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ABVCAP e KPMG lançam guia ESG para capital privado sob recuo da CVM

Alexandre Inacio

A ABVCAP e a KPMG escolheram junho de 2026 para publicar o "Guia ESG para Investimentos Alternativos". O momento é, no mínimo, delicado: menos de duas semanas antes, a CVM havia editado a Resolução n.º 244.

A norma revogou a obrigatoriedade de divulgação de informações financeiras de sustentabilidade pelas companhias abertas. O lançamento do guia e o recuo regulatório chegaram praticamente juntos ao mercado.

O documento tem escopo preciso. Não é um guia genérico de mercado de capitais, mas um roteiro voltado especificamente para gestoras de private equity, venture capital, crédito privado e infraestrutura.

O recorte importa porque os investimentos alternativos têm dinâmica própria: ativos ilíquidos, ciclos longos e dependência de dados das empresas do portfólio. Sem essas informações, o reporte a limited partners (LPs) perde credibilidade.

ESG e os investimentos alternativos

O material percorre todo o ciclo de investimento, da triagem ao desinvestimento. Orienta a formulação de políticas ESG integradas ao Environmental & Social Management System (ESMS).

Aborda due diligence ambiental e social, elaboração de planos de ação (ESAPs) e monitoramento de indicadores de desempenho (KPIs). Para cada etapa, indica quais parâmetros internacionais se aplicam.

O guia contextualiza para o mercado brasileiro frameworks como PRI, IFC Performance Standards, GRI, SASB, TCFD e TNFD. A adaptação à realidade local é um dos diferenciais apontados pelos autores.

Priscila Rodrigues, presidente da ABVCAP, resume o argumento central: os LPs estão mais exigentes quanto a um ESMS sólido. "Esse material é de leitura fundamental para os profissionais da área", afirmou.

Para o sócio de capital advisory da KPMG no Brasil, Cláudio Graeff, a gestão socioambiental requer engajamento da liderança e designação de responsabilidades. Mensuração de métricas e tecnologia são condições necessárias para implementação consistente.

Contradição regulatória da CVM

O problema é que o terreno regulatório mudou exatamente quando o guia chegou ao mercado. A Resolução CVM n.º 193/2023 havia posicionado o Brasil como o primeiro país a incorporar obrigatoriamente os padrões IFRS S1 e S2.

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A exigência valeria para companhias abertas a partir de 2026. A Resolução n.º 244, de 29 de maio, desfez essa obrigação. O reporte passou a ser voluntário, sob a justificativa de respeitar a liberdade das entidades para avaliar custos e benefícios.

Para o universo de investimentos alternativos, o efeito prático é incômodo. Gestoras dependem de dados auditados das investidas para monitorar KPIs, elaborar ESAPs e responder às exigências dos LPs.

Sem obrigatoriedade, a qualidade dessas informações passa a depender da disposição de cada empresa. O guia orienta processos que precisam dessas informações para funcionar.

A norma introduziu uma trava: quem optar pelo reporte voluntário deve mantê-lo por ao menos três exercícios consecutivos. É uma forma de evitar adesões oportunistas, mas não resolve o problema de cobertura.

Agenda ESG independente

O recuo da CVM não encerra a pressão ESG sobre gestoras de ativos alternativos. A origem dessa pressão, em boa medida, nunca foi doméstica.

O SFDR europeu classifica fundos nos Artigos 6, 8 e 9, distinção que afeta gestoras que captam junto a investidores do Espaço Econômico Europeu. LPs europeus tendem a priorizar veículos enquadrados nessas categorias.

No Brasil, a ANBIMA mantém parâmetros de transparência para fundos que se declaram ESG, com supervisão contínua e enforcement. Listas de exclusão setorial e KPIs atrelados à remuneração variável são critérios correntes na seleção de gestores por LPs globais.

ESG para fundos alternativos

O guia também identifica oportunidades abertas pela agenda ESG. A transição energética — renováveis, armazenamento e hidrogênio verde — é o principal vetor. O movimento é sustentado por bancos de fomento, blended finance e demanda corporativa por energia limpa.

O SBCE, pela Lei n.º 15.042, cria demanda por projetos de mitigação e offtake de créditos de carbono. O agtech e soluções baseadas na natureza são eixos adicionais, favorecidos pelo Plano ABC+.

Inteligência artificial e blockchain apoiam o reporte e a rastreabilidade nas cadeias produtivas. Relevância que tende a crescer num cenário em que a pressão ESG virá cada vez mais do mercado, não da regulação.


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