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O futuro promissor da indústria global de Cannabis 

Paula Lepinski

O futuro promissor da indústria de Cannabis
Somente nos Estados Unidos, as empresas de

controversa Cannabis deu mais um importante passo nmercado americanoO governo do Estado de Nova York aprovou, em 31 de março, a legalização do uso recreativo de maconha por adultos com mais de 21 anos. A decisão vem na esteira de outros marcos regulatórios estaduais nos Estados Unidos favoráveis a essa indústria em ascensão   são 26 estados que permitem o uso medicinal da planta e 15 os que autorizaram o uso recreativo. Ainda que a proibição no âmbito federal represente desafios para o setor, analistas, investidores e outros participantes do mercado apostam firme no impulso vindo de um salto na demanda. 

“Há anos algumas gigantes mundiais estão se preparando e investindo indiretamente no setor, prontas para quebrar barreiras e tabus ao redor da Cannabis e do cânhamo”, afirma Matheus Patelli, diretor-executivo da filial brasileira da HempMeds, empresa pioneira na importação e distribuição de medicamentos à base de derivados de maconha. O entusiasmo aumentou com a eleição de Joe Biden para a presidência dos Estados Unidos e de Kamala Harris para o cargo de vice. A sinalização do governo democrata em prol da legalização abriu espaço para que as empresas do setor voltassem ao radar do mercado.

De acordo com a Euromonitor International, a maconha lícita movimentava 12 bilhões de dólares em 2018, o equivalente a apenas 8% do mercado globalPois esse montante deve ser multiplicado nos próximos anos, para chegar a 166 bilhões de dólares em 2025. Só nos Estados Unidos, segundo a consultoria New Frontier Dataa indústria deve girar 30 bilhões de dólares daqui a quatro anoscom crescimento dos segmentos farmacêutico e recreativo de 17% e 16% ao ano, respectivamente. 

A expectativa das consultorias é de que o avanço regulatório em âmbito internacional permita a expansão acelerada da indústria. Em dezembro de 2020, um indicativo claro da mudança de perspectiva em relação à planta foi a decisão da Organização das Nações Unidas (ONU) de retirar a maconha e as resinas de Cannabis da Lista 4 da Convenção sobre Drogas de 1961, que inclui substâncias consideradas “particularmente suscetíveis a abusos e à produção de efeitos danosos“ e “sem capacidade de produzir vantagens terapêuticas”. Ainda que por uma vitória apertada, de 27 votos a 25, a ONU reconheceu as propriedades medicinais e terapêuticas, seguindo uma recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) feita em janeiro de 2019. 

Investimento de longo prazo

A maior parte das companhias abertas do setor está listada em apenas dois países — Canadá, que legalizou o consumo e a produção em 2018, e Estados Unidos. Não por acaso, a primeira empresa de Cannabis a estrear no mercado de capitais americano, naquele mesmo ano, foi a canadense Tilray, que atua tanto em produção quanto em distribuição. Desde então os EUA observaram o aumento do interesse por empresas do setor, à medida que mais pesquisas reforçam os benefícios da transição para o comércio legal de Cannabis nas áreas social, econômica e de saúde. 

O otimismo de investidores já tem gerado retornos atrativos. A gestora Vitreo, que faz parte do grupo seleto de assets brasileiras com fundos focados no mercado internacional de Cannabis, viu o Cannabis FIA IE se valorizar 123,3% entre 25 de outubro de 2019 e 1º de março de 2021. Na carteira, estão algumas das companhias abertas com maior valor no mercado acionário — Canopy GrowthCureleaf Holdings e Green Thumb Industries. “Em 2021, o fundo já acumula alta de 45% entre janeiro e março”, afirma George Wachsmann, sócio-fundador da Vitreo. 


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Também há evidências de que investidores institucionais estão cada vez mais confortáveis com o setor. Somente nos Estados Unidos, as empresas de Cannabis levantaram mais de 1,6 bilhão dólares em janeiro deste ano, de acordo com uma análise da MJResearchCo. O movimento é um indicativo de que a escassez de investimentos que começou em 2019 e acentuou em 2020 com a pandemia de covid-19 pode se transformar em um fluxo intenso de capitais, similar ao observado em 2018. Entre as beneficiadas pelo apetite renovado do mercado está a plataforma de e-commerce Dutchie — a empresa captou 200 milhões de dólares em rodada de série C, concluída em março, e atingiu valuation de 1,7 bilhão de dólares. Segundo o PitchBook Data, o valor é oito vezes maior do que em agosto de 2020, o que coloca a Dutchie entre as mais valiosas startups de Cannabis apoiadas por capital de risco. 

Desafio regulatório 

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O futuro desse mercado, entretanto, tem muitos obstáculos. O investimento em Cannabis ainda é altamente arrojado, dadas as incertezas jurídicas. À medida que a indústria cresce e evolui, ela precisa se adaptar ao avanço de leis que discorrem sobre a legalidade, o uso, o cultivo e a distribuição. Considerando que cada país ou estado tem a própria regulamentação e está em um estágio diferente da discussão sobre possíveis mudanças, o desafio para empresas e investidores é imenso. 

O país que mais atrai a atenção é, sem dúvida, os Estados Unidos. Em dezembro, os deputados aprovaram o More Act, projeto de lei que propõe a legalização da maconha em todo o paísO texto ainda precisa ser aprovado pelo Senado para, depois, o projeto ser promulgado como lei pelo presidente Joe Biden.As 100 cadeiras [do Senado] estão preenchidas por 50 senadores republicanos e 50 democratas. Mas isso não é um empate, porque o voto de minerva é da vice-presidente Kamala Harris, que é relatora do projeto”, avaliam os analistas da Vitreo em relatório. 

Outra pauta que corre em paralelo no Congresso americano é o Safe Banking Act, projeto de flexibilização bancária para companhias do setor de Cannabis. A nova lei permitirá que empresários dessa indústria tenham acesso a crédito, custódia e serviços habituais de instituições financeiras, como quaisquer outros empreendedores. “A aprovação do Safe Banking Act vai facilitar até operações que deveriam ser simples, como a arrecadação de impostos, que atualmente é feita por meio de dinheiro vivo nos Estados Unidos”, destaca Viviane Sedola, fundadora e CEO do Dr. Cannabis, plataforma que conecta três mil médicos a cerca de 30 mil brasileiros que procuram o tratamento com maconha medicinal. 

Wachsmann, da Vitreo, também menciona o avanço do México nessa seara. Em março, os legisladores locais aprovaram um projeto de lei para legalizar a maconha recreativa, um marco para o país, há anos envolvido numa guerra às drogas. “Se o projeto passar pelas outras instâncias antes dos Estados Unidos, o México, que tem 127 milhões de habitantes, pode se tornar o maior mercado de maconha do mundo”, afirma Wachsmann. 

Mais timidamente, outras economias estão acenando favoravelmente à legalização da planta e seus derivados, com o objetivo de aumentar o controle e a taxação desses produtos. Em dezembro de 2020, a Euromonitor identificou três países que devem ser acompanhados de perto: Alemanha, Reino Unido e Austrália. 

Brasil e o PL 399/15 

No Brasil, o acesso à maconha medicinal é permitido desde janeiro de 2015 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Até o primeiro semestre de 2020, 18.358 pacientes acumulavam quase 25 mil autorizações para importação de fitofármacos à base de canabidiol (CBD), segundo dados divulgados pela agência. Em 2019, para facilitar a aquisição desses produtos, a Anvisa também autorizou a fabricação e comercialização em farmácias e drogarias de todo o País — mas, até o momento, a única farmacêutica brasileira a conseguir permissão da agência para disponibilizar os seus produtos nas prateleiras é a Prati-Donaduzzi.

A passos lentos, tramita na Câmara o projeto de lei 399/15, que está aguardando o parecer do relator na comissão especial. A ementa propõe a legalização do cultivo da planta por pessoas jurídicas, tanto para fins medicinais de uso humano quanto veterinário, e a alteração do art. 2º da Lei 11.343/06 para viabilizar a comercialização de medicamentos que contenham extratos, substratos ou partes da planta Cannabis sativa em sua formulação. 

Alessandra Nascimento S. F. de Mourão, sócia do Nascimento Mourão Advogados e professora de Direito na Fundação Getúlio Vargas, reforça que o trabalho individual de cada um em seu setor é importante, porque existem diversos desafios. “O uso recreativo é apenas um dos segmentos que compõem esse mercado, mas levou à situação que temos hoje — de proibição completa. A Cannabis tem uso não só na indústria farmacêutica, mas também nas indústrias têxtil, alimentícia, de construção civil, cosmética. Os dois maiores obstáculos para o Brasil expandir esses setores são desinformação e preconceito”, completa. 

 

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