo dos séculos e lá estava o ouro, um refúgio nos momentos difíceis. Durante todo esse período, o metal passou a ser negociado livremente em diversas bolsas do mundo, seja no mercado spot (físico) – o maior mercado é em Londres ou futuros – em Nova York. Diversas bolsas na Ásia – Dubai, Xangai e Mumbai são outros exemplos.

Mas o que aconteceu especificamente em 2025 que justificasse esse salto nas cotações do ouro? Um fator estrutural (e que não será resolvido no curto prazo) é a piora – cada vez mais acelerada – dos déficits fiscais pelo mundo, afetando a credibilidade das moedas. A relação Dívida/PIB nos EUA já monta a 100%. Os déficits persistentes (primário de - 2% do PIB) levaram ao rebaixamento de rating pela Moody´s em maio/25, com o endividamento dos EUA perdendo o status de triple A (AAA). O encurtamento do prazo da dívida pública tem sido uma consequência: Dois terços do estoque atual têm prazo de vencimento inferior a cinco anos; e, nos últimos doze meses, um terço foi emitido com vencimento inferior a um ano.

O problema norte-americano não é isolado nos países desenvolvidos. Estima-se que 40% da dívida soberana da OCDE vencem nos próximos três anos. A desconfiança dos investidores quanto à solvência das dívidas é global. O mundo também vive uma situação de controle espontâneo da natalidade (pelo alto custo de vida) e de maior envelhecimento populacional com os avanços na medicina, combinação que eleva exponencialmente os gastos com previdência a longo prazo, pressionando os déficits.

Enfim, as moedas, agora sem lastro, mediante rombos fiscais cada vez mais latentes (e sem a aparente disposição dos governos em corrigi-los) começam gradativamente a levantar a desconfiança do público em geral em relação à rolagem desses endividamentos superlativos.

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A seguir, os números mostram que a entrada do Governo Trump iniciou uma era de instabilidade - por enquanto, ainda leia-se mais volatilidade do que necessariamente uma depreciação generalizada dos ativos. Ele assume a presidência dos EUA em um momento particularmente difícil, com duas guerras importantes ocorrendo simultaneamente: Rússia versus Ucrânia e a ocupação da Faixa de Gaza por Israel. Além disso, em abril/25, Trump, no chamado Liberation Day, surpreende o mundo com o anúncio de tarifas de importação impostas para todos os países do globo. A seguir, várias nações retaliam, criando um clima de muita insegurança econômica.

Adicionalmente, os EUA voltaram a ser atores efetivos em questões geopolíticas. Em julho, houve o bombardeio às instalações nucleares ao Irã (que já “trocava” mísseis com Israel). No começo de 2026, verificou-se a “cinematográfica” captura do ditador Nicolas Maduro na Venezuela, precedida do lançamento de bombas de distração. Além desses países, foram alvos de bombardeio norte-americano no último ano a Síria, Iraque, Nigéria, Iêmen e Somália, em ações justificadas por Washington como “parte do combate ao terrorismo internacional e ao narcotráfico”. Nações como Colômbia e Cuba foram publicamente ameaçadas.

Porém, a mais grave das ameaças ainda está por vir. O desejo declarado do governo Trump em tomar posse da Groenlândia tira o sono dos aliados da Europa, com o pesadelo se transferindo, mais particularmente, para a unidade da OTAN. O temor geopolítico também paira pelo planeta.

Ressalte-se que, em “tempos de guerra”, onde bens são congelados pelo mundo (o caso da Rússia, Irã e Venezuela são os casos mais proeminentes), deter ouro físico é também uma garantia contra confiscos.

Enfim, o mundo parece estar de cabeça para baixo, com as cartas misturadas e com os EUA sendo foco irradiador de tensão. Não é à toa que os investidores começaram a sair do dólar em 2025. O índice DXY (dólar versus uma cesta de moedas) perdeu 10% no ano que se encerrou, sendo o outro lado da moeda relativa à alta do ouro.

Muitos bancos centrais que, por prudência, sempre visam diversificar reservas, saíram de ativos dolarizados para “comprar” a segurança do ouro, em meio à insegurança econômica e geopolítica vigente. O movimento, pelo tamanho e intensidade, se assemelha a uma manada de elefantes que se move lentamente, causando forte variação de preços. Estimativas recentes indicam que, aproximadamente, 40% das reservas dos BCs estão aplicadas em ativos dolarizados, 25% em ouro, 25% em outras moedas e 10% nos demais ativos. O que chama a atenção é que a parcela do ouro correspondia somente à metade (por volta de 13%) desse total até a saída da pandemia em 2021. Dobrou a participação desde então. Enquanto isso, o segmento dolarizado, que atingia a mais de 50% do bolo, caiu fortemente.

Muito interessante notar que, historicamente, em momentos de exacerbação de risco, dólar e ouro oscilavam conjuntamente para cima, como instrumentos clássicos de proteção. Hoje, os movimentos são contrários, com o ouro claramente sobrepujando e até substituindo o dólar como reserva de valor. Com o mundo ficando mais perigoso em todos os sentidos, tendo os EUA como gerador principal de instabilidade, essa tendência não deve se reverter, ao menos no curto prazo.

Alexandre Póvoa (alexandre.povoa@metaam.com.br), estrategista da Meta Asset Management e autor dos livros: Valuation, Como Precificar Ações e Mundo Financeiro, o Olhar de um Gestor.


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