O Subprime Brasileiro chegou?
Diz-se que Mark Twain tenha falado que a “história não se repete, mas rima”. Howard Marks frequentemente se refere a esta ideia em seus memos e livros, mencionando que embora a história não se repita exatamente, ela costuma apresentar padrões ou “rimas” que nos ajudam a entender os ciclos de mercado – inclusive, um dos melhores livros que já li sobre mercado financeiro¹.
Busco ter cautela e passar o máximo de tranquilidade nas lives que participo e nos artigos que público, pensando justamente que quero passar paz quando me comunico. Mas realmente tenho ficado preocupado com alguns ativos que tenho visto sendo vendidos para as pessoas físicas – especialmente CRs (Certificados de Recebíveis), CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários) e CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócios) – não vou entrar no mérito dos COEs (Certificados de Operações estruturadas) por que não acompanho este mercado de perto – mas como um todo as operações estruturadas indo para a mão das pessoas físicas, possivelmente sem o devido suitability sendo feito.
Crise do subprime e suas rimas com o mercado brasileiro atual
Uma analogia interessante pode ser feita com o livro The Big Short (A jogada do século: a história real do colapso financeiro, de Michael Lewis²), que retrata de forma detalhada como a crise do subprime nos Estados Unidos se desenvolveu a partir de produtos estruturados hipotecários, vendidos como extremamente seguros, mas que na realidade estavam repletos de riscos ocultos.
No enredo, poucos investidores enxergaram as falhas estruturais e aproveitaram a oportunidade de lucrar apostando contra o mercado. Esse cenário, em que títulos complexos e aparentemente rentáveis são colocados nas mãos de investidores pouco preparados, encontra paralelo no atual contexto brasileiro: CRs, CRIs e CRAs de menor porte, muitas vezes com estruturas intricadas e baixas garantias, estão sendo distribuídos para pessoas físicas que não compreendem plenamente os riscos assumidos.
Assim como no subprime americano, a “rima” atual envolve a probabilidade de inadimplência em larga escala caso haja qualquer abalo econômico, pois esses produtos dependem de variáveis específicas (setor imobiliário, agronegócio etc.) que podem sofrer fortes oscilações e, por consequência, expor os investidores a perdas significativas.
Oportunidade imperdível – só nas próximas 24 horas
Nos últimos anos, observamos o crescimento significativo de operações de CRI, CRA e CR no mercado brasileiro. Essas emissões, muitas vezes, chegam até o investidor de varejo por aquele influencer predileto – como uma oportunidade “imperdível”, com promessas de renda fixa superior à de títulos governamentais, atrelada à inflação ou ao CDI. No entanto, existe um risco considerável quando falamos de operações de menor porte, cuja liquidez e estrutura nem sempre são compreendidas por todos. Isso sem contar no acompanhamento de crédito / garantias que deve ser feito após a emissão dos títulos – coisa que a pessoa física do varejo não consegue (e nem tem tempo para fazer).
Nos últimos 2 anos surgiram opções de CRI e CRA de valores menores (e consequentemente com devedores com menor governança), e muitas dessas operações destinadas ao investidor de varejo. Mesmo que seja pelas vias não convencionais.
Por um lado, a democratização do acesso a novos produtos de renda fixa pode ser vista como positiva, mas do outro lado desta moeda muitas pessoas físicas acabam investindo ser ter pleno entendimento do: A) risco de crédito do devedor, B) estrutura legal e garantias (ou a falta delas), C) Liquidez do mercado secundário (ou a falta dela) e D) eventual subordinação e/ou complexidade de diferentes séries / tranches.
A crise do subprime, que teve seu ápice em 2008 nos EUA, pode servir de exemplo de como os produtos de crédito estruturado podem se tornar perigosos quando:
- Há uma euforia em excesso de demanda por ativos de maior rendimento
- Existem estruturas complexas (CDO, CLO, MBS etc.) que são a “capa” do risco final
- Investidores não conhecem com profundidade os ativos lastro
- Agências de classificação de risco podem falhar em avaliar corretamente o perigo
- Há pouca transparência em relação à qualidade e originação dos créditos O-2-D (Originate to distribute)
- Havia uma percepção geral que os ativos vendidos eram de alta qualidade
E isto se relaciona diretamente com os ativos estruturados que estão sendo vendidos no momento para as pessoas físicas de varejo no Brasil, mais ou menos de um ano para cá:

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- Há uma euforia em excesso de demanda por ativos de renda fixa de maior rendimento, dada a Selic nos patamares que está – e que pode chegar, conforme indicações do Banco Central
- Existem estruturas complexas (CRI, CRA, CR etc.) que são a “capa do risco final
- Investidores não conhecem com profundidade os ativos lastro – e posteriormente não conseguem fazer o acompanhamento da evolução destes ativos lastro
- A maior parte dos ativos subprime que estão sendo vendidos nem possuem classificação de risco
- Há pouca transparência em relação à qualidade e originação dos créditos
- Aqui nos diferenciamos dos EUA. Pessoas ligadas ao mercado financeiro ou ao mercado imobiliário conseguem perceber que estes ativos são high yield (e talvez devessem ser até mais high yield ainda, dadas condições) mas as pessoas físicas (por vezes influenciadas por “experts” do Instagram ou do Youtube) não conseguem perceber a fragilidade destes ativos
Impacto para o investidor pessoa física e para o mercado
A pessoa física que compra um CR (CRI, CRA ou CR) à CDI + 7% a.a. (exemplo fictício) não faz nem ideia que o devedor para obter lucro ter que ter uma TIR superior à 20% a.a. para poder pagar a sua dívida e ainda obter lucro, só que regularmente esta é a TIR objetivo dos incorporadores, por exemplo.
O fato é que a venda de ativos high yield para pessoa física (ainda mais se for O-2D) é uma prática um tanto quanto questionável, dado o histórico do Subprime nos EUA. Obviamente que caso aconteça algum impacto no mercado brasileiro, será bem menor que nos EUA, dado o mercado brasileiro possuir menos produtos disponíveis para “especular” contra o mercado, mas também por um mercado de capitais menos desenvolvido.
Entretanto, é preciso lembrar que “gato escaldado tem medo de água fria”, em outras palavras: se alguns investidores pessoa física perderem seus investimentos em ativos estruturados high yield, sejam eles CRI, CRA ou CR, e visão que terão é que estes produtos não prestam, e não necessariamente que aquele devedor ou estrutura que precisava de mais garantias ou um projeto mais robusto como “lastro”.
Reflexão para os participantes do mercado
Tenho pensado já há alguns meses em como tratar esse assunto, visto que realmente fiquei impressionado com a quantidade destes tipos de ativos indo para a mão de “milhares” de pessoas físicas – novamente, por muitas vezes influenciadas por “experts”.
Quero trazer a reflexão de todos do mercado para estes pontos.
Será que estamos caminhando para um subprime brasileiro? Como minha empresa pode evitar isso? Como fazer um suitability melhor na venda de produtos para meus clientes? Como estes influencers conseguem convencer tanta gente a entrar nestes ativos high yield e por vezes um assessor não consegue “indicar” um ativo de alta qualidade? O que podemos aprender com este “marketing”? Será a simples diferença de que nos EUA a percepção era geral de que os ativos eram sólidos e aqui, as pessoas do mercado financeiro perceberem como ativos de alto risco evita um subprime brasileiro? Como evitar que um possível stress em um destes ativos “manche” a imagem dos CRIs, CRAs e CRs que são distribuídos com um bom suitability feito (por dizer pela maior parte do mercado), para o público correto com taxas corretas e estruturas adequadas para aquele público?
Tenho a esperança de estar equivocado. Espero que esteja.
1 – MARKS, Howard. Dominando o ciclo de mercado: como reconhecer tendências para investir com segurança. 1. ed. São Paulo: Editora Gente, 2019
2 – LEWIS, Michael. A jogada do século: a história real do colapso financeiro. 1. ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2011
Felipe Ribeiro é sócio diretor de Investimentos Alternativos do Clube FII, atua apoiando a regulação e autorregularão de securitização do mercado desde 2012, e é autor do primeiro livro dedicado a FIIs de CRI no Brasil
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