‘Seca' de exits redesenha planos do private equity e venture capital
Amanda Meneses

Mercado privado passa por desafios há alguns anos em relação à saída dos investimentos. A dificuldade, que antes assolava o private equity, também passou a afetar players de venture capital.
Segundo executivos, há muita oportunidade no mercado, no entanto, o capital reduzido barra as alocações, que precisa de mais previsibilidade para voltar a fluir, mirando direcionar fluxo para teses como infraestrutura e IA.
Piero Minardi, vice-presidente da ABVCAP, lembra que é necessário separar o cenário de curto prazo, em que há capital vindo para a bolsa, mas que não necessariamente é o recurso que ajudará os fundos de private equity a sair dos investimentos.
“Ele deveria ser um primeiro sinal de capital que vem e abre a porta para outros, mas ainda está cedo para dizer se é esse o caso”, opina o executivo.
Para ele, a notícia do recente IPO da Compass, após anos de “seca”, é positiva, mas é preciso ter cautela, visto a alta incerteza no mercado e o ambiente interno conturbado, com altas taxas de juros que tendem a cair com maior lentidão que o previsto inicialmente, ainda exigem análises mais profundas.
Oportunidades para o private equity
Esse cenário, inclusive, contrasta com as oportunidades de alocação que surgem em meio à volatilidade. Se por um lado a alta de juros desafia o mercado, por outro, com empresas endividadas e uma menor busca ou acesso aos bancos, abrem-se oportunidades para estruturas de equity.
“Tem um outro lado, mas é um momento difícil e a tendência é que a coisa fique meio parada até o segundo semestre”, prevê Minardi, acrescentando que há um dinamismo da economia brasileira, mas que é difícil levantar capital para equity agora porque o investidor prefere alocar em NTN-B.
Essa dificuldade também foi vista pelos fundos de venture capital, que investem em estágios mais iniciais. Segundo executivos, o ciclo de liquidez ficou mais difícil nos últimos anos, com redução do apetite por risco e alongamento dos prazos para IPOs. Isso tornou compradores estratégicos mais seletivos.
“Isso afetou diretamente as saídas, tanto em frequência quanto em valuation. No VC, especialmente nos estágios iniciais, o investimento já nasce com um horizonte mais longo. A liquidez não depende apenas de uma janela de mercado aberta no curto prazo”, diz Antonio Patrus, Diretor da Bossa Invest, dizendo que o nível de exigência subiu.
A visão é similar para Oscar Decotelli, CEO e fundador da DXA Invest. Em sua análise, Decotelli aponta que o aperto nas saídas de private equity também chegou ao venture capital e talvez até com mais força, tornando compradores estratégicos mais cautelosos e mercado secundário com descontos relevantes.
Isso tem levado muitos fundos a alongarem prazos, fazerem saídas parciais e considerarem estruturas como continuation funds.

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“Ao mesmo tempo, esse ambiente difícil abre uma janela interessante de entrada no Brasil. Vejo o país negociando com um desconto relevante versus mercados desenvolvidos, especialmente em ativos privados”, diz o executivo, apontando os setores de infraestrutura regulada, special situations e ativos ligados ao novo posicionamento geopolítico do Brasil.
Um levantamento da ABVCAP sobre o mercado privado aponta que durante 2025 as teses que se sobressaíram no número de investimentos em PE foram os serviços financeiros (21,1%), seguidos de produtos de consumo e serviço (20%), indústria (15,6%) e tecnologia da informação (15,6%).
Já no VC, no mesmo período, destacaram-se tecnologia da informação (52,04%) e serviços financeiros (23,47%). No entanto, em ambas as frentes também há espaço para teses mais recentes que estão sob os holofotes do mercado, como IA e minerais críticos.
Para a Bossa, a inteligência artificial já está no centro da agenda do venture capital, “porque não se trata apenas de uma tecnologia isolada, mas de uma camada que começa a transformar praticamente todos os setores, de software e produtividade a saúde, educação, finanças, indústria e defesa”.
No caso dos minerais críticos, o gestor vê a dinâmica mais próxima de private equity, infraestrutura e capital intensivo, porque envolve cadeia produtiva, energia, logística, regulação e projetos de longo prazo.
Ainda assim, há espaço para venture capital nas tecnologias que orbitam esse mercado, como rastreabilidade, eficiência energética, novos materiais, automação, análise geológica, softwares industriais e soluções ligadas à transição energética.
A casa destaca, no entanto, que olha essas teses com interesse, mas com disciplina. “Exige cuidado para separar empresas que usam o tema apenas como narrativa”, diz Patrus.
Já para a DXA, em IA, no Brasil, a oportunidade mais clara não é necessariamente investir em startups de IA, mas no “picks and shovels”: data centers, energia, fibra, refrigeração e infraestrutura.
“Já minerais críticos me parecem uma tese estruturalmente mais clara para private equity, porque envolve ativos reais, demanda estratégica global e potencial comprador na saída”, opina Decotelli.
Segundo ele, no fundo, essas grandes tendências não são um problema para o PE brasileiro e podem ser justamente a chance de reinvenção do setor nos próximos anos.
Mirando essas oportunidades, a casa começou, há cerca de dois anos, a expandir para fora do Brasil, em especial para os Estados Unidos. A DXA fez cerca de 10 investimentos em várias empresas relacionadas à AI nesse período.
“No Brasil, a primeira coisa que começamos a fazer foi trazer AI para dentro das empresas que são mais tecnológicas das quais somos investidores, como no caso da B4A”, conta. Os players miram essas estratégias, mas com cautela. O cenário ainda é de volatilidade e guarda mais surpresas para o ano, como as eleições, e obstáculos já previstos: juros em patamar ainda restritivo. A expectativa é que, com mais previsibilidade, o cenário melhore para os fundos, o que não deve ocorrer a curto prazo.
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