Um novo olhar para antigos problemas

Enfrentamos uma crise de proporções ainda desconhecidas. Essa nebulosidade, no entanto, não deve nos inibir diante do que já se mostrou certeiro. Enfrentar problemas intrínsecos do nosso País é imperativo.
A crise desencadeada pela pandemia de covid-19 nos mostra que a desigualdade brasileira é um agravante em todas as esferas. Temos sérios desequilíbrios quando o assunto é o acesso à saúde, à educação, e também quando falamos em condições de trabalho e empregabilidade. A covid-19, vale lembrar, não criou nenhuma dessas desigualdades, apenas as realçou. No campo empresarial o cenário é semelhante. Os problemas que já existiam ganharam vulto.
Todos sabemos que a atuação do conselho de administração deve se dar num nível estratégico e que seu papel é olhar para frente, avaliar tendências futuras e buscar a inovação contínua para expandir os negócios e preservar resultados.
Na prática, no entanto, a realidade é outra. Pesquisa da consultoria Better Governance, feita em parceria com o IBGC antes da crise, mostra que metade dos conselheiros entrevistados afirmou gastar pelo menos 30% do tempo das reuniões com assuntos que dizem respeito à gestão. Outro dado preocupante: metade do tempo é dedicado à avaliação do passado dos negócios, e não o futuro.
Em outra pesquisa, realizada pelo IBGC no começo da pandemia, 90% dos administradores e executivos participantes reconheceram que suas organizações não estavam preparadas para lidar com uma crise da magnitude da atual. Outro dado que chama a atenção: segundo 40% dos participantes, são pouco frequentes as discussões sobre gestão de riscos.
Somemos a esse cenário a realidade do dia a dia. É natural que, diante de tanta adversidade, os conselhos de administração se aproximem da gestão. Reuniões que antes aconteciam uma vez por mês tornaram-se semanais. A conclusão diante de tudo isso é simples: se não temos clareza sobre a atribuição de cada órgão, teremos problemas — não apenas na forma como os negócios são conduzidos, como também naquilo que podemos chamar de conteúdo. Afinal, qual deve ser a pauta de um conselho de administração nos dias de hoje? Não basta termos mais reuniões e estarmos mais próximos da gestão se os temas caros à sociedade não estão na agenda.

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A composição dos conselhos de administração é um tema que ilustra a reflexão. Sabemos da importância dos conselheiros independentes e da premente necessidade por diversidade nos boards. Se em tempos de bonança essas características são classificadas como desejáveis, em tempos de crise elas se tornam essenciais. Conselhos diversos — e me refiro a todo tipo de diversidade, de gênero, formação, experiência, orientação sexual, raça, etnia — são mais eficientes. Ponto para quem se preparou, pois é mais difícil tomar decisões que contemplem a metade feminina da nossa população, por mero exemplo, quando apenas 10% dos assentos em conselhos são ocupados por mulheres. E para ilustrar o quão complexa é a tarefa de formar um conselho, acresça-se que um ótimo, e diverso, time de conselheiros pode ser excelente para a empresa A e não tão eficiente e eficaz para a empresa B.
Outro exemplo é o capitalismo de stakeholders, que esteve em pauta na reunião do Fórum Econômico Mundial no início deste ano. É evidente a demanda por maior envolvimento da classe empresarial, e, em consequência, dos conselheiros, com todo o espectro social.
Volto a lembrar: essa demanda não é nova, mas tornou-se urgente. As empresas são responsáveis não apenas pela geração de lucro para o acionista, mas pelo impacto que geram em seu entorno. Aqui, sob a necessidade de um olhar mais humano e generoso, estão todas as partes interessadas que circundam uma empresa — funcionários, fornecedores, clientes, comunidades — e temas vários, como impactos socioambientais e fair trade.
Na teoria, sabe-se, de há muito, que uma organização não funciona sozinha. Não há “empresas eremitas”. A prática empresarial, no entanto, estará mais à prova, doravante. Parece claro que a sociedade quer avaliar quem sabe melhor lidar com sua responsabilidade social corporativa.
*Henrique Luz (henrique@henriqueluz.com.br), CCIe, é membro independente de conselhos de administração e presidente do conselho de administração do IBGC
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