A emergente guerra por protagonismo na inteligência artificial
Redação Capital Aberto

As grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos continuam fazendo barulho neste conturbado começo de 2023. Primeiro, chamaram atenção pela leva de demissões que custou o emprego de milhares de pessoas, com a justificativa de busca de eficiência, diante de resultados mais fracos ao longo do último ano. Porém, em questão de semanas, o “inverno das techs” praticamente se tornou um tema secundário. O foco das discussões passou para as novas estratégias dessas companhias, com o fim das restrições impostas pela pandemia de Covid-19 e as inovações em que elas estão apostando. A bola da vez agora se chama inteligência artificial (IA).
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O termo foi utilizado pela primeira vez na década de 1950 e, de lá para cá, o imaginário popular foi alimentado com uma visão apocalíptica dessa tecnologia, seja na literatura de ficção ou no cinema. A narrativa do robô inteligente que ganha vida própria e se volta contra o seu criador nunca saiu de moda, mas a verdade é que a inteligência artificial já faz parte do nosso dia a dia há algum tempo e, aparentemente, de forma inofensiva. Assistentes virtuais, aplicativos de reconhecimento facial e lares inteligentes são alguns exemplos cotidianos, mas a IA também já possui diversas aplicações na medicina e na área de segurança.
Desta vez, o tema ganhou um protagonismo inédito e, ao que tudo indica, definitivo. O divisor de águas foi o ChatGPT, poderoso chatbot capaz de responder a perguntas de alto nível, compor músicas, poemas e até criar textos acadêmicos, a partir de comandos do usuário. A tecnologia foi desenvolvida pela OpenAI, uma startup do Vale do Silício co-fundada por Elon Musk, e lançada em novembro do ano passado. Em pouco tempo, se tornou o terror dos educadores, com o relato de diversos estudantes que estariam usando a tecnologia para fazer as tarefas de casa. Na Colômbia, um juiz utilizou a ferramenta para redigir uma sentença.
Primeiros combatentes
As polêmicas não impediram que a Microsoft decidisse integrar a tecnologia do ChatGPT ao seu buscador, o Bing, e ao seu navegador, o Edge, turbinando ambas as ferramentas, que gozavam de pouca popularidade diante da liderança absoluta do Google em termos de ferramenta de pesquisa. A Microsoft é parceira da OpenAI há pelo menos quatro anos, quando investiu 1 bilhão de dólares na startup e passou a auxiliá-la com equipamentos e outras formas de suporte desde então. A novidade impressionou o mercado.
“Vemos isso como um ponto de inflexão, não apenas para as ferramentas de busca da Microsoft ou para os produtos da empresa em geral, mas para a indústria de tecnologia de maneira ampla”, escreveram os analistas do Goldman Sachs, em relatório sobre os lançamentos da empresa de software.

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Menos de 24 horas depois do anúncio da Microsoft, a Alphabet contra-atacou, anunciando sua própria ferramenta de busca baseada em inteligência artificial, o “Bard”, que deve entrar em operação dentro de algumas semanas e funciona de modo semelhante ao ChatGPT. Mas a controladora do Google não conseguiu causar a mesma primeira impressão positiva de sua concorrente. Em vídeo publicado nas redes sociais para divulgar a novidade, internautas notaram que “Bard” dava respostas imprecisas — e a repercussão negativa afetou diretamente as ações da Alphabet, que caíram mais de 7% no último dia 08.
Os analistas observam que o Google não enfrenta concorrência há pelo menos uma década. Com a tecnologia do ChatGPT associada ao buscador da Microsoft, a controlada da Alphabet poderia ver sua principal fonte de receita secar. O Itaú BBA batizou o embate de “guerra da inteligência artificial”, uma disputa que estaria apenas começando. “Verdade seja dita, esse assunto é difícil, tem muita coisa a ser digerida e está tudo muito dinâmico. Mas em resumo, acho que estamos no início de uma corrida forte em IA”, diz o relatório da casa.
Pontos de interrogação
Outros “combatentes” já começam a pipocar, e em outras partes do mundo. A Baidu, dona da principal ferramenta de busca da China, anunciou que está trabalhando em sua própria tecnologia nos moldes do ChatGPT, o Ernie Bot — não disse, contudo, quando a novidade será lançada. A Alibaba, gigante chinesa do comércio eletrônico, já confirmou que trabalha no desenvolvimento de uma inteligência artificial. E, também neste caso, a data de lançamento e os recursos que a tecnologia vai oferecer ainda são um mistério.
Igualmente desconhecido é o impacto dessas novas tecnologias em outros setores da sociedade. À primeira vista, a inteligência artificial parece ser capaz de substituir a mão de obra humana de uma forma que nenhuma outra inovação conseguiu até hoje, em diferentes áreas. O ChatGPT e seus concorrentes também chegam em plena era de combate à desinformação, em que as fake news circulam a torto e a direito pela mesma internet onde as novas ferramentas coletam suas informações. Nada de errado em celebrar o potencial transformador dessas tecnologias. Mas é bom ter cuidado: os possíveis efeitos nocivos tampouco deverão ser ignorados.
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