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Destruição criativa e prosperidade

PE

Peter Jancso

Desde o início dos tempos, a criatividade e a inovação têm sido o motor do desenvolvimento da humanidade e da melhoria do padrão de vida em geral. O domínio da agricultura assentou as tribos, anteriormente nômades, coletores e caçadores. Desde o fogo e a roda, passando por escrita, imprensa, astronomia, navegação, etc. até a chegada da revolução industrial no século XIX, o acúmulo de conhecimento e sua adoção tem sido muito direcionado à redução no número de horas-homem exigidos por uma certa tarefa, isto é, pela melhoria na produtividade do trabalho. Saindo da perspectiva micro para a macroeconômica, uma série de estudos econômicos sustenta a hipótese de que o fator mais relevante para explicar a diferença entre a prosperidade das nações é a produtividade.

A despeito do “trono econômico” ocupado pela produtividade, Daron Acemoglu e Simon Johnson, ambos recebedores do prêmio Nobel em 2024 e professores do MIT, se debruçaram sobre os efeitos colaterais da história da inovação, notadamente o aumento de desigualdade. Em poucas palavras, de que adianta buscarmos inovação de forma desenfreada se isso não beneficia a sociedade como um todo? Como lidar com aqueles que não são convidados a embarcar na nave da modernidade?

No lado mais interessante e cativante da obra, os autores fazem uma revisão histórica de inovações relevantes nos últimos mil anos e indicam os ganhadores e perdedores a cada novidade. No entanto, na idade média até o renascimento e iluminismo, sequer existiam os valores e princípios para defender os agricultores que sustentavam os senhores feudais e lutavam suas guerras. Obviamente, quaisquer melhorias de produtividade seriam apropriadas pelos nobres da época. Entra a revolução industrial e as inovações tornam-se exponenciais pelo domínio da máquina a vapor e a eletricidade. A mão de obra, já urbana, encontra os meios de se organizar e buscar seus direitos no século XIX. Mas apenas no século XX, com a indústria automobilística, é que os ganhos de produtividade são partilhados de forma mais equitativa, até os anos 70, quando a inovação entra na era da tecnologia. Neste momento, o pêndulo volta a pesar para o lado dos empreendedores (ou capital), em detrimento da maior parte dos assalariados.

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O final da perspectiva histórica nos traz ao momento atual e à ameaça da Inteligência Artificial e da automação desenfreada. Estamos já vivendo um novo ciclo de extinção de empregos para automação e IA? O tema é polêmico e as evidências são escassas e pouco convincentes, mas os autores escolhem um lado e soam as trombetas de alerta de que os bárbaros estão nos portões. Neste ponto, saímos do campo das evidências empíricas e estudos acadêmicos para o traiçoeiro campo das narrativas e da opinião.

A verdade é que os ganhos de produtividade demoram a se irradiar pela sociedade e geram ganhos enormes aos poucos que dominam a inovação, ao menos temporariamente. Não há nada automático sobre novas tecnologias trazerem prosperidade geral à sociedade. A tecnologia só contribui para a prosperidade quando é moldada e conduzida por direitos democráticos, valores, princípios e leis que refletem os anseios da sociedade. Para que a prosperidade seja compartilhada, a sociedade deve assumir o protagonismo das escolhas em termos econômicos, sociais e políticos, e não apenas observar passivamente a adoção da nova rede social que está “bombando”.


Power and Progress: Our Thousand-Year Struggle Over Technology and Prosperity

Daron Acemoglu, Simon Johnson

Editora: PublicAffairs

592 páginas

1⁠ª edição, 2024.


* Peter Jancso é conselheiro independente e consultor de finanças


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