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A força do emprego no pós-pandemia

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Evandro Buccini

Evandro Buccini
Evandro Buccini, é sócio e diretor de Renda Fixa e Multimercado da Rio Bravo Investimentos | Ilustração: Julia Padula

O crescimento do PIB brasileiro em 2022 será superior ao esperado no começo do ano. A pesquisa Focus, realizada pelo Banco Central com centenas de economistas, indicava uma projeção de 0,285% em janeiro e passou para 3,05% no início de dezembro. Houve impacto positivo da liberação de recursos públicos para as famílias, como o aumento dos pagamentos do Auxílio Brasil e do FGTS. Além disso, dois indicadores tiveram desempenho muito positivo: o crédito e o mercado de trabalho. Em abril, já falamos da resiliência do crédito bancário. Nesta coluna, vamos tratar da força do emprego mesmo após a rápida recuperação pós-pandemia. 


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A taxa de desemprego divulgada pelo IBGE ficou em 8,3% nos três meses encerrados em outubro, índice 3,8 pontos percentuais menor do que um ano antes. Antes da pandemia de Covid-19, o emprego estava se recuperando, mas o desemprego estava próximo de 12%. Em poucos meses, subiu para quase 15%, com os fechamentos causados pela pandemia. A partir de 2021, entretanto, a queda foi veloz.  

A taxa de participação, percentual da população economicamente ativa que trabalha ou está procurando emprego, está em 62,4% (e ainda não voltou ao patamar de 2020). O mercado de trabalho informal concentrou boa parte dessa recuperação, mas a formalização está se recuperando: atinge 58% dos empregados — 2 pontos percentuais abaixo, porém, do registrado em fevereiro de 2020. 

Desemprego e inflação 

A recuperação foi mais rápida do que as expectativas dos economistas indicavam. Suscitou-se um debate a respeito da taxa de desemprego neutra, ou seja, aquela que não acelera a inflação. Sempre sujeita a incertezas inerentes aos modelos, essa taxa atualmente é estimada entre 9% e 10%. Quando está abaixo desse patamar — que é o caso atualmente — ela pressiona a inflação.  

Essa taxa neutra pode ser alterada por fatores estruturais como desemprego de longo prazo, poder de barganha dos empregados e sindicatos e tecnologias para ligar oferta e demanda. Mudanças estruturais advindas da reforma trabalhista podem ter promovido uma diminuição do desemprego de equilíbrio. Mas, ainda assim, a maioria dos economistas acredita que o mercado de trabalho está mais aquecido do que comporta a economia brasileira.  

A reforma trabalhista, aprovada em 2017, pode estar ajudando a recuperação do emprego. Os empregados por conta própria foram os que sofreram a menor queda na pandemia — e os que mais cresceram nos meses seguintes. 

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A massa de rendimentos reais, que acumula todos os rendimentos advindos do trabalho, cresce 11,5% em relação a outubro de 2021. Já está 2,6% acima do nível pré pandemia com a rápida reabertura de vagas de emprego. Essa medida considera somente renda do trabalho e não inclui as transferências do governo para as famílias. Já o salário médio real está 2,3% abaixo do nível de fevereiro de 2020, devido à dificuldade de acompanhar a inflação elevada no final de 2021 e começo de 2022. 

Desaceleração à frente

Apesar da resiliência do emprego, que se reflete na força da economia, já existem sinais mostrando uma desaceleração à frente. O indicador antecedente do emprego da FGV já vinha recuando desde o começo do segundo semestre de 2022 — teve uma forte queda em novembro, de 6,7%. Houve declínio em todos os componentes: serviços, consumidor e indústria. O indicador diário calculado pelo Banco Itaú (IDAT) mostra uma desaceleração menos intensa, que se refletiria em população ocupada estável nos próximos meses, comparada a um crescimento mensal acima de 1% no segundo trimestre e de 0,3% nos últimos meses. Em termos setoriais, o destaque negativo é o comércio. 

A evolução do mercado de trabalho também nos traz informações para o cálculo da produtividade do trabalho no Brasil. Os dados do observatório da produtividade da FGV confirmam o que outras fontes já mostravam: o indicador está estagnado há muitos anos. A volatilidade gerada pela pandemia movimentou a estatística, mas, passado o período mais crítico, o diagnóstico permanece.  

O desafio da produtividade

No primeiro trimestre de 2012, a produtividade por hora trabalhada era de 8,4 reais — patamar que permaneceu até o final de 2021. Com a pandemia, chegou a 10,6 reais no segundo trimestre de 2020, mas recuou lentamente para 8,4 reais no segundo trimestre de 2022. O que parecia ser o início de um movimento positivo não se confirmou. O movimento aconteceu em praticamente todos os setores. A exceção continua sendo a agropecuária, em que ainda são registrados ganhos de produtividade.  

A recuperação do mercado de trabalho no Brasil pós-Covid foi mais rápida do que o esperado — e os resultados mais recentes continuam fortes. Os indicadores antecedentes, bem como as previsões dos economistas, mostram uma desaceleração à frente, mas sem aumentos relevantes do desemprego.  

Apesar de boas notícias no curto prazo, os desafios estruturais permanecem. A reforma trabalhista foi um importante primeiro passo após décadas sem novidades nesse campo. Os primeiros impactos parecem positivos, mas ainda difíceis de quantificar. Importante observar o efeito que ela terá na produtividade do trabalho no longo prazo. Com o crescimento menor da mão de obra, não haverá outro caminho para o avanço da economia que não seja o aumento da produtividade. 

*Evandro Buccini é sócio e diretor de renda fixa e multimercado da Rio Bravo. 

 

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