Taxação de FIIs e Fiagros e o fantasma da ópera
A indústria de FII somou ao final do 1º semestre de 2024 mais de 2,7 milhões de investidores pessoas físicas – em dezembro de 2018 era menos de 210 mil CPFs[1]. Já os Fiagros atingiram também no fechamento do 1º semestre de 2024 a marca de mais de 523 mil investidores pessoa física, com a diferença que em Jan/2023 possuíam somente 188 mil CPFs investindo neste tipo de produto[2].
Cerca de 76% da custódia dos FIIs e cerca de 93% da custódia dos Fiagros é de CPFs. Essas pessoas, esses pequenos poupadores investem em média R$ 68 mil por pessoa em FIIs e R$ 21 mil por pessoa em Fiagros – é realmente o pequeno poupador que “faz número” e que está “mirando” na sua aposentadoria, pensando em uma renda mensal.
Senhor Cléber
Vamos imaginar, que um senhor, o Senhor Cléber desde 2018 vem focando suas economias em FIIs e desde 2019 tem diversificado com Fiagros, alocando sua “reserva” somente nestes dois produtos – acreditando que terá uma renda mensal quando se aposentar. Pois bem. Prestes a se aposentar esperando receber seus R$ 15 mil mensais em dividendos isentos de imposto de renda, o fantasma aparece: resolvem taxar (novamente) sua fonte de renda mensal. Mas o mais inacreditável acontece. Não taxaram o seu dividendo, taxaram as receitas do fundo. “Seu Cléber” não consegue entender qual o motivo da taxação e mais: só consegue entender que o impacto que ele “percebe” é a redução em torno de 10% a 15% nos seus dividendos. Pois bem: ele que esperava receber próximo de R$ 15 mil por mês agora receberá por volta de R$ 13,5 mil tendo que reduzir suas expectativas de gastos – e pior: se precisar vender alguma cota daqueles fundos, provavelmente irá vender com prejuízo, mais ou menos na ordem de grandeza da redução dos seus dividendos.
Um entre milhões
A história do “Seu Cléber” é uma entre milhões. Quantos destes CPFs que investem em FIIs e Fiagros estão prestes a se aposentar? Quantos destes CPFs resolveram vender seus fundos entre a notícia de uma possível taxação e a notícia de que não iriam mais taxar?
O fantasma dessa ópera fica rondando e gerando insegurança aos investidores que já estão em cena, que embora por um lado estejam construindo sua poupança – estão por outro lado financiando o desenvolvimento de dois setores muito importantes para o Brasil: o mercado imobiliário e o agro.
Quantos investidores ficam de “fora” destes produtos justamente devido a esta insegurança se “desta vez” vão taxar ou não?
Algumas pessoas brincam que no Brasil nem o passado é certo, tamanha a insegurança política, jurídica e fiscal que temos. O governo (seja ele qual for) poderia sinalizar e colocar uma pedra final neste assunto de taxação de FIIs e Fiagros indicando que justamente pelo seu interesse de construir uma Securitizadora de ativos do governo (para saber mais leia o artigo “Fannie Mae à la Brasileira”), de estruturar e comprar CRIs – indicar que estes ativos permanecerão, juntos com os CRAs e FIIs e Fiagros, isentos de imposto de renda – e de outros possíveis impostos, gerando a segurança e a tranquilidade necessárias para que estes bolsos – que financiam no longo prazo dois setores que estão acostumados a serem financiados em curto prazo – possam crescer e fazer com que mais recursos com condições melhores sejam destinados para o crescimento do nosso país, especialmente nestes dois setores que juntos colaboram em tantos níveis – no PIB, no social, e até mesmo gerando receita e empregos.

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O ano de 2024 está sendo especialmente atribulado para o mercado imobiliário, iniciando com a “Alavancagem liberada para os FIIs” através da lei 14.574 de Dez/2023, passando pelas alterações causadas pelas resoluções 5.118, 5.119 e 5.121 do CMN, alguns ofícios circulares da CVM e a Resolução 200 – entre outros. O mercado imobiliário está no “alvo” e mesmo assim vem se desenvolvendo – imagina se “deixassem” o mercado se desenvolver mais livre, é óbvio que estaríamos em outro patamar.
O mercado do agro vem sofrendo menos com interferências, e mais com a “natureza”, mesmo assim a “possível taxação” que iria acontecer e não aconteceu também traz grandes incertezas de “quando é que esse fantasma vai embora?”.
E la nave va
Diferente do filme de 1983, no qual passa-se sobre um funeral de uma cantora de ópera dentro de um navio, o mercado de FIIs e FIAgros continua vencendo uma a uma as tentativas de taxação – e quem ganha mesmo são os investidores. Mas é preciso mais. É preciso que consigamos o mesmo desfecho do “Fantasma da Ópera”. Não queremos que nossa protagonista esteja dentro de uma caixa de madeira, queremos ela ativa – e mesmo que tenha que dar a possibilidade ao fantasma de sua redenção – ele tem que sair de cena. A possível taxação inibe eventuais investidores de entrarem neste mercado e deixa aquela pulga atrás da orelha: será que este ano vão tentar taxar de novo estes fundos? O fantasma pode voltar ao subterrâneo e não precisa mais voltar. Os protagonistas desta ópera não estão no palco e sim nas plateias: o pequeno investidor não precisa de mais dificuldades para alcançar a sua aposentadoria – ele precisa de incentivos.
[1] Boletim Mensal FII B3: aceso em 11/07/2024 - https://www.b3.com.br/data/files/BC/F0/29/07/D7E909105FE89209AC094EA8/Boletim%20FII%20-%2006M24.pdf
[2] Boletim Mensal Fiagro B3: acesso em 11/07/2024 - https://www.b3.com.br/data/files/42/B4/6A/2C/033909105FE89209AC094EA8/Boletim%20Fiagro%20-%2006M24.pdf
Felipe Ribeiro é Sócio Diretor de Investimentos Alternativos do Clube FII, atua apoiando a regulação e autorregularão de securitização do mercado desde 2012, e é autor do primeiro livro dedicado a FIIs de CRI no Brasil
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