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Fundos de private equity esticam prazos diante de travas nos exits

Alexandre Inacio

O mercado global de private equity atravessa um dos períodos mais desafiadores desde a crise financeira de 2008. Fundos que realizaram investimentos relevantes entre cinco e sete anos atrás enfrentam, neste momento, um ambiente mais restritivo para a realização de saídas, seja por meio de IPOs, seja via operações de fusão e aquisição.

A combinação entre juros elevados, menor liquidez global e desempenho operacional abaixo do esperado em diversas empresas investidas alterou de forma estrutural a dinâmica de reciclagem de capital do setor.

Advogado Rodrigo Baraldi, consultor e conselheiro em M&A

Segundo o advogado Rodrigo Baraldi, consultor e conselheiro em M&A, esse movimento não é recente e agora atinge seu ponto máximo. “Esse cenário não é de hoje. A gente chega meio que no auge dele”, afirma.

Fundos montados no período pré‑pandemia projetavam janelas de saída compatíveis com o prazo padrão de seis a sete anos, mas foram impactados por um ambiente macroeconômico adverso, marcado por inflação persistente, políticas monetárias restritivas, volatilidade cambial e choques geopolíticos recorrentes.

Nesse contexto, muitas empresas não atingiram os níveis de crescimento e rentabilidade originalmente previstos. “As empresas não performaram como deveriam performar por essas questões, e os fundos começaram a encontrar dificuldade de sair”, diz Baraldi.

Ao mesmo tempo, investidores passaram a priorizar ativos com maior previsibilidade e liquidez. “O dinheiro ficou mais escasso, e houve outras opções de investimento que geravam maior segurança e melhor liquidez do que os private equities”, completa.

O diagnóstico é coerente com o mapeamento apresentado no estudo da Institutional Limited Partners Association (ILPA) sobre fundos de continuação.

Alternativas para o private equity

O documento aponta que a combinação entre dificuldade de exits tradicionais, pressão por geração de liquidez e a maturidade de ativos relevantes tem impulsionado o uso crescente de estruturas alternativas, especialmente os continuation funds, como ferramenta para lidar com o descompasso entre ciclo econômico e ciclo dos fundos.

Como resposta a esse ambiente, gestores vêm adotando estratégias de adaptação. A primeira delas é o alongamento do prazo dos veículos. “Eles estão ficando mais tempo dentro das empresas”, explica Baraldi.

Outra alternativa são as saídas parciais, estratégia amplamente observada pelo mercado e detalhada no estudo da ILPA. Nesses casos, o fundo vende uma parcela minoritária da participação, gera liquidez para os cotistas e mantém o restante do investimento.

“O fundo tem 15% ou 20% de participação, liquida 5%, paga os cotistas e alonga o restante”, descreve.

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O estudo da ILPA ressalta que, embora essas estruturas ampliem a opcionalidade, elas trazem conflitos inerentes, uma vez que o gestor atua simultaneamente como vendedor e comprador do ativo.

Por isso, o documento recomenda que transações desse tipo tenham como princípio central a maximização de valor para os investidores existentes, com processos competitivos, validação independente de preço, ampla divulgação de informações e participação ativa do LP Advisory Committee (LPAC).

Paralelamente, observa‑se um movimento intenso de consolidação no topo do mercado global. Diferentemente de ciclos anteriores, as grandes transações recentes têm ocorrido entre empresas já consolidadas, com operações bilionárias envolvendo conglomerados globais.

“O que está acontecendo são grandes com grandes se unindo”, afirma Baraldi. Segundo ele, diante de um cenário macroeconômico mais complexo, companhias preferem unir forças a competir por participação de mercado.

Esse fenômeno tem impacto direto sobre o private equity. Ao concentrar esforços em fusões estratégicas de grande porte, corporações deixam de atuar como compradoras naturais de ativos do middle market, rota tradicional de saída dos fundos.

“Eu tiro os players estratégicos que comprariam essas operações dos fundos de private equity”, afirma Baraldi, destacando o efeito indireto sobre as alternativas de desinvestimento.

No Brasil, embora o país ainda não esteja no centro dessas megaoperações globais, os efeitos tendem a se materializar com defasagem. “A gente sempre está atrás, com um delay de um ano, um ano e meio”, diz Baraldi.

Setores como data centers, logística e tecnologia já demonstram sinais de consolidação, impulsionados por movimentos globais e por demandas estruturais do mercado local.

Apesar do ambiente pressionado, a expectativa é de transição para um novo ciclo. A possibilidade de queda gradual dos juros tende a reabrir espaço para investimentos em ativos de maior risco.

“Com a tendência de baixa de juros e de melhora de cenário, o investidor vai entender que vale a pena correr o risco”, avalia Baraldi. O estudo da ILPA reforça que esse movimento pode destravar capital novo para o setor, ainda que com estruturas mais conservadoras.

Os critérios de investimento, contudo, mudaram de forma estrutural. “Os investidores estão mais criteriosos, buscando sustentabilidade”, afirma Baraldi.

Crescimento desacompanhado de geração de caixa perdeu relevância, e múltiplos elevados passaram a ser questionados. “Esses múltiplos que a gente via lá atrás não vão acontecer de novo no curto nem no médio prazo”, afirma.

Para o private equity, o momento atual representa uma fase de reacomodação entre ciclos. Tanto as análises de mercado quanto as diretrizes da ILPA indicam que disciplina financeira, governança mais rigorosa e estruturas de liquidez mais sofisticadas devem moldar a atuação dos fundos nos próximos anos, redefinindo a relação entre gestores, investidores e o próprio ciclo de criação de valor.


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