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Um novo olhar sobre o MST

Paula Lepinski

Novo olhar do mercado financeiro sobre o MST
João Paulo Pacífico, CEO da Gaia, escreveu um artigo contando o que incentivou a securitizadora a trabalhar ao lado do MST — e o preconceito que enfrentou no processo | Imagem: pch.vector - freepik

O último mês de setembro foi marcado por uma operação inovadora no mercado de capitais, que resultou na captação de 17,5 milhões de reais via certificados de recebíveis do agronegócio (CRAs) para cooperativas ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Passado o período de silêncio exigido pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o CEO da Gaia Securitizadora, responsável por estruturar a operação, foi até as redes sociais compartilhar a sua visão sobre a inusitada emissão. Em seu perfil pessoal no LinkedIn, João Paulo Pacífico escreveu um artigo intitulado “Chorei por causa do MST”, contando o que incentivou a Gaia a trabalhar ao lado do movimento — e como o preconceito impediu, até agora, o mercado de enxergar a realidade do MST e apoiar a agricultura familiar. 

“Mesmo com as ameaças de gente mandando recado que não iria mais trabalhar com a Gaia, decidimos dar um enorme passo. O mercado financeiro é elitista! Foi feito para ricos investirem melhor, para ricos receberem os recursos”, escreveu Pacífico. O trabalho da Gaia envolveu dezenas de reuniões e visitas aos assentamentos que, nas palavras de Pacífico, são agroindústrias organizadas e impressionantes, responsáveis por grande parte da produção de orgânicos no Brasil — bem diferente do que ele próprio imaginava. 

Em seu relato, o CEO da Gaia destaca inúmeras tentativas de boicotes e a dificuldade em encontrar um escritório de advocacia que aceitasse ajudá-lo na estruturação da oferta — desafio que, no fim, foi aceito pelo Veirano Advogados e que exigiu um ano de intenso trabalho. “As grandes empresas que captam recursos no mercado financeiro têm enormes departamentos financeiros e jurídicos, mas estamos falando de cooperativas de agricultores familiares”, relata. 

Após vencer essa corrida de obstáculos, o sentimento, descreve Pacífico, é de gratidão e dever cumprido. “Ao fim da operação, chorei ao lembrar dos rostos das pessoas que nos receberam com tanto carinho, mas que são diariamente julgadas por uma sociedade que não os conhece. Chorei ao lembrar das milhares de pessoas que se engajaram para criar essa revolução no mercado financeiro”. 


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Convite à reflexão

Como era de se esperar, o depoimento emocionado de Pacífico gerou “barulho” nas redes sociais. O artigo já conta com mais de 340 comentários de pessoas ligadas ao MST e de participantes dos mercados financeiro e de capitais. “Confesso que pertenço ao grupo que, sem saber praticamente nada, era contra o movimento. E hoje, graças a você, enxergo que meu posicionamento era ignorante e injusto”, afirma Renata Bove Pagni, fundadora e sócia da consultoria Better Teams Better Results e professora na Barcelona Executive Business School.  

Outros leitores se mostraram mais céticos. “Realmente a história é linda, emocionante, conveniente. Mas eu estou do outro lado, o lado ignorante, que até então só conhecia a corrupção e movimentos de invasão, e me questiono sobre o conto de fadas declamado. Essas famílias vivem em terras cedidas ou invadidas? Conte mais sobre esse lado da história”, provoca Larissa Subtil, cofundadora e CFO da Score Media.  

Em seu texto, Pacífico não se aprofunda nas controvérsias envolvendo o MST no passado, mas frisa que “seres humanos acertam e erram diariamente”, e que ele “não está aqui para julgar”, mas para avançar em causas que defende — entre elas, o combate à desigualdade social e a proteção ao meio ambiente. O CEO da Gaia também dedica algumas linhas para esclarecer questões de cunho jurídico sobre a desapropriação de terras para fins de reforma agrária, citando o art. 186 da Constituição. “Não é roubo, já que há recompensa financeira [ao proprietário da terra] nessa transação. Basta o proprietário fazer sua terra rural produzir para que não seja objeto da reforma agrária”, observa. 

E já antecipando que o artigo causaria polêmica, Pacífico ressalta o propósito que o levou a escrever: “não quero que as pessoas concordem comigo, mas que reflitam”, afirma. Um convite essencial em tempos de intensa polarização de ideias.

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