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A influência dos acionistas de referência na governança das companhias de capital aberto

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Henrique Luz

O papel dos acionistas é cada vez mais relevante na discussão estratégica das companhias de capital aberto, constituindo-se em um dos indicadores do avanço da governança corporativa. A dinâmica da relação entre eles e as organizações é regida por legislações, princípios de mercado e boas práticas de governança que visam assegurar um equilíbrio entre os interesses de todos os stakeholders.

A presença de investidores institucionais e acionistas de referência tem transformado o cenário corporativo brasileiro, proporcionando benefícios e suscitando desafios. Os primeiros têm desempenhado missão importante na promoção de boas práticas de governança.

O código editado pela Associação Nacional de Acionistas do Mercado de Capitais (Amec) em 2016 é um marco nesse sentido. O documento estabelece princípios que norteiam o engajamento dos investidores institucionais, promovendo a cultura de stewardship no Brasil. Esses preceitos incentivam os investidores a participarem ativamente das decisões corporativas, garantindo que suas perspectivas contribuam para a criação de valor a longo prazo. Porém, para que essa relação seja eficaz, é fundamental que as empresas, especialmente as abertas, cultivem um bom relacionamento com esses acionistas. Neste aspecto, são cruciais o empenho do CEO, do diretor de Relações com Investidores e do presidente do Conselho de Administração, que devem atuar como facilitadores do diálogo.

Por outro lado, a legislação brasileira estabelece bases importantes para as relações entre acionistas e empresas. A Lei 6.404/1976, que regula as sociedades anônimas, apresenta normas amplas sobre direitos e deveres. No Artigo 115, fica evidente a obrigação dos acionistas de atuar com lealdade e respeito aos interesses da companhia. Os artigos 116 e 117 abordam o papel do acionista controlador e sua responsabilidade por eventuais abusos de poder, enquanto o Artigo 141 assegura direitos importantes aos minoritários, como a eleição em separado de membros do Conselho de Administração.

Contudo, a legislação não aborda explicitamente a figura do acionista de referência, cuja influência vem ganhando destaque no mercado brasileiro. Estes, geralmente com percentual relevante das ações votantes, desempenham um papel intermediário entre o controlador e os minoritários, podendo influenciar significativamente as decisões da companhia sem exercer o seu controle formal.

Os acionistas de referência são bastante comuns em mercados mais maduros, como os Estados Unidos e o Reino Unido, e estão se tornando mais frequentes no Brasil. Sua presença e atuação, se adequadamente exercidas e alinhadas às boas práticas de governança corporativa, podem proporcionar uma série de benefícios, como um efetivo monitoramento da administração, facilidade de acesso a capital e expertise em diversas áreas. Também podem ajudar a alinhar interesses entre stakeholders e contribuir para que a estratégia da empresa seja conduzida com foco no longo prazo.

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Entretanto, sua influência também pode gerar riscos. Por não serem sujeitos às mesmas obrigações legais impostas aos controladores, como as previstas nos Artigos 116 e 117 da Lei 6.404/1976, há a possibilidade de abuso de poder ou conflitos de interesse. Assim, é essencial o desenvolvimento de diretrizes claras para regular a atuação dos acionistas de referência no Brasil, definindo seus deveres e responsabilidades e reduzindo o risco de conflitos de interesses.

Com a instituição do Novo Mercado, em 2000, assistimos ao advento de um novo padrão de governança corporativa. No movimento de adesão ou migração das companhias para esse segmento, no qual é permitida apenas a negociação de ações ordinárias, muitos acionistas controladores tiveram sua participação diluída. Este fator levou ao surgimento de novos grupos relevantes de sócios, ainda que sem o controle efetivo da empresa.

A dispersão maior do capital ampliou a influência dos acionistas de referência e institucionais nas deliberações das assembleias gerais, incluindo a eleição de conselheiros, a aprovação de operações estratégicas e as decisões sobre distribuição de dividendos. Essas mudanças reforçam a necessidade de uma governança corporativa sólida para garantir a proteção dos interesses de todos os acionistas.

Para que os acionistas de referência e institucionais contribuam positivamente, é essencial estabelecer um equilíbrio entre influência e responsabilidade. Isso requer definição clara de papeis, engajamento estruturado e proteção aos interesses da companhia e dos demais acionistas e stakeholders.

As empresas, de sua parte, devem aprimorar suas práticas de relacionamento com investidores institucionais e acionistas de referência, promovendo um diálogo transparente e construtivo. Cabem medidas adicionais para garantir que os direitos dos minoritários e outros stakeholders sejam preservados, evitando que a influência de grandes acionistas se transforme em abuso de poder.

O engajamento dos acionistas é um fator essencial para o desenvolvimento das companhias de capital aberto. Seja por meio da atuação dos investidores institucionais ou pela presença dos acionistas de referência, eles têm o potencial de promover boas práticas de governança, estabilidade e crescimento sustentável. Contudo, sua atuação deve ser cuidadosa e alinhada aos interesses de todos os stakeholders, garantindo um ambiente corporativo equilibrado e transparente. Assim, é possível construir empresas mais sólidas e competitivas, capazes de gerar mais valor para suas partes interessadas e a sociedade como um todo.

* Henrique Luz, CCA+, CCoAud+ e CCF IBGC, é conselheiro independente e ex-presidente do conselho de administração do IBGC.


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